Quarta-feira, 20 de Novembro De 2013

LIVRO: O DESASSOSSEGO DA MEMÓRIA

***
Sinopse da obra a publicar brevemente pela Chiado Editora.
*
O livro, “O Desassossego da Memória”, procura ir
ao encontro da memória do homem enquanto espécie
natural não massificada pelas religiões e pelo fatalismo
da liderança dos poderes compulsivamente emergentes:
militares, económicos e financeiros, em busca do homem
real, consubstanciado na sua animalidade e na alma
feminina.
É um livro contra os preconceitos e que considera 
a sexualidade como um motor de libertação do 
inconsciente profundo… uma sexualidade atenta aos 
instintos perversos sem desrespeitar a animalidade de 
que somos possuídos… mas contendo-a nos limites da 
consciência em que cada um se movimenta… 
É a mulher que comanda as emoções.
Porque a memória é o factor principal do desassossego
de viver aqui se procura evidenciar o papel da
mulher em todo o desenvolvimento humano e o obscu-
rantismo a que foi votado o seu pensamento ao longo de
milénios.
A história do romance vive-se num ambiente de
demência política e cultural com a transformação do
mundo em decadência e à procura dos alicerces para um
novo Humanismo.
O autor convida-vos ao salutar exercício de pensar,
simplificando o raciocínio em toda a sua amplitude…
SAMUELDABÓ/jrg

 

sinto-me:
música: Bolero de Ravel
publicado por romanesco às 22:46
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Segunda-feira, 14 de Janeiro De 2013

A ESTRELINHA CINTILANTE...

foto: pastelaria estúdios editora
**

A ESTRELINHA CINTILANTE …

***

Para a virgínia com amor

*

_Mãeeee…

A voz acordara, talvez, um rato que agora deambulava no forro do teto de madeira, com sede ou fome, a ver se havia algum resquício de comida no vão do esconso…ecoou no silêncio da casa térrea de um só piso com sotão…atravessou fendas na porta do quarto contiguo…comprimida na exiguidade do espaço, soou metálica…lúgubre…a aninhar-se na porosidade das paredes caiadas de fresco…

 A mãe, cansada por um dia penoso de trabalho na fábrica do peixe, dormia profundamente, mas com a insistência do chamado acordou estremunhada…

_O que foi rapariga?dorme!

_É aquela coisa…a estrela brilhante…

_Dorme!...

Estranhamente, a visão da estrela tão pequenina, esplendorosa de tantas cores rutilantes, onde o azul-cobalto sobressaía, saltando do chão ao teto e vice-versa, ou do chão até à altura do seu nariz, deitada do lado da cama virado para a porta, fascinada pelo evento mágico desta visão, não a perturbava, antes sentia um estado de serena euforia que o adormecimento dos sentidos viria a acalmar, mas queria que a mãe a visse, lha explicasse ou projectasse na sua imaginação…que estabelecesse um fio de ligação à realidade…

Diziam as velhas que a menina tinha dons de vidência e que seria conveniente levá-la a alguém que entendesse desses mistérios, mas a mãe recusava, temerosa, de levantar ventos, raios e coriscos na sua vida já de si tão desgraçada. Só lhe faltava ter uma vidente em casa!…

Cristina foi crescendo nestes segredos, porque havia mais…, vozes que a chamavam pelo nome, laços desfeitos da bata escolar, sem ninguém por perto… aparições de pessoas já mortas que mal conhecera e a intuição de fazer o que não queria, sempre do mesmo jeito, brincando com a má catadura dos outros.

*

Casou, teve filhos e não mais viu a estrelinha cintilante, nem vozes que a chamavam de longe, mas sentia intuições que se manifestavam ora negativa ora positivamente. Aconteceu, por altura da sua segunda gravidez, sentir a evidência que estava grávida, quando o parecer dos médicos era no sentido contrário…que a haver estaria fora do lugar…os testes davam negativos…

Foi na discussão da dúvida sobre essa novidade que chegaram à conclusão que padecia duma peritonite aguda e tinha de ser operada de urgência…no hospital pensava que ia morrer…pressentia que ia morrer, e nada a angustiava mais, nem a dor aguda quase insuportável, do que pensar no filho ainda pequeno…mas submeteu-se à operação de urgência, por esse filho que já tinha e pelo outro que sabia estar a evoluir dentro do seu ventre.

