Domingo, 22 de Dezembro De 2013

N A T A L...





*

NATAL

*

é natal

o meu coração fica gelado

quando ouço uma criança

_mãe quero pão

e a mãe esconde a lágrima

encolhida no silêncio

*




é natal

já foi a ceia dos sem abrigo

um dia em cada ano frugal

depois volta 

o céu aberto o frio a disputa

por um lugar sem ruído

*




é natal

já não caem pássaros em dezembro

porque já não há pássaros

e o frio teima em bater à porta

dos desempregados

por uma nesga de ruína

*




é natal

cai a neve na montanha

gente feliz aquecida

poderosos sem porquê da abundância

riem tecem planos de ganância

rasgam silêncios entre os despojos

*




é natal

em honra de um deus menino

que devia justiçar

chovem presentes escasseia pão

arde o fogo na lareira

tiritam de frio os sem teto

jrg
sinto-me: indignado
música: Vampiros - Zeca Afonso
publicado por romanesco às 21:59
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Domingo, 22 de Setembro De 2013

DEUSA DA CRIAÇÃO (artº21)

 

 


**

DEUSA DA CRIAÇÃO (artº21)
*
tem nos olhos um esplendor
que se propaga ao sorriso
tornando o rosto em redor
luz do amor que eu preciso
*
não tem riscos no sobrolho
nem os lábios escarlate
não é na idade um escolho
está na frente do combate
*
não veste roupas da moda
nem sapato salto alto
sendo bela magra ou gorda
alma sombra no asfalto
*
calca com os pés de miúda
a submissa condição
e ergue as mãos tão graúda
bramando indignação
*
sendo mulher tem firmeza
sendo ser a autoridade
para abolir toda a tristeza
que há na humanidade
*
digam bom dia à mulher
sempre que ela passar
um sorriso um bem-me-quer
numa doçura de olhar
*
se for mãe é bem maior
o símbolo da criação
nenhum homem sabe a dor
de ser causa sem razão
*
que parem de a violentar
amantes dela a fingir
que gozam por a ver chorar
se a dor a não deixa sorrir
*
não é do amor pertença
é livre de o soletrar
mulher pura por avença
não é feliz se casar
*
se é deusa mulher criadora
origem da humanidade
todo o ser que a ela adora
cante a sua liberdade
*
eu canto em quadras loucas
a toda mulher resistente
sejam muitas sejam poucas
fazem o mundo diferente
*
correm alegres belas sadias
inebriadas de odores
entoam vibrantes sinfonias
tocam pétalas de flores
*
são ventos da nova história
varrem poeiras antigas
libertam penas memória
organizadas formigas
*
quem lá vem é M de Mulher
de Mãe e de aMante
é Deusa símbolo do querer
amar amor e garante
*
vem formosa e vem segura
que é livre consciência
espalha abundante ternura
cultiva arte e ciência
*
do cosmos trás a semente
da nova civilização
nova ordem p'ra toda a gente
sem cobiça nem ladrão
*
não havendo o que roubar
se cada um tiver pão
não há ganância a medrar
da pedra do coração
*
cessa enfim a mordomia
de dividir p'ra reinar
nem lucra de economia
a usura milenar
*
quem lá vem F de Feminino
trás no bojo a virtude
de conhecer seu destino
que transforma em atitude
*
não traz sexo nos olhares
nem no sorriso volúpia
tantos beijos são milhares
sem medo da tirania
*
que viva mulher para sempre
o ser mais belo do mundo
só a teme quem não cumpre
a regra do amor profundo

jrg

sinto-me: esperança
música: Danúbio Azul
publicado por romanesco às 21:36
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Sábado, 24 de Agosto De 2013

A ARTE DA LINGUAGEM POÉTICA E O CAOS!



meu sonho de ser poeta...

*

A ARTE DA LINGUAGEM POÉTICA E O CAOS!


