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BIOCRÓNICAS

CRIAR BIOGRAFIAS OU CRÓNICAS ROMANCEADAS DE PESSOAS OU EMPRESAS

BIOCRÓNICAS

CRIAR BIOGRAFIAS OU CRÓNICAS ROMANCEADAS DE PESSOAS OU EMPRESAS

14
Jan13

A ESTRELINHA CINTILANTE...

romanesco
foto: pastelaria estúdios editora
**

A ESTRELINHA CINTILANTE …

***

Para a virgínia com amor

*

_Mãeeee…

A voz acordara, talvez, um rato que agora deambulava no forro do teto de madeira, com sede ou fome, a ver se havia algum resquício de comida no vão do esconso…ecoou no silêncio da casa térrea de um só piso com sotão…atravessou fendas na porta do quarto contiguo…comprimida na exiguidade do espaço, soou metálica…lúgubre…a aninhar-se na porosidade das paredes caiadas de fresco…

 A mãe, cansada por um dia penoso de trabalho na fábrica do peixe, dormia profundamente, mas com a insistência do chamado acordou estremunhada…

_O que foi rapariga?dorme!

_É aquela coisa…a estrela brilhante…

_Dorme!...

Estranhamente, a visão da estrela tão pequenina, esplendorosa de tantas cores rutilantes, onde o azul-cobalto sobressaía, saltando do chão ao teto e vice-versa, ou do chão até à altura do seu nariz, deitada do lado da cama virado para a porta, fascinada pelo evento mágico desta visão, não a perturbava, antes sentia um estado de serena euforia que o adormecimento dos sentidos viria a acalmar, mas queria que a mãe a visse, lha explicasse ou projectasse na sua imaginação…que estabelecesse um fio de ligação à realidade…

Diziam as velhas que a menina tinha dons de vidência e que seria conveniente levá-la a alguém que entendesse desses mistérios, mas a mãe recusava, temerosa, de levantar ventos, raios e coriscos na sua vida já de si tão desgraçada. Só lhe faltava ter uma vidente em casa!…

Cristina foi crescendo nestes segredos, porque havia mais…, vozes que a chamavam pelo nome, laços desfeitos da bata escolar, sem ninguém por perto… aparições de pessoas já mortas que mal conhecera e a intuição de fazer o que não queria, sempre do mesmo jeito, brincando com a má catadura dos outros.

*

Casou, teve filhos e não mais viu a estrelinha cintilante, nem vozes que a chamavam de longe, mas sentia intuições que se manifestavam ora negativa ora positivamente. Aconteceu, por altura da sua segunda gravidez, sentir a evidência que estava grávida, quando o parecer dos médicos era no sentido contrário…que a haver estaria fora do lugar…os testes davam negativos…

Foi na discussão da dúvida sobre essa novidade que chegaram à conclusão que padecia duma peritonite aguda e tinha de ser operada de urgência…no hospital pensava que ia morrer…pressentia que ia morrer, e nada a angustiava mais, nem a dor aguda quase insuportável, do que pensar no filho ainda pequeno…mas submeteu-se à operação de urgência, por esse filho que já tinha e pelo outro que sabia estar a evoluir dentro do seu ventre.

A sala de operações, despida de ornamentações inúteis, na sua alvura arrepiante, tinha um ambiente de risco que os médicos procuravam disfarçar, ora brincando com ela e os seus temores, ora desvalorizando a importância da intervenção que iam fazer. Cristina, deitada na cama sob um lampião redondo, enorme, cuja luz feria o olhar fugaz que lhe dirigia, refugiava-se na sombra dos recantos… ia dizendo que não queria morrer, pelos filhos, sobretudo pelos filhos e que tivessem cuidado com este que ela sabia em gestação…depois nada…um vácuo imenso…nada…

*

Por um momento, Cristina, achou que estava morta…encolhida a um canto do teto, como se fora a sua alma, do lado de fora do corpo, olhando-se, estendida na cama de ferro branca, os braços atados e as pernas…assistira à extracção da tripa infectada…agora estava ali, expectante na transparência do seu estado…perto do seu corpo, um homem sentado, vestido de verde, olhava o sítio onde ela estava, também ele, franzindo a testa com ar preocupado ou de impaciência… Cristina fixou-se no seu corpo…nas pálpebras cerradas, no tom amarelado da pele e sentiu uma angústia substantiva ao lembrar-se do filho, algures no útero…teria morrido? Ele? Eu? Os dois?

