Quarta-feira, 01 de Dezembro De 2010

LUA RUBRA SEM PUDOR

 

imagem fotográfica da autoria de: ESMI BAÚTO

 

LUA RUBRA SEM PUDOR


vermelho lunar
a paixão
os teus olhos amar
a emoção

***

e deste mote enfrento o clarão
a chama o fogo a negritude
a lua vermelha de amor paixão
momento sublime quietude

**

vejo a sensivel alma da artista
o súbito olhar que a cobiça
estremece o corpo apura a vista
na lua em fogo onde se fixa

**

sinto nela uma emoção explosiva
apaixonada no silêncio grita
lá dentro da alma onde se aviva
a chama do amor que a agita

**

embrulhadas na noite doce manto
estrelas sorriem cintilantes
à alma bela que quebrou encanto
abrindo segredos aos amantes

**

doravante lua e sol apaixonados
sinónimo de homem de mulher
serão na noite escura sublimados
sempre que alma pura quiser

**

autor do poema:jrg

sinto-me: sensibilidade
música: 5ª Sinfonia Bethoven
publicado por romanesco às 22:05
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
Sábado, 07 de Fevereiro De 2009

P A R A B É N S AMOR!...e vão 39

O vestido branco arrastando pelo chão, encobrindo as tuas pernas maravilhosas, sufocando os aromas do teu corpo, a grinalda de flores brancas sobre os teus cabelos negros, os teus olhos verdes, raiados de verdes intermédios, de tom escuro. mágicos , onde aprendi a ler de ti, da alma esfuziante de encantos. A luz dos teus olhos, aprendi que era amor, altivos e submissos, não a mim, de mim, mas a algo que aceitamos como o sendo do nosso ser.

O sorriso de felicidade, as gargalhadas, a ternura com que me beijavas a cada instante, por cada motivo, por mais banal. O pote do arroz que despejaram à nossa passagem triunfal, como se carecêssemos da tradição para nos consubstanciarmos de e em amor eterno.

A cerimónia do sim ante as testemunhas, o ar incrédulo de alguns que não acreditavam na possibilidade de sermos amantes, ou talvez aguardassem um desfecho trágico à sublimidade de nos amarmos para além do racionalmente aceite.

Hoje olhei-te e vi o mesmo brilho. Penso que o vi em todos os anos a sete, e sinto a mesma ansiedade, o bater forte do coração, como se fosse hoje o dia sempre em absoluto.

Só eu vejo a tua pele luzidia, só eu vislumbro o brilho dos teus olhos, só eu capto o encanto do teu sorriso, só eu te sinto airosa, o andar igual , a voz doce e quente que me chamava amor, que me chama amor. Só eu sinto que os anos não passaram, que és a minha eleita, o meu mimo de ternura, na doença e na alegria, nas tempestades agrestes que nos assolaram. Onde  outros fraquejaram por tão pouco, nós erigimos uma fortaleza de amor.

És um exemplo de mulher no comando. Trabalhaste, foste  e és mãe, avó, amante fulgurosa, a financeira que resolveu as crises, a mãe que desceu ao fundo e esgatanhou a besta. Eu fui o sonho, o sonhador que interpretou a vida como um romance em que os personagens se agitavam nas águas revoltas e lamacentas e se erigiam em ondas de espuma para continuarem a ganhar tempo ao tempo. O tempo decidiria, decidiu?

Olho-te hoje e vejo a mesma menina de há quase quarenta anos. Minha paixão de amor, minha eternidade. Habituei-me aos novos aromas, à rebeldia da tua intransigência, beijo-te nos lábios e chamo-te amor. Há quantos anos és o meu amor?

Hoje vamos ser de novo como dantes, renovaremos o cenário, ou reinventá-lo-emos, haverá música suave ao jantar, talvez velas, flores, trocaremos sorrisos e olhares indiscretos, daremos as mãos, terás momentos de ser mais coquete, talvez tomemos um duche juntos e deixar-nos-emos enredar na teia que vimos construindo, até à eternidade da tua infinitude de mulher.

Amo-te

 

sinto-me: Apaixonado
música: Danúbio Azul
publicado por romanesco às 15:10
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 07 de Novembro De 2008

UMA HISTÓRIA DE NATAL!...

 

 

O AMOR DOS SIMPLES...

I

Nasceu ao quinto dia num mês frio, Janeiro, daquele ano de sessenta  e era o terceiro filho da família que já tinha um casal e que se projectava em quantos a vida lhes proporcionar, como dádivas de Deus e frutos de se amarem nos corpos e nas almas.

Cresceu feliz, até ao dia em que o pai sucumbiu a uma cirrose galopante o que fez com que se alterassem  os destinos de todos eles, interrompendo estudos e projectos sonhados. Porque a vida é sonho e o sonho acrescenta vida .

Carlos Alberto era um rapaz elegante, altura média, cabelos e olhos castanhos, olhos leais, sorriso nos lábios e sempre amável para os amigos e os colegas do trabalho que precocemente tivera que abarcar. Tinha uma paixão e um sonho que o acompanhava de menino, a descoberta de como os  brinquedos electrónicos se moviam ao simples toque de um botão, daí a todos os aparelhos que faziam parte do seu quotidiano, uma curiosidade para descobrir o principio e o meio da ciência electrónica. Desmanchava aparelhos, reconstruía e foi ganhando amor a essa forma de recuperar aqueles que o tempo e o uso colocara fora de serviço. Fez até um curso de electrónica por correspondência, que lhe trouxe bases importantes para as  suas aventuras de descoberta ao funcionamento dos mecanismos.

O trabalho de estafeta que fazia na empresa, não era de todo monótono. É certo que via quase sempre as mesmas pessoas, mas foi-se habituando a descobrir que cada momento era diferente, como se as pessoas mudassem de dia para dia, de instante para o seguinte.