**


o poema é

uma partícula de poesia

em construção

se tiver rima que sustente a fé

ergue-se na fantasia

de ser um monumento à abstracção

*

o verso é

o arcaboiço in do poema

na sua evolução

que marca o ritmo à melodia em rodapé

na sílaba sem algema

recheado pelo vigor da emoção

*

a poesia é

a palavra emotiva em movimento

num toque cristalino

corrente de fonemas vindos do sopé

numa espiral de tempo

que se alimenta do belo e do feminino

*

a lírica a tragédia

a farsa o drama a ode e o soneto

a sílaba tónica e a poética

a musa encanto do poeta à vezes arredia

a pena feita dum graveto

conjugando o verbo e o sujeito à ética

*

a arte maior de dizer

marcando o som e o tom da circunstância

a expressão do corpo a sinalética

que há em cada verso inverso ao poder

que abomina a fragrância

exalada pela rima que foge à sua métrica

*

eis o que sinto sendo

a expressão de comunicar tão sem segredo

o enigma da alma humana

racionalizando a emoção escrevo dizendo

que a poesia não tem medo

se fala com verdade à mente insana

*

falar d'amor sensualidade

da insurreição da alma em pensamento

do belo que há na natureza

cantando o homem e a mulher sem idade

dentro dum meio em linchamento

cuidando de salvar o que exista de beleza

*

que ninguém diga "não sabia"

da morte do amor às mãos tirânicas

sendo a morte irreversível

amar é tudo o que o poema diz à poesia

mesmo que sejam lunáticas

as rimas que amam até o impossível

*

o que é ser poetisa

ou se quiserem no limite do tempo ser poeta

um superego ou fanatismo

cheirando a mar e vento ou simples brisa

que a palavra embala ou inquieta

se não for a força que nos tira do abismo

*

há forma mais bela de morrer

que embrulhado em pétalas de pura poesia

há! é honrar a arte de pensar

e estar na frente de combate que é dizer

pintando de verdade a fantasia

dos que não querem ver o mundo a definhar

**

jrg
sinto-me: céptico
música: NE ME QUITTE PAS - Jacques Brel
publicado por romanesco às 23:30
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Domingo, 30 de Junho De 2013

AMIZADE PURA !

 

***

AMIZADE PURA 

*

olhos doces meus miminhos

leais meigos de ternura

pétalas de rosas sem espinhos

eis a amizade mais pura

jrg

sinto-me: amigo
música: Trás outro amigo também - Zeca Afonso
publicado por romanesco às 23:19
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Domingo, 05 de Maio De 2013

MÃE-MÁTRIA-MÃE


**
MÃE-MÁTRIA-MÃE
*
saúdo a mãe natureza
a mãe cósmica
a mãe dignidade de mulher
há na mãe tanta beleza
que às vezes de forma irónica
deixa a mãe tanto sofrer
*
saúdo a mãe tão rebelde
a mãe intransigente
mãe que se insurge pela dignificação
há na mãe uma saudade
dum tempo que em era recente
aquecia o coração
*
saúdo a mãe coragem
a mãe fêmea pura
a mãe sensual de ventre empinado
há na Mátria-Mãe uma miragem
do homem a renascer amor ternura
no meu país tão desgraçado
jrg
sinto-me:
música: bolero de Ravel
publicado por romanesco às 11:36
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Sábado, 20 de Abril De 2013

A SALVAÇÃO DUM PAÍS


***
A SALVAÇÃO DUM PAÍS
**
o meu país definha
em cada dia do tempo que passa
e ninguém parece ver
um país cercado d'erva daninha
voraz erva tão devassa
que não deixa meu país crescer
*
o meu país não acorda
do sobressalto nem do pesadelo
levado pelo vento à deriva
miga pão e bebe vinho faz açorda
abarca a mentira com desvelo
marca passo à espera da maré viva
*
o meu país está num beco
cuja saída se encontra obstruída
é uma ilha que o mar afunda
sem alma nem esperança um poço seco
à espera da ajuda desvalida
dos poderes insanos onde o ódio abunda
*
o meu país precisa
do ar purificador dum tempo de paz
perene de valores humanos
duma ideia que se torne na mente concisa
ou no coração tanto me faz
desde que livre do arbítrio dos tiranos
*
no meu país de gente boa
é preciso que a palavra esperança
reconstitua orgulho e alegria
de Caminha a Faro passando por Lisboa
encher a alma de confiança
varrendo o lixo do poder em confraria
*
no meu país há quem cante
que almas mortas ou somente moribundas
resvalam da coragem com desânimo
não ganhamos esta guerra senão avante
de peito aberto às barafundas
que ultrajam um povo nobre e magnânimo
*
no meu país há uma rota
ouço tambores que rufam rumo à vitória
assim acreditem os do povo maduro
armados do saber que é hoje a nova frota
a tirania é estúpida sem memória
cerremos fileiras em torno do pensamento puro