_ Espera, mas aquele corpo sou eu…quem sou aqui de onde me vejo? Ah, lá está a estrelinha saltitando…há anos que a não via…divide-me…no explendor da sua luz que me fere o olhar…e pensa-me, de tal modo que me aflige uma enorme vontade de voltar…sim quero voltar para o meu filho…zás…a estrelinha desapareceu…mas voltou logo de seguida para junto do corpo…saltitando sempre…cintilando…emitindo aquele som suave e harmonioso…como se fora de longe…de muito longe…depois desapareceu como viera.

Abriu os olhos, agitou o corpo, estremeceu, como se uma força exterior nela irrompesse desabridamente…olhou a figura da pessoa sentada, agora um pouco mais distante que suspirou de alívio ao vê-la despertar…já dera por ela antes…quando suspensa do teto se admirava de si mesma…

_Estava a ver que não jantava! A Cristina demorou a acordar…

_Onde estou? O que faço aqui atada de pés e mãos? Que aconteceu? O meu filho?

As palavras saiam-lhe num turbilhão, dentro do mesmo fôlego, criando uma atmosfera de ansiedade, confusa nos pensamentos de antes e agora…teria morrido mesmo, ainda que por momentos? Porque se refugiara a sua alma num canto do teto? Porque voltara a estrelinha saltitante? Estava viva ou morta? Quem era aquele homem que a esperava?

O homem era o anestesista…dada a urgência da operação não fora possível a prática de alguns preceitos que ocorrem quando o procedimento é marcado com tempo…há sempre um risco de exagero na dose ministrada, ou a má recepção do organismo…o acaso…um acidente…

_Está tudo bem! – Ouviu a voz do homem dizer – tinha razão, está grávida e o seu menino, porque é um rapaz, está bem…a operação correu maravilhosamente…agora é a hora de se recompor…Espere lá…como sabe que está atada de pés e mãos? - Disse, enquanto a soltava…

_Eu vi ali de cima…vi tudo o que me fizeram, ou quase tudo, não fora a estrelinha que me distraiu…atarem-me…o corte…os vossos rostos preocupados…

Ele olhou-a abismado, sem entender…

_ É da anestesia, sabe, às vezes provoca delírios passageiros…agora já posso ir jantar…

Ficou contente por voltar a ver a estrelinha saltitante, pela segurança que lhe transmitia, por ouvir aquele zumbido ténue que ela emitia ao saltar, tão volátil que parecia embutido no ar e adormeceu…

*

Cristina era uma mãe possessiva, alegre, confiante e destemida, capaz de tudo, mesmo tudo, para salvaguardar o bem-estar dum filho…com os anos habituou-se a considerar a estrelinha cintilante, como uma manifestação protectora vinda do céu…um fenómeno do cosmos…qualquer coisa fantástica que lhe aparecia para a proteger, nem ela sabia bem de quê…uma aparição, espécie de magia, que a reconfortava e revigorava, sempre que, em adulta, o seu pensamento trilhava caminhos desconhecidos…

Terá sido assim quando “morreu”…a noite tempestuosa soltava uivos do vento que soprava de Sul…a chuva tilintava nas vidraças…chiavam os ramos das árvores e a água cantante nas caleiras do esgoto…viu-se deitada na urna, a tampa aberta, metade para cada lado, o cetim branco do leito onde o seu rosto sereno sobressaía, azulado…o vestido que idealizara e mandara guardar para a ocasião…as flores…tantas flores…

_Quando morrer, veste-me aquele vestido…- viu-se a si própria, magra, esbelta, no desenho da roupa sobre o corpo…morta!... do lado de fora, junto dos filhos e do marido, rodeando o caixão, consternados ante a evidência do seu desaparecimento físico…tocava-lhes, mas eles não a sentiam…curiosamente era a única que não chorava a sua própria morte…como se não acreditasse e aquele corpo fosse um outro espaço de si…nessa noite a estrelinha cintilante apareceu de uma forma diferente, algo estranha…saía de uma abertura subtil dos seus lábios descorados, dando-lhes cor…saltava dos lábios para o chão e voltava a entrar…parecia-lhe que só ela a via e queria tanto que eles a vissem para perceber que não era sonho, nem uma visão estereotipada de cunho divino...mas eles choravam e ela entre eles se estranhando no vai e vem da estrelinha cintilante…saltitando.