Conheceu uma jovem por quem se enamorou, uma jovem atrevida, bonitinha, mas fácil na forma como se dispunha à partilha das intimidades, ter sexo com ela, não foi um deslumbramento. Ficou-lhe um vazio para o qual não encontrava resposta, como quando um aparelho tinha tudo para funcionar e ao  carregar o botão, não acontecia nada...

Naquele dia ao entrar no escritório, distribuindo bons dias pelos que ia encontrando, parou de repente, sentindo um calafrio estranho por todo o corpo, sentindo-se preso de uns olhos castanhos, uma pele clara e aqueles cabelos compridos, castanhos como os dele. Linda, linda, linda, mas que mulher!!!...pensou e dirigiu-se a ela para a saudar.

_Olá princesa! És  a nova telefonista, ou os meus olhos estão noutra galáxia?

Ela, tímida e lisonjeada por tão principesca saudação a que nunca fora habituada, presa, num primeiro instante, naquela figura galante de olhos tão brilhantes como nunca vira em outro homem. Embora, filha única, tivesse recebido todos os mimos que se podem imaginar

_Sim, sou a nova telefonista, muito prazer. Chamo-me Clara Branca das Neves. E o senhor, quem é?

_Qual senhor, sou apenas um colega e estou encantado por te conhecer, por te sentir tão menina num corpo formoso de mulher, vais ver que nos iremos dar bem. Sou o Carlos Alberto, mas os amigos tratam-me por Carlos.

Ficaram a olhar-se, por momentos e foi ela quem primeiro desviou o olhar, numa timidez inocente, para se dedicar ao atendimento telefónico.

Carlos passou todo o dia com a  imagem de Clara no pensamento. Uma figura de menina dócil, mas convicta do que pretendia, bonita, a voz sedutora, as maminhas harmoniosas sob a camisola de lã de cor  rosa  debruada a azul na gola  junto ao pescoço, deixando este a descoberto, alto, a pedir beijos e devaneios que povoavam a sua mente. Vestia calças ele preferia ver-lhe as pernas, talvez  até sentisse o cheiro emanado do seu corpo.

Carlos e Clara, brincaram com as palavras, ele  galante, ela difícil, teimosa em reconhecer que era amor o que se vislumbrava das conversas amigas em crescendo de ansiedade e de fervor das almas enamoradas. Até que ele se decidiu a tomar a iniciativa.

Naquele dia acordou com a ideia de avançar para a consolidação desse sentimento que o absorvia na quase totalidade do seu ser e que sentia nela, como que a convidá-lo a entrar na sua vida, pela porta grande da frente, com decoro e cumprindo toda a tradição em que foram educados.

Carlos comprou um lindo anel de noivado. A caixinha era grená, de veludo, e quando a abria, o brilho das pedras preciosas ofuscavam-lhe os olhos e era também a comoção. Sim,um homem também chora, quando o momento é o do grande amor da sua vida.

Clara não sabia o que dizer naquele momento em que ele, de mãos trémulas apertando a caixa, a voz segura e quente:

_Clarinha, eu amo-te. Aceitas casar comigo?

Toda ela corou. As mãos inquietas, os olhos luzidios, os lábios entreabrindo-se num sorriso incandescente, o coração a 100 há hora como ela gostava de dizer, como o sentia há muito sempre que o via a ele, o seu Carlos.

_Sim, Carlos, eu amo-te muito e aceito casar contigo, mas primeiro vamos conhecer-nos melhor, namorar.

Ele disse que sim. Com a cabeça, com todo o corpo que se aproximou dela e numa manifestação súbita, ou esperada, deu-lhe um beijo ao de leve nos lábios carnudos e húmidos e sentiu que os corpos, o dele e o dela tinham estremecido, como se um choque eléctrico tivesse ocorrido e os aproximasse em correntes de afectos sublimes.

Em volta deles, por detrás do momento superior que viviam, os colegas aplaudiram, com palavras de parabéns e desejos de felicidade.

II

Durante cerca de quadro anos namoraram em edilicos momentos de absorção de si próprios, um no outro, com birras e amuos, seguidos de pazes feitas com mimos e outras fantasias, passeios de mão dada junto à foz, tentativas de sedução dele, para que fizessem amor, unissem os sexos numa evidência de amor que sentiam, do interior de si, ás vezes violentos, os desejos, os anseios, o cio de cada um, o cheiro indutor que se exalava dos corpos numa emanação natural que os sentimentos fortaleciam e se testavam à rigidez dos principios.

Clara fazia questão de casar virgem. Era um sonho de menina, podiam beijar-se, envolver-se em afagos, podia até mexer-lhe nas maminhas, beijá-las, mexer-lhe no sexo, beijá-lo se quisesse e ela faria o mesmo com ele, o que lhe desse prazer dela, de estar com ela, mas sexo com sexo, fazer amor, só depois do acto solene do casamento.

E ele aceitava, ardendo de desejo, mas aceitava, porque sentia por aquela mulher um amor profundo, um sentimento de respeito por tudo o que nela era um simbolo de pureza. Aceitava que fosse ela a decidir, era uma manifestação da sua, dela, maturidade, ante os desvarios infantis dele, homem, a pensar apenas na sua satisfação libidinosa.

Chegou o dia do casamento.Um primeiro de Agosto quente que marcaria para sempre as suas vidas em comum. O nervosismo e a alegria de mistura com os sentidos da enorme responsabilidade do acto que iam consumar e de  finalmente puderem dar azo a toda a imaginação dos corpos em conluio para a construção da sua felicidade. Entrar nela e ela senti-lo na sua totalidade, no seu corpo.

A festa reuniu as famílias de ambos, e amigos, em alegre convívio onde o comer foi farto e a alegria esfuziante se contagiou de uns para outros, até que a hora do voo se aproximava, para os levar à Madeira, onde projectaram  a lua de mel, impondo  que partissem.