A sala de operações, despida de ornamentações inúteis, na sua alvura arrepiante, tinha um ambiente de risco que os médicos procuravam disfarçar, ora brincando com ela e os seus temores, ora desvalorizando a importância da intervenção que iam fazer. Cristina, deitada na cama sob um lampião redondo, enorme, cuja luz feria o olhar fugaz que lhe dirigia, refugiava-se na sombra dos recantos… ia dizendo que não queria morrer, pelos filhos, sobretudo pelos filhos e que tivessem cuidado com este que ela sabia em gestação…depois nada…um vácuo imenso…nada…

*

Por um momento, Cristina, achou que estava morta…encolhida a um canto do teto, como se fora a sua alma, do lado de fora do corpo, olhando-se, estendida na cama de ferro branca, os braços atados e as pernas…assistira à extracção da tripa infectada…agora estava ali, expectante na transparência do seu estado…perto do seu corpo, um homem sentado, vestido de verde, olhava o sítio onde ela estava, também ele, franzindo a testa com ar preocupado ou de impaciência… Cristina fixou-se no seu corpo…nas pálpebras cerradas, no tom amarelado da pele e sentiu uma angústia substantiva ao lembrar-se do filho, algures no útero…teria morrido? Ele? Eu? Os dois?

_ Espera, mas aquele corpo sou eu…quem sou aqui de onde me vejo? Ah, lá está a estrelinha saltitando…há anos que a não via…divide-me…no explendor da sua luz que me fere o olhar…e pensa-me, de tal modo que me aflige uma enorme vontade de voltar…sim quero voltar para o meu filho…zás…a estrelinha desapareceu…mas voltou logo de seguida para junto do corpo…saltitando sempre…cintilando…emitindo aquele som suave e harmonioso…como se fora de longe…de muito longe…depois desapareceu como viera.

Abriu os olhos, agitou o corpo, estremeceu, como se uma força exterior nela irrompesse desabridamente…olhou a figura da pessoa sentada, agora um pouco mais distante que suspirou de alívio ao vê-la despertar…já dera por ela antes…quando suspensa do teto se admirava de si mesma…

_Estava a ver que não jantava! A Cristina demorou a acordar…

_Onde estou? O que faço aqui atada de pés e mãos? Que aconteceu? O meu filho?

As palavras saiam-lhe num turbilhão, dentro do mesmo fôlego, criando uma atmosfera de ansiedade, confusa nos pensamentos de antes e agora…teria morrido mesmo, ainda que por momentos? Porque se refugiara a sua alma num canto do teto? Porque voltara a estrelinha saltitante? Estava viva ou morta? Quem era aquele homem que a esperava?

O homem era o anestesista…dada a urgência da operação não fora possível a prática de alguns preceitos que ocorrem quando o procedimento é marcado com tempo…há sempre um risco de exagero na dose ministrada, ou a má recepção do organismo…o acaso…um acidente…

_Está tudo bem! – Ouviu a voz do homem dizer – tinha razão, está grávida e o seu menino, porque é um rapaz, está bem…a operação correu maravilhosamente…agora é a hora de se recompor…Espere lá…como sabe que está atada de pés e mãos? - Disse, enquanto a soltava…

_Eu vi ali de cima…vi tudo o que me fizeram, ou quase tudo, não fora a estrelinha que me distraiu…atarem-me…o corte…os vossos rostos preocupados…

Ele olhou-a abismado, sem entender…

_ É da anestesia, sabe, às vezes provoca delírios passageiros…agora já posso ir jantar…

Ficou contente por voltar a ver a estrelinha saltitante, pela segurança que lhe transmitia, por ouvir aquele zumbido ténue que ela emitia ao saltar, tão volátil que parecia embutido no ar e adormeceu…

*

Cristina era uma mãe possessiva, alegre, confiante e destemida, capaz de tudo, mesmo tudo, para salvaguardar o bem-estar dum filho…com os anos habituou-se a considerar a estrelinha cintilante, como uma manifestação protectora vinda do céu…um fenómeno do cosmos…qualquer coisa fantástica que lhe aparecia para a proteger, nem ela sabia bem de quê…uma aparição, espécie de magia, que a reconfortava e revigorava, sempre que, em adulta, o seu pensamento trilhava caminhos desconhecidos…

Terá sido assim quando “morreu”…a noite tempestuosa soltava uivos do vento que soprava de Sul…a chuva tilintava nas vidraças…chiavam os ramos das árvores e a água cantante nas caleiras do esgoto…viu-se deitada na urna, a tampa aberta, metade para cada lado, o cetim branco do leito onde o seu rosto sereno sobressaía, azulado…o vestido que idealizara e mandara guardar para a ocasião…as flores…tantas flores…

_Quando morrer, veste-me aquele vestido…- viu-se a si própria, magra, esbelta, no desenho da roupa sobre o corpo…morta!... do lado de fora, junto dos filhos e do marido, rodeando o caixão, consternados ante a evidência do seu desaparecimento físico…tocava-lhes, mas eles não a sentiam…curiosamente era a única que não chorava a sua própria morte…como se não acreditasse e aquele corpo fosse um outro espaço de si…nessa noite a estrelinha cintilante apareceu de uma forma diferente, algo estranha…saía de uma abertura subtil dos seus lábios descorados, dando-lhes cor…saltava dos lábios para o chão e voltava a entrar…parecia-lhe que só ela a via e queria tanto que eles a vissem para perceber que não era sonho, nem uma visão estereotipada de cunho divino...mas eles choravam e ela entre eles se estranhando no vai e vem da estrelinha cintilante…saltitando.