Quando acordou, teve a sensação de ter sonhado…as imagens passaram com exactidão na sua mente…apalpou as pernas, os braços, o corpo, a sentir-se viva…mordeu os lábios sem sentir a dor…apenas uma pressão nos olhos que permaneciam fechados, apesar do esforço que fazia para os abrir…quis gritar, mas não ouviu qualquer som…e era como se não respirasse…de súbito, a estrelinha cintilante, como uma criança rabina, divertida com a cena da morte projectada, atravessou-se na luz reflectida por um hiato do tempo…do azul-cobalto, no eixo central de onde saíam as pontas irizadas de mil cores, uma voz gelatinosa e doce…

_ Nasceste para sofrer, Cris, e ser feliz…só vais morrer no dia X…do mês Y….do ano Z… eles contaminaram quimicamente o teu filho…vais sofrer e desejar tantas vezes a morte…mas tal não acontecerá…ainda criarás uma menina a MÁTRIA…

Aqui o som tornou-se sussurrante, difuso, ininteligível, só perceptível a ela…que sentiu cada palavra como uma faca que a golpeasse a cada número que a pre-datava para morrer…

Despertou, agora sim, correu a casa toda a ver se era verdade…as crianças dormiam…o sol despontava sobre a falésia…olhou os campos floridos e os pássaros em alegre corropio…namoradeiros…geara de noite e uma camada fina de orvalho reluzia nas ervas rasteiras à luz matinal do sol …

_ E esta agora?! Como vou eu viver com esta informação? Acredito e procuro esquecer o que ouvi? Ou pura e simplesmente esqueço que vivi este pesadelo? Mas a data ali estava na memória viva…como um ferrete…a ser verdade faltavam uns anos largos… como se pode ser feliz sofrendo? O que estaria para acontecer ao meu filho? O que é a MÁTRIA?…Que menina?

*

A estrelinha cintilante tornou-se um mistério, quase uma obsessão, que ela agora queria desvendar…leu livros sobre fenómenos paranormais…sobre parapsicologia espiritismo…visitou bruxas, bruxos, mediuns e videntes, consultou astrólogos…padres…físicos e alquimistas…mas nada do que lhe disseram acalmou o seu interesse de saber e como não queria colocar a questão no âmbito de um qualquer mistério divinico, simplesmente sem explicação…partia do nada…se a sua natureza era humana, já lhe bastavam os complexos enredos de que se compunha a existência, decidiu por isso seguir a sua intuição…deixar passar o tempo até que uma luz se libertasse de dentro da sua alma…

Mas o tempo não lhe dava descanso…o filho mais novo foi arrastado pelas máfias da droga…foram dias e noites de angústia galopante…desceu aos abismos do não ser…

_Tão lindo, o meu filho…não mo hão-de levar…

A fome, o desespero, a carência dum abrigo…as caminhadas aos antros da desgraça, para o trazer de rastos…aguentar firme…solitária no deserto das leis insensiveis…mãe corajem…absoluta…perante os cobradores de dívidas, sem escrúpulos…perante a morosidade dos serviços hipócritas de apoio…perante a incompreensão de familiares e amigos…fez dívidas…vendeu tudo…trafulhou…mentiu…enganou…e na fronteira da indignidade, porque não há perda maior para uma mãe que um filho, acreditou que ambos venceriam…alimentou-o com amor, sempre que lúcido ele voltava…arranjou-o…cantou-lhe as virtudes da vida simples…desmistificou-lhe o medo de enfrentar a complexidade de viver…deu-se toda como exemplo de vencer…foram anos de não ser…mais de vinte,tentou a morte, mas não teve coragem…havia de ser capaz…e foi!

*

A Noite Outonal, aquecida por estranha estiagem, secava-lhe os lábios, apesar do seu constante irrigamento labial, a aragem e a ansiedade…noite escura de breu, com a Lua na sua fase de nova…todo o dia ouvira falar dum fenómeno recorrente que aconteceria hoje mesmo, pela madrugada dentro…uma chuva de estrelas cadentes…ou lá o que era, fenómeno de rara beleza nem sempre possível de observar… o seu sexto sentido impelia a sua vontade…estava alegre…uma atmosfera limpida e leve envolvia-a duma mágica quietude…ao cair da noite pôs-se ao caminho, decidida à derradeira tentativa para encontrar uma resposta…sim, seria a última vez que procurava desvendar o mistério da estrelinha saltitante…

