Domingo, 22 de Dezembro De 2013

N A T A L...





*

NATAL

*

é natal

o meu coração fica gelado

quando ouço uma criança

_mãe quero pão

e a mãe esconde a lágrima

encolhida no silêncio

*




é natal

já foi a ceia dos sem abrigo

um dia em cada ano frugal

depois volta 

o céu aberto o frio a disputa

por um lugar sem ruído

*




é natal

já não caem pássaros em dezembro

porque já não há pássaros

e o frio teima em bater à porta

dos desempregados

por uma nesga de ruína

*




é natal

cai a neve na montanha

gente feliz aquecida

poderosos sem porquê da abundância

riem tecem planos de ganância

rasgam silêncios entre os despojos

*




é natal

em honra de um deus menino

que devia justiçar

chovem presentes escasseia pão

arde o fogo na lareira

tiritam de frio os sem teto

jrg
sinto-me: indignado
música: Vampiros - Zeca Afonso
publicado por romanesco às 21:59
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Domingo, 22 de Setembro De 2013

DEUSA DA CRIAÇÃO (artº21)

 

 


**

DEUSA DA CRIAÇÃO (artº21)
*
tem nos olhos um esplendor
que se propaga ao sorriso
tornando o rosto em redor
luz do amor que eu preciso
*
não tem riscos no sobrolho
nem os lábios escarlate
não é na idade um escolho
está na frente do combate
*
não veste roupas da moda
nem sapato salto alto
sendo bela magra ou gorda
alma sombra no asfalto
*
calca com os pés de miúda
a submissa condição
e ergue as mãos tão graúda
bramando indignação
*
sendo mulher tem firmeza
sendo ser a autoridade
para abolir toda a tristeza
que há na humanidade
*
digam bom dia à mulher
sempre que ela passar
um sorriso um bem-me-quer
numa doçura de olhar
*
se for mãe é bem maior
o símbolo da criação
nenhum homem sabe a dor
de ser causa sem razão
*
que parem de a violentar
amantes dela a fingir
que gozam por a ver chorar
se a dor a não deixa sorrir
*
não é do amor pertença
é livre de o soletrar
mulher pura por avença
não é feliz se casar
*
se é deusa mulher criadora
origem da humanidade
todo o ser que a ela adora
cante a sua liberdade
*
eu canto em quadras loucas
a toda mulher resistente
sejam muitas sejam poucas
fazem o mundo diferente
*
correm alegres belas sadias
inebriadas de odores
entoam vibrantes sinfonias
tocam pétalas de flores
*
são ventos da nova história
varrem poeiras antigas
libertam penas memória
organizadas formigas
*
quem lá vem é M de Mulher
de Mãe e de aMante
é Deusa símbolo do querer
amar amor e garante
*
vem formosa e vem segura
que é livre consciência
espalha abundante ternura
cultiva arte e ciência
*
do cosmos trás a semente
da nova civilização
nova ordem p'ra toda a gente
sem cobiça nem ladrão
*
não havendo o que roubar
se cada um tiver pão
não há ganância a medrar
da pedra do coração
*
cessa enfim a mordomia
de dividir p'ra reinar
nem lucra de economia
a usura milenar
*
quem lá vem F de Feminino
trás no bojo a virtude
de conhecer seu destino
que transforma em atitude
*
não traz sexo nos olhares
nem no sorriso volúpia
tantos beijos são milhares
sem medo da tirania
*
que viva mulher para sempre
o ser mais belo do mundo
só a teme quem não cumpre
a regra do amor profundo

jrg

sinto-me: esperança
música: Danúbio Azul
publicado por romanesco às 21:36
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Sábado, 24 de Agosto De 2013

A ARTE DA LINGUAGEM POÉTICA E O CAOS!



meu sonho de ser poeta...

*

A ARTE DA LINGUAGEM POÉTICA E O CAOS!


**


o poema é

uma partícula de poesia

em construção

se tiver rima que sustente a fé

ergue-se na fantasia

de ser um monumento à abstracção

*

o verso é

o arcaboiço in do poema

na sua evolução

que marca o ritmo à melodia em rodapé

na sílaba sem algema

recheado pelo vigor da emoção

*

a poesia é

a palavra emotiva em movimento

num toque cristalino

corrente de fonemas vindos do sopé

numa espiral de tempo

que se alimenta do belo e do feminino

*

a lírica a tragédia

a farsa o drama a ode e o soneto

a sílaba tónica e a poética

a musa encanto do poeta à vezes arredia

a pena feita dum graveto

conjugando o verbo e o sujeito à ética

*

a arte maior de dizer

marcando o som e o tom da circunstância

a expressão do corpo a sinalética

que há em cada verso inverso ao poder

que abomina a fragrância

exalada pela rima que foge à sua métrica

*

eis o que sinto sendo

a expressão de comunicar tão sem segredo

o enigma da alma humana

racionalizando a emoção escrevo dizendo

que a poesia não tem medo

se fala com verdade à mente insana

*

falar d'amor sensualidade

da insurreição da alma em pensamento

do belo que há na natureza

cantando o homem e a mulher sem idade

dentro dum meio em linchamento

cuidando de salvar o que exista de beleza

*

que ninguém diga "não sabia"