A lua de mel na Ilha da Madeira foi paradisíaca. A Ilha é um paraíso e rodeada de mar que eles tanto amavam, foi um cenário maravilhoso que os envolveu . Fizeram sexo a noite toda, em explorações dóceis dos corpos e das sensações produzidas. Ele, mais experiente, foi-lhe ensinando do que sabia. Ela ,plenamente confiante do seu amor, deixando-se conduzir, confiante e absorvendo todas as delicias de ser amada até à exaustão. Juraram amor eterno e fidelidade aos principios do projecto comum que agora encetavam. Foram doces delírios das almas apaixonadas.

Compraram casa, na sua cidade, o Porto, para viverem, suficientemente grande para a prole que se perspectivaram ter.

Clara queria ser mãe. Carlos ansiava por ser pai. Ambos faziam projectos para esse evento maravilhoso que os extrapolaria para a eternidade. A vida fluía, simples, por entre as dificuldades que surgiam dia a dia, pequenos nadas que os enervavam, problemas das famílias de origem para cujo entendimento apelavam constantemente ao amor que sentiam um pelo outro e por si próprios enquanto parte do outro, para se entenderem, para se continuarem a amar.

Foi ela quem sugeriu que fossem ao médico, que fizessem exames, para saberem a razão de não engravidar, se havia uma falha genética ou apenas biológica, se era possivel emendar o que estivesse errado. E foram.

Os resultados dela eram animadores, nada obstava a que tivesse filhos, ser mãe. Carlos, que tivera a coragem de se submeter ao teste, ao contrário de tantos outros, que sempre consideraram que o problema de gravidez era sempre da mulher e que quando elas, após um curto tratamento, apareciam grávidas, exaltavam as suas razões, de como estavam certos, sem cuidarem de por em causa se o filho era efectivamente deles ou de um outro a que a mulher cansada de se sentir desprezada, acorrera numa conjugação de afectos para ser mãe.

Sentiu que o mundo lhe caía em cima quando os resultados lhe trouxeram a evidência da sua infertilidade. Chorou, angustiou-se, sozinho na penumbra de uma casa de banho pública, onde se refugiara, como se sentisse todo o peso da multidão da rua, como se todos os olhos o apontassem como a causa e o efeito da sua nulidade procriadora.

À noite, no sossego da casa grande, Carlos e Clara discutiram a nova realidade, partindo do zero, ele colocou tudo à disposição da mulher amada. Podiam divorciar-se e ela encontraria um homem que a estimasse e lhe desse a possibilidade de ser mãe. Clarinha dizia que não, enroscando-se no corpo dele, á procura dele, do todo dele que se esvaía nas palavras. Podiam tentar a fertilização in vitro recorrendo a dador anónimo. Clarinha, que não, ser mãe só através dele, o seu amado Carlinhos. Ele insistia com soluções que ela  podia ter um amante, de entre um dos amigos com quem simpatizasse mais, só por uns dias, até engravidar. Clarinha que não, que ele era louco, tolo, que perdera o juízo, ela aceitava não ser mãe, sem traumas. Era a vontade de Deus. Se Deus os juntara e Deus sabia que o sémen dele era infértil, ela submetia-se dócilmente à vontade de Deus. E abraçaram-se com ternura, beijaram-se, agarraram-se das palavras e dos sentimentos que deles saíra em votos de amor e fortaleceram-se na nobreza das suas decisões. Não seriam pais, nem biológicos nem afectivos. E selaram-se em sexo, como nunca até então, num frenesim de amantes na doce loucura do amor.

III

Clara conheceu um homem mais velho de quem se tornou amiga. Apresentou-o ao marido e falaram de generalidades. Era um homem de palavra fácil, palavras sedutoras que atraíam imagens de sonhos inventados. Ele falava de tudo com naturalidade, de sexo, de amores, infidelidades, de prazeres que a libido construía sem que a pudéssemos controlar. Falava de aromas e sabores, de amores absolutos e ela, Clarinha, adorava ouvi-lo, de se confrontar consigo própria e com o seu amor próprio, que reafirmava a cada teste de Anastácio Bandarra, era assim que se chamava este amigo, que viera do sul com a intenção de se fixar no Porto, caso as suas ideias se consolidassem, se materializassem em alguém predisposto a aceitar as suas teorias de vulnerabilidade da alma, quando o corpo insiste para que se completem os ciclos do absoluto, no amor e na vida em amor.

Carlos Alberto tinha plena confiança em Clarinha, nem se importava que ele, Anastácio Bandarra, a tratasse familiarmente por minha querida amiga, ou simplesmente por querida Clarinha.

Acresce dizer que Carlos Alberto tinha concebido um dispositivo electrónico capaz  de captar a grande distância imagens e sons, ainda que difusos e que colocara um em cada salto dos sapatos de Clarinha, era um sonho a realizar-se.

Não que a quisesse controlar, mas era a única possibilidade que tinha de testar o seu invento, e não dissera nada para não estragar a surpresa que lhe faria neste Natal, com as gravações de todos os passos que ela dera.

Anastácio Bandarra tinha uma fixação teórica em Clarinha, pela sua personalidade teimosa , mas dócil ao sentido das palavras, como se fosse uma contradição, um absurdo de ser e não ser, pela sedução do seu olhar e do seu sorriso, pela beleza do seu todo de mulher e considerava um desafio importante que ela se recusasse a ser mãe por amor ao seu marido. Era um homem a caminho dos sessenta anos, charmoso, cabelo grisalho e pele morena, galante no trato e quente nas palavras, que direccionava com precisão no rumo certo do que pretendia.

Ele convidou-a para saírem, num dia em que Carlos resolvera ir assistir a um jogo de Futebol que prometia grande excitação e Clarinha recusara acompanhá-lo, por não se sentir motivada para o evento.