O carreiro de terra batida que levava à praia era ladeado de árvores de pequeno e de grande porte, eucaliptos, pinheiros e acácias que exalavam aromas entrelaçados…os ramos, sobressaindo da densidade nocturna, pareciam figuras fantasmagóricas…ouvia estalidos, como se alguém pisasse ramos ressequidos…pios de mocho ou coruja…o bater das asas de aves em desequilíbrio…vultos confusos na humidade dos seus olhos…mosquitos…e um pesado silêncio, como se a todo o momento desabasse um cataclismo imprevisto…ou um assaltante desesperado…

Arfava do movimento dos pés e da mente…julgou ouvir vozes…o coração mantinha o batimento acelerado…os arbustos de formas bizarras, pareciam mover-se…em contra-mão…

_Que loucura…- pensava…

_ tantas vezes percorri estes matos à procura do meu filho…

Quando chegou à clareira da praia, respirou profundamente…havia uma ténue claridade provocada pelo brilho das estrelas na negritude sem nuvens…o mar de uma calmaria extasiante, quase se confundindo com o teto do mundo…não muito longe, uma luz tremelicava…pescadores, pensou…sentou-se no pico da duna mais alta, entre cardos e xorões…parecia uma deusa em meditação e foi sentindo a paz se interiorizando dentro do seu corpo…os olhos fixos no céu…leve…uma sensação anestesiante…quando de súbito, como neve caindo de mansinho, milhares de pontos luminosos, desciam do abismo celeste, parecendo vagalumes, irrompendo na atmosfera, silenciosamente…multicoloridos lixos cósmicos, ou restos de desperdícios invasivos, cometas, pedaços de estrelas, faulhas de luzes, de mistura com a sensibilidade dos seus olhos, num êxtase da alma…

O espectáculo maravilhoso absorvia todos os seus sentidos…nem dera que fora seguida…um vulto medonho de pessoa, curvado sobre o corpo enorme, observava a cena a poucos metros, entre arbustros e cardos humedecidos pelo orvalho

Ergueu-se, figura imponente no recorte sombrio, e desceu a duna, deslizando sobre a areia movediça, macia e fria…correu pelo espaço deixado livre na baixa-mar…pensando em nada…nada…nada, mas algo a fez voltar a cabeça para trás e viu que era seguida por uma figura asquerosa…via-lhe a baba na comissura dos lábios…os olhos faiscando no reflexo das estrelas…os cabelos desgrenhados…

Cristina sentiu um impulso de repulsa, não era medo, mas a tensão do desafio, de ser ou não capaz …entrou pelo mar rasteiro em direcção aonde as estrelas caíam…olhou para trás e viu que o vulto parara…gesticulava…berrava palavras nada inteligíveis…depois deixou de o ver…

O mar, embora calmo, tinha locais onde as correntes se encontravam, formando agueiros ou remoinhos na água, centrifugadores de objectos ou de pessoas que neles caíssem…sem se aperceber Cristina abeirou-se perigosamente dum agueiro, enquanto boiava…sentiu a força pressionante…atraindo-a e debateu-se, instintivamente, mas não saía de onde estava…nadava…invocando toda a força da sua alma…em volta, os pontos luminosos perdiam intensidade…por um momento pensou abandonar-se…deixar-se ir…mexia os pés,os braços, as mãos, estava quase e logo voltava a ser puxada para o abismo…nem um grito, ou muitos, silenciosos que ecoavam na paz da noite que pouco a pouco voltava à sua quietude…bebeu água e sal…os olhos a toldarem-se e pensou nos filhos…no filho que se recuperava…de súbito viu a mão estendida…tão luminosa e transparente…um chão firme que se abria à sua frente…evocou a força maior das suas profundezas, agarrou-se na emoção de ser capaz, agarrou-se a nada…o que sentia era uma impulsão de todo o ser em simultâneo… soltou-se das amarras da corrente…nadou para terra, exausta, e deitou-se na beira, onde a água a vinha beijar com ternura…esquecida de ao que viera, da figura horripilante que a perseguira…da estrelinha cintilante…de si…esteve ali deitada sem dar pelo tempo que já amanhecia…

*

Cristina não sabia se dormira ou se desmaiara, quando voltou a si já a maré enchia de novo e lhe cobria parte do corpo...sentiu um arrepio de frio…levantou a cabeça e espreitou a densa neblina que se pusera…a poucos metros, um volume escuro, inerte, que a água ia arrastando a cada enchio…levantou-se, trôpega, dorida nos tendões que a punham em movimento…abeirou-se…era o corpo duma pessoa…medonho…voltou costas e saíu dali apressadamente…

Sentou-se na base das dunas a recobrar as forças, as mãos segurando a cabeça entre os joelhos…sentiu um calor repentino e reparou que as suas roupas estavam secas…

_ Como é possível?