autor: jrg
sinto-me: inquietado
música: Os Vampiros - Zeca Afonso
publicado por romanesco às 21:03
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Sábado, 16 de Fevereiro De 2013

QUADRAS PENDENTES





**
QUADRAS
PENDENTES
**
água ardente
luar de lua
alma nascente
figura nua
*
vento nordeste
curtidor
seco gélido agreste
verga flor
*
terra argilosa
barrenta
mulher amorosa
vida sangrenta
*
fogo fertilizante
cinza solar
amor humanizante
corrente de ar
*
poder tempo cósmico
razão que se solta
liberdade grito afónico
d'alma em revolta
*
aura d'esperança
alegremente
só risos de criança
dão semente
*
que o mar espalha
se náufraga
o humanismo encalha
na deriva sôfrega
*
tempestade ciclónica
amarra partida
vacuidade histórica
sem volta nem ida
*
arde sobre o medo
vulcanizado
não há mais segredo
de fogo cruzado
*
sopra brisa amena
doce e fresca
aviva o fogo acena
à vida burlesca
*
antro dos ladrões
covil de hienas
abutres vampiros leões
vestidos de penas
*
força de mulher mãe
mátria de amor
feliz ser que se mantém
acima da dor
autor:jrg
sinto-me: enamorado
música: Jorge Palma
publicado por romanesco às 18:28
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Quinta-feira, 14 de Fevereiro De 2013

REVOLUÇÃO

foto pública tirada da net

*
REVOLUÇÃO
***
cansado de viver sem beira
ocupei um monte ermo
junto às águas dum ribeiro
já o sol varria a eira
lancei sementes sem termo
despedi-me do rendeiro
*
de barraco fiz abrigo
roubei galinhas deu pintos
dispus flores legumes
a pensar nos meus amigos
guardei brancos e tintos
para acender outros lumes
*
cuidei das árvores de fruto
aceitei cabras leitões
troquei favos por saladas
não mais vesti de luto
nem nos poemas as lesões
mancharam alvoradas
*
tão velho mas perseguido
por governo de ladrões
moído de terror indignação
rejuvenesci combalido
salvei alma perdi milhões
ganhei paz no coração
*
construi meu mundo novo
sob governo do tempo
que não m'onera d'impostos
sou eu poder eu povo
sem medo à chuva ao vento
livre de tais desgostos
*
jrg
sinto-me: à deriva
música: Os Vampiros - Zeca Afonso
publicado por romanesco às 23:47
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Terça-feira, 29 de Janeiro De 2013

EIXO MALDITO


**

EIXO MALDITO
***
quero ser
eixo do mal
em contraciclo
com o bem
em movimento
brincar
com as palavras
e rir gosar
com os tiranos
a tirania
e os incrédulos
*
quero estar
ao palato colado
sentir o bafo
das palavras malditas
eixo maligno
atiradas ao pantano
onde os bandidos
a soldo de todos os soldos
são lidos
postos a nu descartados
mas resistem
*
quero jogar
ao eixo rebaldeixo
a chiar
com o dedo apontado
à ladroagem
entre flores a roubar
impunes
às regras da sorte
que anulam
com o devido silêncio
a rondar
*
quero sonhar
com Primaveras
sorrir
da história triste
dos putos
à volta das reformas
miudezas de velhos
escabroso confisco
que envergonha
o sol espantado
de tamanha rasia
*
quero parecer
que sou o meu medo
impotente
pegado na baba
cobiçosa
dos criminosos
dum tal poder
que me matam de fome
me torturam
a alma com sede
de viver
jrg

sinto-me: revoltado
música: Os Vampiros - Zeca Afonso
publicado por romanesco às 16:55
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Segunda-feira, 14 de Janeiro De 2013