Falaram da natureza, do mar, de países distantes, das relações entre homens e mulheres, de amor e de amizade, de amor de amigo, amor da alma que não tinha a necessidade de amar o corpo, de ter do corpo a fruição total ou abstracta.

_Sim, eu sinto uma grande amizade por ti, a que poderia chamar um outro tipo de amor, que não o que sinto pelo meu marido.

_E serias capaz de me beijar?

Clarinha corou e sorriu, olhando-o nos olhos e agarrando nos ombros dele deu-lhe um beijo no lado esquerdo do rosto.

_Já dei!...

Ele riu-se com gosto, gargalhou durante segundos entre sorrisos e palavras inteligíveis.

_Assim não vale, miúda querida. Eu dizia na boca, nos lábios, molhados pela língua, chupar a língua.

_Nunca beijei com a língua, apenas encosto de lábios, o meu Carlos não gosta. É tolo, mas eu respeito tudo do meu Carlos, o meu amor..

Anastácio Bandarra olhou surpreso a naturalidade daquela mulher que estava com ele, que ouvia dele as palavras e não desarmava de amar o seu marido, onde outras, carentes de fantasias eróticas, se deleitariam por envolver-se num romance de desvarios amorosos.

_Aluguei aqui uma casa, queres ver?

_Sim, não me importo.

Clarinha acreditava na sua intuição. Sentia que por vezes era demasiado crédula, alguma ingenuidade fora de moda, mas não se dera mal até então, se bem que neste momento, aquele homem era quase um desconhecido. Tinham-se falado à distância e era praticamente a segunda vez que se encontravam. Sentia sinceridade naqueles olhos, ainda que por vezes malandros, atrevidos, mas pareciam-lhe leais.

Anastácio Bandarra fechou a porta à chave, retirando-a da fechadura. Era um rés do chão alto, com grades nas janelas e com uma vista soberba sobre o Douro.

_Que tomas?

_Apenas água. Tens aqui uma bela casa!...E a vista é linda.

_Sabes, Clarinha, trouxe-te aqui porque quero dar-te todos os prazeres que ainda desconheces, chupar-te a língua em beijos ardentes de sedução, beijar-te o sexo húmido dos fluidos das sensações que te faço sentir, penetrar em ti no auge quase absoluto do prazer de dois corpos que se interiorizam, atingir o absoluto pleno dos corpos exaltados pela libido e fazer-te ter um filho meu, nosso que criaremos longe. Numa  Ilha, se gostas de ilhas que pode ser a Madeira, ou nos Açores. Ou numa outra cidade, Nova Iorque, Londres, Paris ou Barcelona. Sou rico, viverás como uma princesa, serás mãe. Ser mãe.

As palavras sussurradas de Anastácio Bandarra, não a fizeram desviar os olhos do seu Douro amado. E foi dizendo, com a maior naturalidade, como se não estivesse refém de uma alma, ou pensamento, de homem alucinado por um objectivo em que ela era a razão.

_Mas sabes que só faria tudo o que dissestes se fosse com o meu marido. Amo muito o meu Carlos, de uma forma que não sei bem como explicar. Estamos casados há dez anos... Quando o vejo, ainda hoje, o meu coração acelera a 100 à hora. Contigo, só se me forçasses, amarrando-me, me violasses, me matasses e devassasses o meu corpo inerte. E eu não acredito que fosses capaz de o fazer. Sou tua amiga, só te quero como amigo...

Anastácio Bandarra olhou de frente aqueles olhos castanhos, límpidos, leais e ternos, onde toda a doçura de um coração bom se espelhava.

Alguém bate à porta com estrondo.

_Clarinha!...Estás aí, meu amor? Estás viva?...

Era uma voz ansiosa, aflita. Angustiada que repetia as pancadas na porta e os gritos que exigiam uma resposta rápida, antes que arrombasse a porta com a força que um homem vai buscar nestes momentos, vá lá saber-se onde .

_Estou aqui, meu amor, meu Carlos querido, não me aconteceu nada, não se passa nada.

Clarinha correu para a porta e apanhou a chave que Anastácio Bandarra lhe estendeu, abrindo-a e recebendo nos seus braços o corpo amado.

Carlos Alberto, o rosto congestionado pela angústia e a raiva, afastou-a da frente e brandindo uma faca de cozinha dirigiu-se para Anastácio Bandarra que se encolheu a um dos cantos da sala. Clarinha gritou-lhe.

_Não!....Carlos, meu amor, não faças mal ao nosso amigo, estávamos apenas em amena cavaqueira amiga. Não se passou nada de estranho. Apenas as palavras. Mas como descobriste a casa?

_Não se passou nada e estão aqui fechados? Ele queria por certo violar-te. Eu acredito em tudo de ti, que não vieste de livre vontade, mas ele...

_Vamos para a nossa casa, explicar-nos-emos melhor.

Clarinha aproximou-se de Anastácio Bandarra e deu-lhe um beijo sobre os lábios.

Saíram ambos, Clarinha e Carlos, de mãos dadas, serena ela e ele ainda inquietado pela ansiedade da busca e pela emotividade do encontro.

O carro parecia voar. Ele olhava-a docemente e ela retribuía com o seu olhar apaixonado de menina.

Já em casa, na casa grande que compraram com as economias  de cada um, sentaram-se de frente , os olhos amantes de cada um em particular e do todo que são como um só.

_Foi apenas um teste que Deus me quis fazer. A ver, talvez, se estou pronta para mais dez anos de amor profundo com o único amor da minha vida, tu, meu Carlos adorado. E vai ser Natal...E tu? Como me descobriste, meu amor?

Carlos olhou-a surpreso, os olhos toldados pela comoção do momento, acreditando tudo dela, bebendo tudo dela, ele que acreditava que a mulher é que é o sexo superior, ou deveria ser. Descalçou-lhe um dos sapatos.