Na semi-escuridão, do lusco-fusco da madrugada, a estrelinha ainda cintilava…percorria em arcos a distância do mar até onde ela estava…

_Porque fizeste esta loucura? A vida, toda a vida é sendo…não adianta conhecer o devir…nada é constante…tudo é mutável…o ser é… constrói-se…sendo… interagindo com as hipóteses que se vão colocando…

Cristina sentiu aquela paz interior que a invadia de uma alegria subtil, sempre que o desânimo a assaltava…os olhos fixos na estrela cintilante que à sua frente saltitava e de onde saíam sons inteligíveis que se transformavam em palavras…tão doces…tão fáceis de entender na sua complexidade…

_Os humanos são sementes cósmicas, como todos os elementos vivos no espaço Terrestre…por uma razão de degenerescência química, desenvolveram a ideia que eram superiores a todos os outros…é falso…havia um equilíbrio que permitia a existência de tudo e do todo em conflituosa mas sã harmonia…os humanos destruiram o equilíbrio…inventaram os deuses para darem cobertura à sua ambição de domínio…o seu medo dos medos…subjugaram as mulheres que lhes deram origem…para ocultarem a sua fragilidade…destruiram a sabedoria para que melhor vingasse a sua mediocridade…cada ser humano tem um ponto lumioso como eu…uma fonte molecular de energia…poucos, como tu, tiveram a veleidade de ir até ao fim…por isso te revelo o que te revelei, mas digo-te: não procures mais…vive de acordo com a tua intuição…a cada dia te acontecendo…

*

A estrelinha, ditas estas palavras desapareceu, quase em simultâneo com o clarear do dia…Cristina deixou-se ficar um pouco mais, saboreando cada palavra…interligando os sentidos com a realidade subterrânea, de onde pouco a pouco emergia…

_Espera e a MÁTRIA…o que…quem é?

Olhou em frente, o mar agitado pela brisa do amanhecer, a neblina esfumando-se rasgada pelos raios esplendorosos do sol…o corpo mostrengo desaparecera da borda-d’água…ergueu-se de um salto…e retomou o retorno a casa…de caminho comprou pão…para que tudo parecesse igual a todos os dias…

 

Autor: joão raimundo gonçalves (jrg)

 

In "OCULTOS BURACOS" Colectânea de Pastelaria Estúdios Editora

 

 


17
Out12

MATRIZ !

romanesco

Natália Correia por Bual
*
MATRIZ
*
mulher 
de pés descalços
tão menina
pegadas do amanhecer
desfazendo laços
que espreitam em cada esquina
do meu viver
*
MÁTRIA
mãe de toda a criatura
saindo da bruma
onde a história se fez PÁTRIA
renasce pura
e no olhar duma criança apruma
a nova era PÁRIA
*
fêmea sedutora
atractiva dos prazeres sensuais
deixando marcas de cio
na paisagem tão enganadora
onde vingam os chacais
afasta os abutres que bebem do teu rio
sê pura e ganhadora
*
jrg
11
Out12