da morte do amor às mãos tirânicas

sendo a morte irreversível

amar é tudo o que o poema diz à poesia

mesmo que sejam lunáticas

as rimas que amam até o impossível

*

o que é ser poetisa

ou se quiserem no limite do tempo ser poeta

um superego ou fanatismo

cheirando a mar e vento ou simples brisa

que a palavra embala ou inquieta

se não for a força que nos tira do abismo

*

há forma mais bela de morrer

que embrulhado em pétalas de pura poesia

há! é honrar a arte de pensar

e estar na frente de combate que é dizer

pintando de verdade a fantasia

dos que não querem ver o mundo a definhar

**

jrg
sinto-me: céptico
música: NE ME QUITTE PAS - Jacques Brel
publicado por romanesco às 23:30
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Sábado, 06 de Julho De 2013

SE FOSSE...MAS NÃO ERA...ERA TÃO SÓ

*

SE FOSSE...MAS NÃO ERA...ERA TÃO SÓ
***
se fosse
apenas uma brecha
a abrir fenda
na velha constituição
se fosse
apenas um bando criminoso
a destruir um país
condenando um povo à servidão
se fosse
apenas uma pausa para pensar
refrescar pensamento
a retomar a rota da evolução
se fosse 
apenas um pesadelo
saído dum sonho
para despertar a consciência
se fosse
apenas uma involução
para apagar erros
para que a memória se remisse
se fosse
apenas uma farsa representada ao vivo
para nos amedrontar
quando já nada fazia sentido
se fosse
uma história com final feliz
para enganar a avidez
e trazer de volta a alma penhorada
***
mas não era
o sol cansava-se da cegueira
que projectava o caos
a guerra dos submundos era agora
era tão só
uma Fénix mulher que renascia
das cinzas da história
soberana e faminta de amor
era tão só
um novo humanismo que repunha
a verdade histórica
livre da peçonha e do histrionismo
era tão só
uma avalancha de ideias vigorosas
recheadas de justiça
numa nova lei orgânica para a vida
era tão só
ponto por ponto a alforria do homem
livre da corrupção
contida nas entrelinhas
era tão só
a Primavera eleita a infinita
sobrepondo a beleza
que as trevas escondiam com astúcia
era tão só
uma gota de azeite e um pavio
que findos os prazos
iluminavam de amor a tanta gente
jrg

sinto-me: esperança
música: Os Vampiros - Zeca Afonso
publicado por romanesco às 18:09
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Domingo, 30 de Junho De 2013

AMIZADE PURA !

 

***

AMIZADE PURA 

*

olhos doces meus miminhos

leais meigos de ternura

pétalas de rosas sem espinhos

eis a amizade mais pura

jrg

sinto-me: amigo
música: Trás outro amigo também - Zeca Afonso
publicado por romanesco às 23:19
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Domingo, 05 de Maio De 2013

MÃE-MÁTRIA-MÃE


**
MÃE-MÁTRIA-MÃE
*
saúdo a mãe natureza
a mãe cósmica
a mãe dignidade de mulher
há na mãe tanta beleza
que às vezes de forma irónica
deixa a mãe tanto sofrer
*
saúdo a mãe tão rebelde
a mãe intransigente
mãe que se insurge pela dignificação
há na mãe uma saudade
dum tempo que em era recente
aquecia o coração
*
saúdo a mãe coragem
a mãe fêmea pura
a mãe sensual de ventre empinado
há na Mátria-Mãe uma miragem
do homem a renascer amor ternura
no meu país tão desgraçado
jrg
sinto-me:
música: bolero de Ravel
publicado por romanesco às 11:36
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Sábado, 20 de Abril De 2013