_Sabes Clarinha,  meu amor, inventei um mecanismo que procurei testar em ti sem o saberes. Aquela maquineta que vês ali é um difusor e receptor de sons e imagens, com gps, ouço as palavras e sei sempre onde estás, se te acontecesse alguma coisa, como um rapto. A transmissão é feita através desta espécie de chip que introduzi no salto dos teus sapatos.

Clara Branca das Neves levantou-se e abraçou-o com paixão e êxtase.

_Meu amor, Deus testou-nos na totalidade da nossa pequena grandeza face a Ele e saímos ambos bem desse teste maravilhoso. Amo-te sempre!...Meu Carlinhos querido!...Feliz Natal!...

_Amo-te sempre, minha doce mulher!..Minha Clarinha amada!...Feliz Natal!...

E amaram-se noite dentro, já Natal, prendando-se de inusitadas emoções, num pleno absoluto de duas almas e dois corpos consubstanciados na plenitude infinita do amor.


 

Autor: J.R.G.


 

É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem  a essência de um homem, de uma mulher. Uma oferta de Natal ou aniversário.

Escreverei por encomenda, preços  a partir de 60 Euros, de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.

Aguardo a vossa proposta.

 

J.R.G. 


 

sinto-me: espirito do Natal
música: Avé, Avé, Avé Maria.....
publicado por romanesco às 18:20
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 20 de Outubro De 2008

ÍDOLOS AMORDAÇADOS

A praia, na descida da maré, deixava um imenso espaço de areia rija que proporcionava um belíssimo campo de futebol ou  para outras práticas desportivas. Escolhiam as equipas por entre os que se juntavam, ansiosos de serem escolhido pelo líder, não tanto pela habilidade, mas pelo compromisso de ser família, ou amigo, ou interessado de ou em algo que interessava no momento e que ditava a escolha da equipa que defrontaria a outra de um bairro diferente e escolhida nos mesmo moldes e compadrios.

Mariano tinha habilidade, gostava do jogo, de fintar o adversário, correr para a baliza e fazer golo. Os festejos, a cara de raiva dos outro, tudo o alegrava e havia ainda as raparigas, que em volta do recinto demarcado com os pés, riscos imperfeitos e que junto ao mar, o vai e vem da maré ia desfazendo a tempos. Raparigas que apoiavam uma e outra equipa, consoante fosse a dos seus ídolos ou namorados, ou amigos.

Nascido de uma família humilde, Mariano tinha  a paixão do futebol, o sonho de igualar os vultos em destaque no momento, ser ainda maior,  ser cobiçado por um clube da cidade, ganhar muito dinheiro e poder ajudar a família. Poder comprar de tudo o que gostava, mas sobretudo, ser aplaudido por milhares de pessoas que gritariam o seu nome nos estádios.

Tinha uma namorada, a Nanny, cujo nome advinha de os pais terem estado emigrados em Inglaterra, novos ricos que se opunham ao namoro, por serem muito jovens diziam, mas ele sabia, ou sentia que era por serem pobres, abaixo do limite de ser aceitável ter sonhos possíveis, com uma menina bonita a quem não faltava nada em bens materiais.

Alfredo era olheiro ao serviço de vários clubes e dizia-se que tinha faro para descobrir pequenos prodígios na arte de mexer na bola. Os seus olhos de falcão em constantes movimentos, acompanhando o desenlace das jogadas de ataque, atento aos defesas, aos guarda redes, aos avançados e sobretudo os pontas de lança.

Já tinha notado a arte de Mariano, as potencialidades que, desenvolvidas num grande clube, fariam despontar toda a classe do jovem Mariano e lhe poderiam render largo milhares.de transferência em transferência.

Falou com o pai, ofereceu-lhe dinheiro e conseguiu que ele assinasse um contrato para tratar da vida futebolística do filho, incluindo os eventuais futuros direitos de imagem.

Mariano tinha terminado o 9º ano e ainda ia fazer 15 anos, mas tinha intenção de continuar a estudar. Ser jogador e estudar. Recebeu a noticia do contrato com o Alfredo, o pai entusiasmado, a mãe falava pelos cotovelos, ria-se, os olhos brilhantes. Nunca a vira tão contente, e era apenas um contrato, uma promessa, sequer havia um clube.

Sim, mas o Alfredo agora iria mexer-se. Depressa arranjaria algum interessado em o experimentar e contratar.

Alfredo mexeu-se mesmo. Tinha gravado os jogos de praia em que Mariano exibia as suas qualidades. Apresentou-os aos dois maiores clubes da cidade e obteve a garantia de um deles que queria ver o rapaz a jogar, rápido, antes que fosse a leilão e encarecesse a contratação.

A noticia foi recebida em casa de Mariano com grande alegria e muita excitação. Faziam-se planos para o imediato. Uma casa nova e confortável. Um carro que substituísse o velho Renault, roupas novas, ouro, viagens a acompanhar o filho em todos os jogos fora...

Nanny, a namorada, cautelosa, temendo o êxito rápido, as fãs, o delírio da juventude de Mariano, foi-lhe dizendo que não abandonasse a escola, que ela gostava dele e que tinha o sonho de ser sua mulher, de terem filhos, construírem uma família.

Durante três anos a equipa ganhou os torneios todos em que participou. O treinador gostava dele e colocava-o sempre a jogar. A equipa foi formada para fazer o jogo, as tácticas do jogo, de acordo com o perfil de Mariano e ele foi nesses três anos o melhor marcador de sempre na categoria em que jogava.

Mariano acabou o 12º ano já com alguma dificuldade, dada a natureza esforçada dos treinos, as chamadas à selecção. Mas Nanny, sempre na primeira linha do encorajamento a que não desistisse. Amavam-se e ele fazia tudo o que ela lhe dizia.