GALERIA DE MULHERES COM POEMAS DENTRO ! * Isabel Branco *

romanesco
isabel branco
***
GALERIA DE MULHERES
COM POEMAS DENTRO !
*
* Isabel Branco *
*
as palavras rasgam na saudade
o dom de dizer a poesia
saem ladinas correndo de dentro dela
dão forma ao poema claridade
transcendem o mito o mistério a fantasia
cintilam d'Àfrica como uma estrela
que iluminasse todas as almas da cidade
*
"nasci na terra ao longe de Lobito
de uma família inteira
e por lá fiquei eterna adolescente
é esse o tempo que sou em cada dito
nasci mulher poema tecedeira
das emoções que me vestem docemente
quando no silêncio sou um grito"
*
afina os tons da voz  e diz
da alma do poeta cada verso
como quem afaga a pele curtida do tambor
estremece pausa flor de lis 
alonga a vista sobre o desejo imerso
mãe das palavras com amor
que acorrem aos ouvidos do país
*
"Sou o sol que me arde nos cabelos...
o grito da fera ferida na anhara angolana...
o mar que se espraia e por mim chama...
a flaminga restinga...e seus apelos...
Ah! Sou aquela...que chora, ri e também ama..."
IB
*
os seus olhos espelham tanta pureza
que no seu sorriso nos quer dizer
catar por onde houver a alma profunda
de quem escreve e sente a natureza
ei-la de antes quebrar que deixar torcer
adejando sobre a ideia que a inunda
feita da alegria extasiante que lhe dá beleza
*
"sou aquela que diz o seu sentir
que se realiza na aventura da descoberta
onde houver um poeta ou poetisa
ou um poema sem nome para existir
quero dizê-lo com a alma aberta
mostrar ao mundo esta gente que em verso avisa
só o amor trará a paz para sorrir"
*
olho na mulher o poema dentro
que irradia a beleza dos mistérios africanos
sentada diz poesia que a sua alma sente
ela que escreve poemas com amor ao centro
que partilha seus valores humanos
ela que nos pede em troca e tão somente
que usemos a poesia como um ceptro
*
"porque sou a que diz a poesia
de todo o que para mim sinto como talento
não quero vivas nem honrarias
deixem-me viver plena a minha fantasia
sou mulher e se sou poema tento
cantar do Lobito o mar o porto as correrias
e de Catumbela a terra de maresia"
*
é um encanto a voz saindo do poema
com rosto iluminado de mulher
ecos da memória humana
voz que se abre livre de qualquer algema
que rasga trevas ao amanhecer
eu canto para si Isabel (de) branco sobre a savana
meu hino à liberdade como tema
autor: jrg
11
Out12

DIZER POESIA - JOÃO RAIMUNDO GONÇALVES...por ISABEL BRANCO

romanesco


*
E SE DE REPENTE

 

ME FECHASSE PARA BALANÇO?

 ***


de repente

 

enquanto à volta os meus passos
movimentam
tudo o que em mim é movimento
acho-me a pensar
que não tenho mais nada a dizer
depois do que disse
de tanto dito que li em meu redor
já só me falta não ser
na imensidão do mar eu abismo
sem sol nem luar
*
de repente
um desejo impetuoso de parar
ficar quieto
como uma maioria absoluta
a definhar
olhando sem ver o louco a louca
vicejando ao alvorecer
em cada esquina da vida a decantar
aforismos poemas
e causas tremendas horríveis
a doer-me de amar
*
de repente
tudo o que disse me soa a nada
vácuo vão inútil
de tanto pensar ensandeci de amor
pedra pesada
que não chega ao cimo da montanha
a meio descamba
e arrasta o que me resta de ter sido
coragem esperança
com a memória ainda em sangue
tão desventrada
*
de repente
não tenho deus nem pátria
nem família ou amigos
pés ou mãos que me aconcheguem
todos me calam
na profundidade de absurdos segredos
e se escudam
na promiscuidade da minha evidência
árida estéril imbecil
a propagar que já não tenho medos
para onde fugir
*
de repente
se um doce veneno uma picada indolor
um terramoto uma avalanche
de ideias consecutivas me acudissem
sem ter que perder
nem explicar-me a decisão de sair
de não mais dizer
que abomino o clamor deste silêncio
de onde teimo gritar
aos meus próprios passos que me sitiam
a alma surpreendida
*
de repente
uma vontade indomável de apagar
o que me identifica
lunático a acreditar na falsa esperança
que amar é dor que amor alcança
e a não querer ver a materialização fatal
que me e nos condena
à servil condição de sonhadores
de criar sonhos especular
sabendo de antemão que não vale mais a pena
viver nesta agonia a adiar
*
de repente
desligo o botão que me liga à máquina
e permito que o meu silêncio
seja também ele um grito fantástico
a ecoar nas almas em espertina
ninguém dará por nada tão de súbito
como a luz que se apaga
fica ainda a claridade do apagão a confundir-nos
sinto a leveza da queda
neste abismo que é o não ser em absoluto
depois volto à normalidade de viver
**
como se nada tivesse acontecido!!!

 


 

autor: jrg

***


REGURGITAR AMOR...