A ESTRELINHA CINTILANTE...

foto: pastelaria estúdios editora
**

A ESTRELINHA CINTILANTE …

***

Para a virgínia com amor

*

_Mãeeee…

A voz acordara, talvez, um rato que agora deambulava no forro do teto de madeira, com sede ou fome, a ver se havia algum resquício de comida no vão do esconso…ecoou no silêncio da casa térrea de um só piso com sotão…atravessou fendas na porta do quarto contiguo…comprimida na exiguidade do espaço, soou metálica…lúgubre…a aninhar-se na porosidade das paredes caiadas de fresco…

 A mãe, cansada por um dia penoso de trabalho na fábrica do peixe, dormia profundamente, mas com a insistência do chamado acordou estremunhada…

_O que foi rapariga?dorme!

_É aquela coisa…a estrela brilhante…

_Dorme!...

Estranhamente, a visão da estrela tão pequenina, esplendorosa de tantas cores rutilantes, onde o azul-cobalto sobressaía, saltando do chão ao teto e vice-versa, ou do chão até à altura do seu nariz, deitada do lado da cama virado para a porta, fascinada pelo evento mágico desta visão, não a perturbava, antes sentia um estado de serena euforia que o adormecimento dos sentidos viria a acalmar, mas queria que a mãe a visse, lha explicasse ou projectasse na sua imaginação…que estabelecesse um fio de ligação à realidade…

Diziam as velhas que a menina tinha dons de vidência e que seria conveniente levá-la a alguém que entendesse desses mistérios, mas a mãe recusava, temerosa, de levantar ventos, raios e coriscos na sua vida já de si tão desgraçada. Só lhe faltava ter uma vidente em casa!…

Cristina foi crescendo nestes segredos, porque havia mais…, vozes que a chamavam pelo nome, laços desfeitos da bata escolar, sem ninguém por perto… aparições de pessoas já mortas que mal conhecera e a intuição de fazer o que não queria, sempre do mesmo jeito, brincando com a má catadura dos outros.

*

Casou, teve filhos e não mais viu a estrelinha cintilante, nem vozes que a chamavam de longe, mas sentia intuições que se manifestavam ora negativa ora positivamente. Aconteceu, por altura da sua segunda gravidez, sentir a evidência que estava grávida, quando o parecer dos médicos era no sentido contrário…que a haver estaria fora do lugar…os testes davam negativos…

Foi na discussão da dúvida sobre essa novidade que chegaram à conclusão que padecia duma peritonite aguda e tinha de ser operada de urgência…no hospital pensava que ia morrer…pressentia que ia morrer, e nada a angustiava mais, nem a dor aguda quase insuportável, do que pensar no filho ainda pequeno…mas submeteu-se à operação de urgência, por esse filho que já tinha e pelo outro que sabia estar a evoluir dentro do seu ventre.

A sala de operações, despida de ornamentações inúteis, na sua alvura arrepiante, tinha um ambiente de risco que os médicos procuravam disfarçar, ora brincando com ela e os seus temores, ora desvalorizando a importância da intervenção que iam fazer. Cristina, deitada na cama sob um lampião redondo, enorme, cuja luz feria o olhar fugaz que lhe dirigia, refugiava-se na sombra dos recantos… ia dizendo que não queria morrer, pelos filhos, sobretudo pelos filhos e que tivessem cuidado com este que ela sabia em gestação…depois nada…um vácuo imenso…nada…

*

Por um momento, Cristina, achou que estava morta…encolhida a um canto do teto, como se fora a sua alma, do lado de fora do corpo, olhando-se, estendida na cama de ferro branca, os braços atados e as pernas…assistira à extracção da tripa infectada…agora estava ali, expectante na transparência do seu estado…perto do seu corpo, um homem sentado, vestido de verde, olhava o sítio onde ela estava, também ele, franzindo a testa com ar preocupado ou de impaciência… Cristina fixou-se no seu corpo…nas pálpebras cerradas, no tom amarelado da pele e sentiu uma angústia substantiva ao lembrar-se do filho, algures no útero…teria morrido? Ele? Eu? Os dois?