O treinador principal, dos seniores decidiu-se a chamá-lo à equipa principal. Foi chamado a negociar um novo contracto, onde era já ele o responsável por si próprio. Sabia do seu valor, ainda que o que contasse era o colectivo, o entrosamento com os outros. Em nenhuma actividade se é o único factor de desenvolvimento, mesmo em nós, no turbilhão de bactérias, moléculas, células que se digladiam por nos controlar cada segmento de nós e que nos proporcionam o bem estar do êxito ou o mal estar do insucesso.

A entrada na equipa principal não foi brilhante para Mariano. Os lugares ali são disputados com uma violência psicológica a que ele não estava habituado. A exposição mediática aumentou e a critica mordaz, nem sempre consequente, ao sabor da disposição dos críticos e dos seus interesses e dos lobbies que os criam.

Foi um ano de altos e baixos, Nanny estava no último ano do curso de medicina e continuava

empenhada em que ele continuasse a sua carreira Universitária. O que se mostrava impraticável, com a rigidez disciplinar dos treinos e preceitos que envolvem os jogadores de alta competição.

Alfredo, o olheiro empresário, movia-se nos bastidores, em tentativas de fazer render o objecto que podia a todo o momento e em vista das dificuldades  que via crescendo, desvalorizar-se no mercado..

Mariano, desconfortável no seio da equipa, rodeado de inveja e ante a recusa tácita dos companheiros, em o envolverem no entrosamento do conjunto da equipa, aceitou transferir-se para um clube estrangeiro.

Surgiram contratos publicitários que lhe trouxeram mais valias financeiras e imediatismo, o que atraía jovens bonitas, apenas bonitas à procura da emancipação e estatuto de vida fácil.

Nanny cansou-se. Médica estagiária, abraçou a carreira com o entusiasmo humanitário que

desde sempre cultivara no seu espírito.

Mariano tornou-se um ídolo em Espanha e conheceu a  fama. Deixou-se envolver docilmente nos enredos da idolatria efémera. Era um jovem bonito e rico. E fazia a fortuna de vários dos detentores de facto da sua imagem. Ele era apenas o objecto. Foi o que descobriu quando uma lesão prolongada o afastou dos relvados por um largo período de tempo...

              -------------------------------------------------------------------------------------------------- 

É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.

Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.

Aguardo a vossa proposta. É uma oferta bonita de Natal ou Aniversário.

 

J.R.G.

 

 

sinto-me:
música: A Barca da Fantasia. Teresa Salgueiro
publicado por romanesco às 09:55
link do post | comentar | favorito
Sábado, 27 de Setembro De 2008

EDITORES E LIVREIROS...REFLEXÕES AVULSAS SOBRE UM TEMPO

Estamos no final da década de 60 inicio de 70, anos cruciais no desenvolvimento da capacidade critica dos Portugueses, no desenvolvimento de actividades que permitiriam o elevar da auto estima individual e colectiva.

Tinha havido Maio de 68 e o país devastava-se numa guerra traumatizante contra a história e deixava escapar de si, muita da inteligência que nenhum povo pode prescindir sob pena de atrasar o acompanhamento dos demais povos desenvolvidos e empenhar a sua projecção como evidência de Nação. Ouvia-se os rumores de tempos novos. Soavam tambores.

Proliferavam editoras de livros, médias e pequenas e edições piratas e de autor, que procuravam publicitar ideias e conceitos que o regime politico proibia que se editassem pela via legal.

Ser Editor, era um trabalho prestigiado e prestigiante, que atraía idealistas da palavra, percursores de mitos que se vinham afirmando e de outros que eram já fonte  de valores emergentes numa nova ordem reclamada nas ruas de Paris e um pouco por toda a Europa.

A politica de edição e distribuição era a de levar o livro ao ponto mais recôndito. Onde houvesse uma loja que quisesse vender livros, ser depósito, montra de livros, não importava se papelaria e as livrarias eram muito poucas em todo o País.

A Verbo era a maior das editoras, com ligações ao regime e vida económica confortável, beneficiando de uma propaganda apoiada e entrada assegurada nos mecanismos que o estado apoiava, O Sousa Pinto dos Livros do Brasil liderava o mercado dos romances com a sua colecção dois mundos, O Lyon de Castro da Europa América, um estratega que soube desenvencilhar-se do estigma de opositor ao regime e beneficiou dum best seller de ocasião que apaixonou as opiniões públicas internacionais, o caso Chessman.. O Bolhosa na Bertrand, talvez a mais antiga editora e livraria do país

Os Fernandes da Portugália, o Salgueiro da Inquérito, este muito perseguido, pelo tipo de obras que publicava, ainda que de ciência como Bento de Jesus Caraça., O José Cardoso Pires na Arcádia. Na Morais o Alçada Baptista, os irmãos Manso Pinheiro na Estampa, O José Cruz Santos na Inova do Porto, um editor de gosto cultural muito apurado quer pelo conteúdo e natureza das obras que editava, quer pelo cuidado gráfico,as capas eram de autoria de Armando Alves, um vulto criativo das artes gráficas desse tempo. Os desenhos de José Rodrigues em obras maiores, como o álbum Poemas de Eugénio de Andrade.

De um modo geral, os editores editavam movidos pelo prazer de editar, com uma preocupação de serem uma parte importante no desenvolvimento cultural de um povo avesso a leituras que não fossem folhetinescas e de cordel.

Havia ainda um conjunto de editores que se destacavam pelo amor à divulgação de obras e autores que saíam do circuito comercial próprio de qualquer negócio. Cuja preocupação primeira não era o lucro, mas tão só, afrontar o sistema com obras consideradas malditas ou impróprias para consumo dos Portugueses.