A SALVAÇÃO DUM PAÍS


***
A SALVAÇÃO DUM PAÍS
**
o meu país definha
em cada dia do tempo que passa
e ninguém parece ver
um país cercado d'erva daninha
voraz erva tão devassa
que não deixa meu país crescer
*
o meu país não acorda
do sobressalto nem do pesadelo
levado pelo vento à deriva
miga pão e bebe vinho faz açorda
abarca a mentira com desvelo
marca passo à espera da maré viva
*
o meu país está num beco
cuja saída se encontra obstruída
é uma ilha que o mar afunda
sem alma nem esperança um poço seco
à espera da ajuda desvalida
dos poderes insanos onde o ódio abunda
*
o meu país precisa
do ar purificador dum tempo de paz
perene de valores humanos
duma ideia que se torne na mente concisa
ou no coração tanto me faz
desde que livre do arbítrio dos tiranos
*
no meu país de gente boa
é preciso que a palavra esperança
reconstitua orgulho e alegria
de Caminha a Faro passando por Lisboa
encher a alma de confiança
varrendo o lixo do poder em confraria
*
no meu país há quem cante
que almas mortas ou somente moribundas
resvalam da coragem com desânimo
não ganhamos esta guerra senão avante
de peito aberto às barafundas
que ultrajam um povo nobre e magnânimo
*
no meu país há uma rota
ouço tambores que rufam rumo à vitória
assim acreditem os do povo maduro
armados do saber que é hoje a nova frota
a tirania é estúpida sem memória
cerremos fileiras em torno do pensamento puro

autor: jrg
sinto-me: inquietado
música: Os Vampiros - Zeca Afonso
publicado por romanesco às 21:03
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Sábado, 16 de Fevereiro De 2013

QUADRAS PENDENTES





**
QUADRAS
PENDENTES
**
água ardente
luar de lua
alma nascente
figura nua
*
vento nordeste
curtidor
seco gélido agreste
verga flor
*
terra argilosa
barrenta
mulher amorosa
vida sangrenta
*
fogo fertilizante
cinza solar
amor humanizante
corrente de ar
*
poder tempo cósmico
razão que se solta
liberdade grito afónico
d'alma em revolta
*
aura d'esperança
alegremente
só risos de criança
dão semente
*
que o mar espalha
se náufraga
o humanismo encalha
na deriva sôfrega
*
tempestade ciclónica
amarra partida
vacuidade histórica
sem volta nem ida
*
arde sobre o medo
vulcanizado
não há mais segredo
de fogo cruzado
*
sopra brisa amena
doce e fresca
aviva o fogo acena
à vida burlesca
*
antro dos ladrões
covil de hienas
abutres vampiros leões
vestidos de penas
*
força de mulher mãe
mátria de amor
feliz ser que se mantém
acima da dor
autor:jrg
sinto-me: enamorado
música: Jorge Palma
publicado por romanesco às 18:28
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Quinta-feira, 14 de Fevereiro De 2013

REVOLUÇÃO

foto pública tirada da net

*
REVOLUÇÃO
***
cansado de viver sem beira
ocupei um monte ermo
junto às águas dum ribeiro
já o sol varria a eira
lancei sementes sem termo
despedi-me do rendeiro
*
de barraco fiz abrigo
roubei galinhas deu pintos
dispus flores legumes
a pensar nos meus amigos
guardei brancos e tintos
para acender outros lumes
*
cuidei das árvores de fruto
aceitei cabras leitões
troquei favos por saladas
não mais vesti de luto
nem nos poemas as lesões
mancharam alvoradas
*
tão velho mas perseguido
por governo de ladrões
moído de terror indignação
rejuvenesci combalido
salvei alma perdi milhões
ganhei paz no coração
*
construi meu mundo novo
sob governo do tempo
que não m'onera d'impostos
sou eu poder eu povo
sem medo à chuva ao vento
livre de tais desgostos
*
jrg
sinto-me: à deriva
música: Os Vampiros - Zeca Afonso
publicado por romanesco às 23:47
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Terça-feira, 29 de Janeiro De 2013

EIXO MALDITO


**

EIXO MALDITO
***
quero ser
eixo do mal
em contraciclo
com o bem
em movimento
brincar
com as palavras
e rir gosar
com os tiranos
a tirania
e os incrédulos
*
quero estar
ao palato colado
sentir o bafo
das palavras malditas
eixo maligno
atiradas ao pantano
onde os bandidos
a soldo de todos os soldos
são lidos
postos a nu descartados
mas resistem
*
quero jogar
ao eixo rebaldeixo
a chiar
com o dedo apontado
à ladroagem
entre flores a roubar
impunes
às regras da sorte
que anulam
com o devido silêncio
a rondar
*
quero sonhar
com Primaveras
sorrir
da história triste
dos putos
à volta das reformas
miudezas de velhos
escabroso confisco
que envergonha
o sol espantado
de tamanha rasia
*
quero parecer
que sou o meu medo
impotente
pegado na baba
cobiçosa
dos criminosos
dum tal poder
que me matam de fome
me torturam
a alma com sede
de viver
jrg

sinto-me: revoltado
música: Os Vampiros - Zeca Afonso
publicado por romanesco às 16:55
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