_ Espera, mas aquele corpo sou eu…quem sou aqui de onde me vejo? Ah, lá está a estrelinha saltitando…há anos que a não via…divide-me…no explendor da sua luz que me fere o olhar…e pensa-me, de tal modo que me aflige uma enorme vontade de voltar…sim quero voltar para o meu filho…zás…a estrelinha desapareceu…mas voltou logo de seguida para junto do corpo…saltitando sempre…cintilando…emitindo aquele som suave e harmonioso…como se fora de longe…de muito longe…depois desapareceu como viera.

Abriu os olhos, agitou o corpo, estremeceu, como se uma força exterior nela irrompesse desabridamente…olhou a figura da pessoa sentada, agora um pouco mais distante que suspirou de alívio ao vê-la despertar…já dera por ela antes…quando suspensa do teto se admirava de si mesma…

_Estava a ver que não jantava! A Cristina demorou a acordar…

_Onde estou? O que faço aqui atada de pés e mãos? Que aconteceu? O meu filho?

As palavras saiam-lhe num turbilhão, dentro do mesmo fôlego, criando uma atmosfera de ansiedade, confusa nos pensamentos de antes e agora…teria morrido mesmo, ainda que por momentos? Porque se refugiara a sua alma num canto do teto? Porque voltara a estrelinha saltitante? Estava viva ou morta? Quem era aquele homem que a esperava?

O homem era o anestesista…dada a urgência da operação não fora possível a prática de alguns preceitos que ocorrem quando o procedimento é marcado com tempo…há sempre um risco de exagero na dose ministrada, ou a má recepção do organismo…o acaso…um acidente…

_Está tudo bem! – Ouviu a voz do homem dizer – tinha razão, está grávida e o seu menino, porque é um rapaz, está bem…a operação correu maravilhosamente…agora é a hora de se recompor…Espere lá…como sabe que está atada de pés e mãos? - Disse, enquanto a soltava…

_Eu vi ali de cima…vi tudo o que me fizeram, ou quase tudo, não fora a estrelinha que me distraiu…atarem-me…o corte…os vossos rostos preocupados…

Ele olhou-a abismado, sem entender…

_ É da anestesia, sabe, às vezes provoca delírios passageiros…agora já posso ir jantar…

Ficou contente por voltar a ver a estrelinha saltitante, pela segurança que lhe transmitia, por ouvir aquele zumbido ténue que ela emitia ao saltar, tão volátil que parecia embutido no ar e adormeceu…

*

Cristina era uma mãe possessiva, alegre, confiante e destemida, capaz de tudo, mesmo tudo, para salvaguardar o bem-estar dum filho…com os anos habituou-se a considerar a estrelinha cintilante, como uma manifestação protectora vinda do céu…um fenómeno do cosmos…qualquer coisa fantástica que lhe aparecia para a proteger, nem ela sabia bem de quê…uma aparição, espécie de magia, que a reconfortava e revigorava, sempre que, em adulta, o seu pensamento trilhava caminhos desconhecidos…

Terá sido assim quando “morreu”…a noite tempestuosa soltava uivos do vento que soprava de Sul…a chuva tilintava nas vidraças…chiavam os ramos das árvores e a água cantante nas caleiras do esgoto…viu-se deitada na urna, a tampa aberta, metade para cada lado, o cetim branco do leito onde o seu rosto sereno sobressaía, azulado…o vestido que idealizara e mandara guardar para a ocasião…as flores…tantas flores…

_Quando morrer, veste-me aquele vestido…- viu-se a si própria, magra, esbelta, no desenho da roupa sobre o corpo…morta!... do lado de fora, junto dos filhos e do marido, rodeando o caixão, consternados ante a evidência do seu desaparecimento físico…tocava-lhes, mas eles não a sentiam…curiosamente era a única que não chorava a sua própria morte…como se não acreditasse e aquele corpo fosse um outro espaço de si…nessa noite a estrelinha cintilante apareceu de uma forma diferente, algo estranha…saía de uma abertura subtil dos seus lábios descorados, dando-lhes cor…saltava dos lábios para o chão e voltava a entrar…parecia-lhe que só ela a via e queria tanto que eles a vissem para perceber que não era sonho, nem uma visão estereotipada de cunho divino...mas eles choravam e ela entre eles se estranhando no vai e vem da estrelinha cintilante…saltitando.