Destaco Fernando Ribeiro de melo, pela sua irreverência e figura pública exuberante, não só pelo bigode tipo Salvador dali, como pelas conotações que corriam de que era Sado Masoquista. Ficaram célebres as edições de Sartre e Natália  Correia entre outras e a originalidade de lançamentos feitos numa banheira ou em passeios de carroça descendo a Avª de Liberdade.

O Victor Silva Tavares e as suas edições em papel kraft de autores de grande projecção cultural, mas de diminuta aceitação comercial,  uma originalidade absoluta em termos editoriais. A Ática, a Meridiano e a Contra Ponto do escritor maldito Luís Pacheco.  Escrever no rossio, numa mesa ambulante, junto ao café Gelo, cravando a quem passava. Ou percorrendo os escritórios dos grandes senhores da finança, como o Vinhas a quem cravava aos cem e quinhentos, pela venda de uma primeira edição. O amor de editar.

A primeira editora rica de raiz que se estabeleceu em Portugal, quero crer que foi a D.Quixote, da Snu Abecassis, uma editora que satisfazia um sonho e que se propunha intervir e interveio, com a célebre história aos quadradinhos de Mafalda a Contestatária.O Nelson de matos que a comprou, depois da morte da Snu, procurou dar-lhe o mesmo cunho apaixonado, e deu, mas não aguentou as novas mudanças dos tempos , porque não tinha as mais valias financeiras da fundadora, e viu-se obrigado a vender ao estrangeiro.

O livro era um mercado pobre, porque atrairia tantos devotos? Eram baratos, as margens curtas, não tendo crescido os ordenados na proporção, não sendo feitos de papiros do Egipto, não havendo tantos fogos nesse tempo, porque terão encarecido tanto, nos dias de hoje, se se tornou uma indústria de milhões, com direito a compras bilionárias de Editoras pesadas?

As Livrarias quase se contavam pelos dedos, A Bertrand, as Noticias, Sá da Costa, Portugal e Lello, A Rodrigues, do Macedo das resinas, rico e sovina, regateava um tostão, o Centro do Livro Brasileiro, A Petrony jurídica, a Barata, a Quadrante e a Livrelco que era uma livraria cooperativa de estudantes, progressista e onde pontificava um homem de grande saber e cultura, o Nuno, hoje na Galileu. A Ulmeiro do José Ribeiro, a Opinião, o Hipólito que me desapareceu, isto em Lisboa.

Em todo o país, para encontrar uma livraria teriamos de ir a Coimbra, Porto e Braga. No restante havia casas que vendiam livros.

Todos os profissionais que laboravam  neste ramo de Comércio padeciam de um elo comum, a sua ligação visceral ao livro e à cultura de que ele era veículo. O cheirar a novidade, o aroma resinoso do papel, o cheiro vivo ta tinta, a forma idolatra com que se desfolhava cada folha. os olhos húmidos da emoção dos desenhos ou fotos das capas, dos  caracteres tipográficos, um pormenor de estilo, uma marca de editor.Era uma espiral de amor que unia toda a pirâmide desde o editor ao carregador que fazia as entregas a pé.

O mundo da edição de hoje, alterou-se substancialmente. É uma indústria onde o que conta são os rácios de produtividade puramente económicos. Assiste-se à concentração perigosa de todo o mundo da edição. Há uma crise acentuada de valores em todo o país que é um reflexo, sempre, do que se passa no resto do mundo, mas elevado em grau e potências superiores. Os livros vendem-se pela sedução induzida das capas e dos efeitos publicitários. A imprensa e os outros meios de comunicação, atraem os leitores fabricando mitos e factos aleatórios que não libertam quem procura na leitura uma libertação interior. Um cultivar do ser e do saber mais e profundamente.

Subsistem , igualmente, pequenas editoras que procuram na segmentação de mercados, uma hipótese de sobre vivência.  A Novalis do grande humanista, António rosa, um homem que se reparte em multi-funções de amor a causas que elegeu como parte da sua vivência de pessoa, abraçou a especialidade em Astrologia e outros temas cósmicos e de auto ajuda, com um propósito de servir, de ser parte de uma nova ordem emergente, mas paga a que preço, só ele sabe, eu apenas imagino, em afectações pessoais, familiares e financeiras, que não lhe tiram o prazer, o amor de continuar a editar, de ganhar um espaço num mercado violento, desonesto, porque os grandes compram tudo o que é espaço de exposição e aos outros resta o favor,a simpatia efémera dum momento, o trabalho árduo pela conquista de um pouco de visibilidade. A Pergaminho, a Assírio, A Campo das Letras...

Todas as editoras que continuam apegadas a uma ideia  inteira de cultura, estão em dificuldades. Em breve haverá dois ou três grupos apenas...

Onde havia respeito pela diferença e pela identidade, hoje há atropelo e desprezo pela aventura de se editar por amor, por devoção a um principio de rigor ético e de missão.

Curiosamente, era antes que o país vivia em ditadura.!....Mas esta Democracia estranha que vivemos, de valorizações fictícias em bolsa, da riqueza, de capitais oriundos de obscuras proveniências, que arrasam tudo o que os incomode na sua passagem, ou compram ou asfixiam, tem os dias contados...