**
Imagino a gruta
para onde te levo
sob a falésia os arbustos
o aroma das urzes
onde te rimo com mar
e o mar de tanto amar
tão teu e meu a dor
*
lembro o sonho
de amantes sem segredos
enrolados nos corpos
possessos de beijos
para diversão das almas
que sabiam
da efemeridade dos medos
*
evoco da memória
que havia escondido no sonho
um pesadelo activado
porque amavas demais
um outro que em mim achavas
tão parecido ou crente a jeito
no sonho feito segredo
*
recordo o meu o teu
desinquietado desassossego
por onde desvairados
nos amamos sem pudor os corpos
por entre manchas de ternura
lágrimas compulsivas
de sal e mel te escorriam
*
regurgito onde te memorizo
o grito o gesto subil o cheiro
as palavras que disseste
de amor sentido meu degredo
e da vontade que é partir
ao teu e meu encontro
dizer-te que não tenhas medo
*
autor: JRG

07
Out12

PORQUE CHORAS MEU AMOR ?

romanesco
imagem pública tirada da net
*
PORQUE CHORAS MEU AMOR ?
*
diz-me porque tanto chora a tua alma 
porque gritas no silêncio a tua dor
que fome o teu espírito não acalma
que angústia não te basta o meu amor
*
Porque procuras no silêncio a resposta
porque te recusas ouvir minha voz
que sou o escravo da tua vida exposta
que sou a outra parte de ti em nós
*
Porque choras na tua alma meu amor
se o mar e o céu te e nos amparam
é tempo de soltares os nós das amarras
É tempo de te abrires bela rara flor
orgulhosa dos seres que em ti amaram
tão formiga no canto das cigarras
*
diz-me porque lágrimas tão amargas
me tornam impotente por afasia
mordes os lábios soluças e me afagas
com suspiros e cheiros a maresia
*
porque choram teus olhos madrugada
doces meigos febris de que agonia
teu coração te faz sentir mais culpada
porque choras meu amor de poesia
*
porque choram os teus olhos meu amor
quanta emoção e quantas mágoas
se por amor plantei para ti este jardim
onde criei teu reino te fiz bela flor
regada a carinho ternura e puras águas
para te sentir e me sentires a mim
autor:jrg
26
Set12

JÁ NÃO HÁ MOSCAS EM SETEMBRO !

romanesco

**
imagem pública tirada da net
**
em Setembro
eram comuns as moscas
miudinhas irritantes
atravessando até Outubro
portas abertas e toscas
zumbindo pela casa aviltantes
adejando em círculos como roscas
*
mas isso era no tempo
em que o Verão se decompunha em lixo
e a chuva tardava na limpeza
hoje o monturo é financeiro tocado a vento
em vez de moscas há um olhar fixo
sobre o que resta dum povo por riqueza
pousa no osso descarnado o seu sustento
*
quando as moscas invadiam
o reduto das vidas ainda sustentadas
fortificavam-se as janelas
ou polvilhadas com dum-dum no chão jaziam
as novas moscas são mais ladras
corpos sem alma nem luz nem estrelas
que resistem na merda que irradiam
autor: jrg
18
Set12

A ALMA DO AMOR!

romanesco

imagem pública tirada da net
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A ALMA DO AMOR !
**
o amor é tão maior que a violência
mesmo quando cai ainda dói
na alma por mais feroz do agressor
onde não mora a consciência
que amar humanamente sempre foi
um acto coragem sobre a dor
*
o amor é tão maior que hipocrisia
por aquando batido ainda ri
sobre triste figura de seu opressor
assenta na memória fantasia
de quem não ama a começar em si
não pode amar alma d'amor
*
o amor é tão maior que a tortura
sendo ferido se transforma
em dor que ama a própria morte
que cicatriza na amargura
de não vencer da vida a norma
da perdição e do desnorte
que é amar a tudo de alma pura
jrg
12
Set12

ANTES PASTORES DA LUSITÂNIA QUE VITIMAS DESTA TIRANIA!!!