Quando acordou, teve a sensação de ter sonhado…as imagens passaram com exactidão na sua mente…apalpou as pernas, os braços, o corpo, a sentir-se viva…mordeu os lábios sem sentir a dor…apenas uma pressão nos olhos que permaneciam fechados, apesar do esforço que fazia para os abrir…quis gritar, mas não ouviu qualquer som…e era como se não respirasse…de súbito, a estrelinha cintilante, como uma criança rabina, divertida com a cena da morte projectada, atravessou-se na luz reflectida por um hiato do tempo…do azul-cobalto, no eixo central de onde saíam as pontas irizadas de mil cores, uma voz gelatinosa e doce…

_ Nasceste para sofrer, Cris, e ser feliz…só vais morrer no dia X…do mês Y….do ano Z… eles contaminaram quimicamente o teu filho…vais sofrer e desejar tantas vezes a morte…mas tal não acontecerá…ainda criarás uma menina a MÁTRIA…

Aqui o som tornou-se sussurrante, difuso, ininteligível, só perceptível a ela…que sentiu cada palavra como uma faca que a golpeasse a cada número que a pre-datava para morrer…

Despertou, agora sim, correu a casa toda a ver se era verdade…as crianças dormiam…o sol despontava sobre a falésia…olhou os campos floridos e os pássaros em alegre corropio…namoradeiros…geara de noite e uma camada fina de orvalho reluzia nas ervas rasteiras à luz matinal do sol …

_ E esta agora?! Como vou eu viver com esta informação? Acredito e procuro esquecer o que ouvi? Ou pura e simplesmente esqueço que vivi este pesadelo? Mas a data ali estava na memória viva…como um ferrete…a ser verdade faltavam uns anos largos… como se pode ser feliz sofrendo? O que estaria para acontecer ao meu filho? O que é a MÁTRIA?…Que menina?

*

A estrelinha cintilante tornou-se um mistério, quase uma obsessão, que ela agora queria desvendar…leu livros sobre fenómenos paranormais…sobre parapsicologia espiritismo…visitou bruxas, bruxos, mediuns e videntes, consultou astrólogos…padres…físicos e alquimistas…mas nada do que lhe disseram acalmou o seu interesse de saber e como não queria colocar a questão no âmbito de um qualquer mistério divinico, simplesmente sem explicação…partia do nada…se a sua natureza era humana, já lhe bastavam os complexos enredos de que se compunha a existência, decidiu por isso seguir a sua intuição…deixar passar o tempo até que uma luz se libertasse de dentro da sua alma…

Mas o tempo não lhe dava descanso…o filho mais novo foi arrastado pelas máfias da droga…foram dias e noites de angústia galopante…desceu aos abismos do não ser…

_Tão lindo, o meu filho…não mo hão-de levar…

A fome, o desespero, a carência dum abrigo…as caminhadas aos antros da desgraça, para o trazer de rastos…aguentar firme…solitária no deserto das leis insensiveis…mãe corajem…absoluta…perante os cobradores de dívidas, sem escrúpulos…perante a morosidade dos serviços hipócritas de apoio…perante a incompreensão de familiares e amigos…fez dívidas…vendeu tudo…trafulhou…mentiu…enganou…e na fronteira da indignidade, porque não há perda maior para uma mãe que um filho, acreditou que ambos venceriam…alimentou-o com amor, sempre que lúcido ele voltava…arranjou-o…cantou-lhe as virtudes da vida simples…desmistificou-lhe o medo de enfrentar a complexidade de viver…deu-se toda como exemplo de vencer…foram anos de não ser…mais de vinte,tentou a morte, mas não teve coragem…havia de ser capaz…e foi!