 

 

sinto-me: dos livros
música: A garrafa vazia/ de Manuel Maria
publicado por romanesco às 18:31
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 23 de Setembro De 2008

MEMÓRIAS DO TEMPO DE GUERRA - SILÊNCIOS

andanças

A noite é selvaticamente serena.
O atito irritante dos mosquitos,colide com o arfar abafado de alguém que se masturba, na individualidade do beliche, na intimidade inventada entre centena e meia, de corpos que se mexem e sonham. Os olhos fechados em mentes alucinadas. O silêncio quebrado a cada instante e reposto por segundos , breves, inaudíveis.
Renato não dorme. Ansiedade.
Um rosto fixo na memória recente que se recusa a partir. A deixar que as coisas andem.
A despedida , no cais de embarque, as correrias de quem quer acompanhar o navio por terra, ou impedi-lo de se fazer ao mar.
As lágrimas que correm, alegremente , e turvam a visão. Soltam-se na euforia da liberdade que deixa tristeza  do lado de dentro de onde se soltam.
A impotência de dizer não a esta partida forçada, imposta. Em nome da pátria.
Tinha pensado, insistentemente em fugir. falara-lhe, uma noite, com a cabeça deitada sobre as pernas dela, a saia subida, aspirando com deleite o aroma que lhe vinha do sexo.
Alexandra contrapunha com a punição. Crime de lesa pátria. E depois, ela acreditava na eternidade do nosso amor, não tinha como possível que me acidentasse tão longe.
Acreditava na vinda dele, Renato, ileso e pujante de vida para se fazerem ao mundo na força do amor que era o deles, como de ninguém mais. Havia um amor absoluto de cem em cem anos. O deles era o deste século. Para sempre.
Alexandra tinha-lhe pedido um dia uma definição de amor. Que coisa era esta, que sentimento, força, que queimava sem cesssar no peito e no cérebro, que se enredava na razão e se sobrepunha a que ocorresse um fio que fosse de lucidez e que explicasse a tempestade maravilhosa de nos sabermoos como um único, uma só vontade.,impelida para abismos de felicidade. E no entanto livres, confiantes de cada um de nós, sendo sem ser.
Renato, numa cama estranha, com odores diversos e ruídos sobrepostos, de dentro e de fora. tinham avisado que estaria eminente um ataque ao quartel. Era um hábito dos turras para testar as valias dos novos combatentes.Turras...Recorda Kafka. O processo...

Eles que defendem a terra  onde foram meninos, os pais, os avós, os animais ...São Turras por um absurdo das leis que não conhecem. Ou leis absurdas...
E agora, neste momento, como fazia sentido estudar, reflectir, inventar, criar, conceitos que dessem à palavra amor uma dimensão maior. Mas não só conceitos. Alianças firmadas entre as partes. A definição de amor, não pode sofrer interpretações subjectivas.
Fazer atrocidades às crianças é tão criminoso dum lado como do outro.
E mete-se a religião. Os deuses quue se intrometeram nas diversas tribos que constituem o mundo humano.
O mundo ocidental. O mundo Islamico. O Budismo...E dentro de cada um, as subdivisões. seitas que se digladiam e enriquecem à margem dos carenciados de afectos, arrastados por correntes, eivados da palavra transcrita do Senhor.
Acordou cansado, com a ideia de pesadelos nocturnos e traços vincados nas faces tisnadas. "Movia os braços como se fossem asas e sentia-se elevar. As balas passavam por baixo com um silvo agudo, mórbido. Havia montanhas e casas de vários andares. Ele Renato dava impulsos com o corpo, os pés, as pernas, em movimentos rápidos, como se andasse de bicicleta e sentia -se elevar, leve, leve e só, na cidade deserta.  Voava. E havia crateras enormes deixadas por bombas. E via o vulto de Alexandra, longe, esforçava-se, queria alcançá-la, mas sempre que se aproximava ela distanciava-se. E as balas por baixo em silvos agudos. Suores..."

 Colocava-se perante o dia com a moral em baixo. E isso não era conveniente. Diria mesmo que era uma traição aos compromissos. Vencer! Vencer!

Silêncio, silêncios...

 

sinto-me:
música: bairro negro - José Afonso - Marisa
publicado por romanesco às 21:21
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 22 de Setembro De 2008

MOVIMENTO PIJAMINHA (PARA O IPO)

Do espaço Astrológico

http://espelhodevida.blogspot.com

Causas de todos

 




Movimento Pijaminha (para o IPO)

São necessários (principalmente) pijamas para as crianças que estão no
Instituto Português de Oncologia a fazer tratamentos de quimioterapia.
Após os tratamentos, os pijamas ficam muito sujos e gastam-se
rapidamente.
Esta ideia surgiu há dois anos e hoje já é apelidada de *Movimento
Pijaminha* pelo sucesso que têm tido os esforços conseguidos!
As necessidades existentes passam pela falta de pijamas, pantufas,
chinelos, meias, robes e fatos de treino.
Para todos a vida não está fácil, mas dentro das possibilidades de
cada um há sempre espaço para participar, comprando ou obtendo junto
de amigos e familiares agasalhos que já não sirvam.
No ano passado foram entregues 76 pijamas e o IPO ficou muito
satisfeito com esta dádiva.
Este ano vamos repetir a façanha, e se possível ultrapassar este número.
Se divulgarem já estão a ajudar!!!

 

             -------------------------------------------------------------------------------------------------------------

 

Correspondendo ao apelo veículado pela minha amiga Ana Cristina Corrêa Mendes em

http://espelhodevida.blogspot.com.

As minhas felicitações, a minha solidariedade, a minha partilha de espaço na divulgação.

 

sinto-me: solidário
música: Dó, ré, mi...de Música no Coração(filme)
publicado por romanesco às 15:28
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim

pesquisar

 

Fevereiro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28

últ. comentários

  • Obrigada, meu amigo... acredite que estou a fazer ...
  • Um abraço também amiga, hoje é seu dia de ser meni...
  • Olá Rosa Fogo, minha amiga...que admiro desde que ...
  • Olá Nelson Moniz...lindo comentário, amigo, que am...
  • meu amigoli alguns poemas e passei uns bons moment...
  • Um abraço grande e fraterno para si!
  • Lindíssimo poema. Parabéns!A infância é eterna em ...
  • Boa tarde minha querida amiga poetaporkedeusquer.....
  • Boa tarde querida amiga Fernanda Cardoso...leio en...
  • Fabuloso poema, amigo João R. Gonçalves! Fabuloso!...

mais comentados

links

subscrever feeds

blogs SAPO


Universidade de Aveiro