romanesco

esta imagem é da Líbia libertada
mas podia ser de Portugal
para mim os tiranos são iguais
em qualquer parte do mundo
inundemos Lisboa com a nossa indignação
***
ANTES PASTORES DA LUSITÂNIA
QUE VITIMAS DESTA TIRANIA!!!
*
havia uma muralha de silêncio
e um bafo quente no ar
quando a força de polícia veio
nenhuma palavra em vão
ou movimento fuga de criança
apenas todas as mãos
numa maré viva de esperança
criaram elos de corrente
os olhos fecharam-se abismos
de estrelas a cintilarem
apertados corpos nos sorrisos
a encherem o espaço
a vida que queremos para nós
*
como água de cheia convulsiva
ocupando cada centímetro
não havia lugar a movimento
becos ruas avenidas
pisados por vitimas do terror
inundados de maresia
fogo mar ventos de montanha
que uma força conduzia
era a alma Portuguesa à solta
a dizer não à ditadura
a libertar amor face à tortura
da dignidade humilhada
dia a dia por criminosa valia
*
e logo ali se deu a comunhão
unida a força armada
à Nação que a ideia libertava
era a Lusitânia a renascer
sitiando no covil a fera edace
só então o som da alma
rompeu medos sob esperança
a ecoar pelos ouvidos
gritando vivas à terra inteira
na livre consciência
de ser força maior que o tirano
*
autor: jrg
06
Set12

MINHA MÃE...MEU PAI!

romanesco


imagem pública tirada da net
*
MINHA MÃE...MEU PAI!
*
às vezes lembro
a figura destemida de meu pai
filho dum carroceiro
quando ternamente me carregava ao ombro
possante a trabalhar sem um ai
nem tempo para pensar o dia inteiro
desde que nasci era dezembro
*
outras com nostalgia
a imagem matriarca de minha mãe
o ar severo ou a doçura
com que denunciava a minha fantasia
de querer ser outro alguém
livre pensador contra a escravatura
usando como arma a poesia
*
meu pai pouco falava
armazenando no sono a energia
trabalhador portuário
no verão nem ao domingo descansava
saía cedo madrugada quase dia
a ver se o não comiam na contagem por otário
onde houvesse trabalho ele lá estava
*
minha mãe matriarcal
administrava a casa ela era a lei presente
ora acusadora ou defensora
conforme o dia amanhecesse no juncal
repartia a sopa o sermão a quente
marcava a disciplina e promovia a honra
que a cada um cabia no casal
*
às vezes caminhávamos calados
e eu queria dizer-lhe tantas coisas que aprendera
pai que a vida de trabalho não é fardo
que se dê a quem trabalha por uns trocados
que amar era bem mais do que rendera
o Domingo a palmilhar areia ardente bem suado
sem um tempo de pensar outros cuidados
*
outras discutiamos eu e ela
sobre a minha leviandade de comprar livros
se ao menos servissem para comer
não serás nada assim sem guia nem estrela
a escrever em vão sobre papiros
trabalha estuda arranja outra arte para fazer
e eu saía pela porta longe dela
*
meu pai o meu orgulho de ser
minha mãe o meu engulho de ir além do mar
comi dos livros sim vendidos a pataco
meu pai homem esforçado minha mãe mulher
quando a vida desviou meu caminhar
e me levou da alma tanto amor do elo fraco
mas eu venci meus pais por tanto ler
autor: jrg
26
Ago12

POEMA COM MULHER DENTRO ...a XU de MIRANDELA !

romanesco

Imagem de Maria Manuela Xu: artista plástica,poetisa e fotógrafa

***

POEMA COM MULHER DENTRO...

a XU de MIRANDELA!!!

*

abro a janela do poema

espreito a veia onde o sangue corre

carrego a emoção do meu olhar

uma espiral de cor demarca o tema

rosa violeta brilho que não morre

sob um vulto de mulher para amar

aroma inebriante d’alfazema

*

todo o conjunto é um sorriso

amplo a abarcar no mundo inteiro

a tragédia de viver a vã tristeza

os olhos rutilam esplendor preciso

na alegria d’alma sinto o cheiro

da arte que nela labora a tal beleza

que acolhe sensibilidade e riso

*

 é a luz diáfana que vislumbro

à entrada do túnel onde o poema abre

imagem simples de mulher feliz

o coração estremece no meu assombro

poetisa pintora que me cobre

com o seu manto de luz eu d'aprendiz

a ver se o verde não se faz de rubro

*

ando à volta da fotografia

saber se tem um lado d’ilusão inverso

oculto do meu deslumbramento

perscruto a cor na alma louca da grafia

à procura da palavra no meu verso

que defina da imagem tão menina o pensamento

que me seduz sonhar a fantasia

*

a imagem é maravilhosamente bela

não precisa das palavras que a rodeiam alvorotadas

linda de cores luz e efusiva alegria

quisera eu fixá-la preciosa em outra tela

que não a das rimas apertadas

que ficam aquém da luz desta mulher de poesia

mas essa é exímia a arte dela

 

Autor:jrg

 

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