*

A Noite Outonal, aquecida por estranha estiagem, secava-lhe os lábios, apesar do seu constante irrigamento labial, a aragem e a ansiedade…noite escura de breu, com a Lua na sua fase de nova…todo o dia ouvira falar dum fenómeno recorrente que aconteceria hoje mesmo, pela madrugada dentro…uma chuva de estrelas cadentes…ou lá o que era, fenómeno de rara beleza nem sempre possível de observar… o seu sexto sentido impelia a sua vontade…estava alegre…uma atmosfera limpida e leve envolvia-a duma mágica quietude…ao cair da noite pôs-se ao caminho, decidida à derradeira tentativa para encontrar uma resposta…sim, seria a última vez que procurava desvendar o mistério da estrelinha saltitante…

O carreiro de terra batida que levava à praia era ladeado de árvores de pequeno e de grande porte, eucaliptos, pinheiros e acácias que exalavam aromas entrelaçados…os ramos, sobressaindo da densidade nocturna, pareciam figuras fantasmagóricas…ouvia estalidos, como se alguém pisasse ramos ressequidos…pios de mocho ou coruja…o bater das asas de aves em desequilíbrio…vultos confusos na humidade dos seus olhos…mosquitos…e um pesado silêncio, como se a todo o momento desabasse um cataclismo imprevisto…ou um assaltante desesperado…

Arfava do movimento dos pés e da mente…julgou ouvir vozes…o coração mantinha o batimento acelerado…os arbustos de formas bizarras, pareciam mover-se…em contra-mão…

_Que loucura…- pensava…

_ tantas vezes percorri estes matos à procura do meu filho…

Quando chegou à clareira da praia, respirou profundamente…havia uma ténue claridade provocada pelo brilho das estrelas na negritude sem nuvens…o mar de uma calmaria extasiante, quase se confundindo com o teto do mundo…não muito longe, uma luz tremelicava…pescadores, pensou…sentou-se no pico da duna mais alta, entre cardos e xorões…parecia uma deusa em meditação e foi sentindo a paz se interiorizando dentro do seu corpo…os olhos fixos no céu…leve…uma sensação anestesiante…quando de súbito, como neve caindo de mansinho, milhares de pontos luminosos, desciam do abismo celeste, parecendo vagalumes, irrompendo na atmosfera, silenciosamente…multicoloridos lixos cósmicos, ou restos de desperdícios invasivos, cometas, pedaços de estrelas, faulhas de luzes, de mistura com a sensibilidade dos seus olhos, num êxtase da alma…

O espectáculo maravilhoso absorvia todos os seus sentidos…nem dera que fora seguida…um vulto medonho de pessoa, curvado sobre o corpo enorme, observava a cena a poucos metros, entre arbustros e cardos humedecidos pelo orvalho

Ergueu-se, figura imponente no recorte sombrio, e desceu a duna, deslizando sobre a areia movediça, macia e fria…correu pelo espaço deixado livre na baixa-mar…pensando em nada…nada…nada, mas algo a fez voltar a cabeça para trás e viu que era seguida por uma figura asquerosa…via-lhe a baba na comissura dos lábios…os olhos faiscando no reflexo das estrelas…os cabelos desgrenhados…

Cristina sentiu um impulso de repulsa, não era medo, mas a tensão do desafio, de ser ou não capaz …entrou pelo mar rasteiro em direcção aonde as estrelas caíam…olhou para trás e viu que o vulto parara…gesticulava…berrava palavras nada inteligíveis…depois deixou de o ver…

O mar, embora calmo, tinha locais onde as correntes se encontravam, formando agueiros ou remoinhos na água, centrifugadores de objectos ou de pessoas que neles caíssem…sem se aperceber Cristina abeirou-se perigosamente dum agueiro, enquanto boiava…sentiu a força pressionante…atraindo-a e debateu-se, instintivamente, mas não saía de onde estava…nadava…invocando toda a força da sua alma…em volta, os pontos luminosos perdiam intensidade…por um momento pensou abandonar-se…deixar-se ir…mexia os pés,os braços, as mãos, estava quase e logo voltava a ser puxada para o abismo…nem um grito, ou muitos, silenciosos que ecoavam na paz da noite que pouco a pouco voltava à sua quietude…bebeu água e sal…os olhos a toldarem-se e pensou nos filhos…no filho que se recuperava…de súbito viu a mão estendida…tão luminosa e transparente…um chão firme que se abria à sua frente…evocou a força maior das suas profundezas, agarrou-se na emoção de ser capaz, agarrou-se a nada…o que sentia era uma impulsão de todo o ser em simultâneo… soltou-se das amarras da corrente…nadou para terra, exausta, e deitou-se na beira, onde a água a vinha beijar com ternura…esquecida de ao que viera, da figura horripilante que a perseguira…da estrelinha cintilante…de si…esteve ali deitada sem dar pelo tempo que já amanhecia…

*

Cristina não sabia se dormira ou se desmaiara, quando voltou a si já a maré enchia de novo e lhe cobria parte do corpo...sentiu um arrepio de frio…levantou a cabeça e espreitou a densa neblina que se pusera…a poucos metros, um volume escuro, inerte, que a água ia arrastando a cada enchio…levantou-se, trôpega, dorida nos tendões que a punham em movimento…abeirou-se…era o corpo duma pessoa…medonho…voltou costas e saíu dali apressadamente…

Sentou-se na base das dunas a recobrar as forças, as mãos segurando a cabeça entre os joelhos…sentiu um calor repentino e reparou que as suas roupas estavam secas…

_ Como é possível?

Na semi-escuridão, do lusco-fusco da madrugada, a estrelinha ainda cintilava…percorria em arcos a distância do mar até onde ela estava…

_Porque fizeste esta loucura? A vida, toda a vida é sendo…não adianta conhecer o devir…nada é constante…tudo é mutável…o ser é… constrói-se…sendo… interagindo com as hipóteses que se vão colocando…

Cristina sentiu aquela paz interior que a invadia de uma alegria subtil, sempre que o desânimo a assaltava…os olhos fixos na estrela cintilante que à sua frente saltitava e de onde saíam sons inteligíveis que se transformavam em palavras…tão doces…tão fáceis de entender na sua complexidade…

_Os humanos são sementes cósmicas, como todos os elementos vivos no espaço Terrestre…por uma razão de degenerescência química, desenvolveram a ideia que eram superiores a todos os outros…é falso…havia um equilíbrio que permitia a existência de tudo e do todo em conflituosa mas sã harmonia…os humanos destruiram o equilíbrio…inventaram os deuses para darem cobertura à sua ambição de domínio…o seu medo dos medos…subjugaram as mulheres que lhes deram origem…para ocultarem a sua fragilidade…destruiram a sabedoria para que melhor vingasse a sua mediocridade…cada ser humano tem um ponto lumioso como eu…uma fonte molecular de energia…poucos, como tu, tiveram a veleidade de ir até ao fim…por isso te revelo o que te revelei, mas digo-te: não procures mais…vive de acordo com a tua intuição…a cada dia te acontecendo…

*

A estrelinha, ditas estas palavras desapareceu, quase em simultâneo com o clarear do dia…Cristina deixou-se ficar um pouco mais, saboreando cada palavra…interligando os sentidos com a realidade subterrânea, de onde pouco a pouco emergia…

_Espera e a MÁTRIA…o que…quem é?

Olhou em frente, o mar agitado pela brisa do amanhecer, a neblina esfumando-se rasgada pelos raios esplendorosos do sol…o corpo mostrengo desaparecera da borda-d’água…ergueu-se de um salto…e retomou o retorno a casa…de caminho comprou pão…para que tudo parecesse igual a todos os dias…

 

Autor: joão raimundo gonçalves (jrg)

 

In "OCULTOS BURACOS" Colectânea de Pastelaria Estúdios Editora

 

 


sinto-me:
música: encosta-te a mim - Jorge Palma
publicado por romanesco às 22:46
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