Quando acordou, teve a sensação de ter sonhado…as imagens passaram com exactidão na sua mente…apalpou as pernas, os braços, o corpo, a sentir-se viva…mordeu os lábios sem sentir a dor…apenas uma pressão nos olhos que permaneciam fechados, apesar do esforço que fazia para os abrir…quis gritar, mas não ouviu qualquer som…e era como se não respirasse…de súbito, a estrelinha cintilante, como uma criança rabina, divertida com a cena da morte projectada, atravessou-se na luz reflectida por um hiato do tempo…do azul-cobalto, no eixo central de onde saíam as pontas irizadas de mil cores, uma voz gelatinosa e doce…

_ Nasceste para sofrer, Cris, e ser feliz…só vais morrer no dia X…do mês Y….do ano Z… eles contaminaram quimicamente o teu filho…vais sofrer e desejar tantas vezes a morte…mas tal não acontecerá…ainda criarás uma menina a MÁTRIA…

Aqui o som tornou-se sussurrante, difuso, ininteligível, só perceptível a ela…que sentiu cada palavra como uma faca que a golpeasse a cada número que a pre-datava para morrer…

Despertou, agora sim, correu a casa toda a ver se era verdade…as crianças dormiam…o sol despontava sobre a falésia…olhou os campos floridos e os pássaros em alegre corropio…namoradeiros…geara de noite e uma camada fina de orvalho reluzia nas ervas rasteiras à luz matinal do sol …

_ E esta agora?! Como vou eu viver com esta informação? Acredito e procuro esquecer o que ouvi? Ou pura e simplesmente esqueço que vivi este pesadelo? Mas a data ali estava na memória viva…como um ferrete…a ser verdade faltavam uns anos largos… como se pode ser feliz sofrendo? O que estaria para acontecer ao meu filho? O que é a MÁTRIA?…Que menina?

*

A estrelinha cintilante tornou-se um mistério, quase uma obsessão, que ela agora queria desvendar…leu livros sobre fenómenos paranormais…sobre parapsicologia espiritismo…visitou bruxas, bruxos, mediuns e videntes, consultou astrólogos…padres…físicos e alquimistas…mas nada do que lhe disseram acalmou o seu interesse de saber e como não queria colocar a questão no âmbito de um qualquer mistério divinico, simplesmente sem explicação…partia do nada…se a sua natureza era humana, já lhe bastavam os complexos enredos de que se compunha a existência, decidiu por isso seguir a sua intuição…deixar passar o tempo até que uma luz se libertasse de dentro da sua alma…

Mas o tempo não lhe dava descanso…o filho mais novo foi arrastado pelas máfias da droga…foram dias e noites de angústia galopante…desceu aos abismos do não ser…

_Tão lindo, o meu filho…não mo hão-de levar…

A fome, o desespero, a carência dum abrigo…as caminhadas aos antros da desgraça, para o trazer de rastos…aguentar firme…solitária no deserto das leis insensiveis…mãe corajem…absoluta…perante os cobradores de dívidas, sem escrúpulos…perante a morosidade dos serviços hipócritas de apoio…perante a incompreensão de familiares e amigos…fez dívidas…vendeu tudo…trafulhou…mentiu…enganou…e na fronteira da indignidade, porque não há perda maior para uma mãe que um filho, acreditou que ambos venceriam…alimentou-o com amor, sempre que lúcido ele voltava…arranjou-o…cantou-lhe as virtudes da vida simples…desmistificou-lhe o medo de enfrentar a complexidade de viver…deu-se toda como exemplo de vencer…foram anos de não ser…mais de vinte,tentou a morte, mas não teve coragem…havia de ser capaz…e foi!

*

A Noite Outonal, aquecida por estranha estiagem, secava-lhe os lábios, apesar do seu constante irrigamento labial, a aragem e a ansiedade…noite escura de breu, com a Lua na sua fase de nova…todo o dia ouvira falar dum fenómeno recorrente que aconteceria hoje mesmo, pela madrugada dentro…uma chuva de estrelas cadentes…ou lá o que era, fenómeno de rara beleza nem sempre possível de observar… o seu sexto sentido impelia a sua vontade…estava alegre…uma atmosfera limpida e leve envolvia-a duma mágica quietude…ao cair da noite pôs-se ao caminho, decidida à derradeira tentativa para encontrar uma resposta…sim, seria a última vez que procurava desvendar o mistério da estrelinha saltitante…

O carreiro de terra batida que levava à praia era ladeado de árvores de pequeno e de grande porte, eucaliptos, pinheiros e acácias que exalavam aromas entrelaçados…os ramos, sobressaindo da densidade nocturna, pareciam figuras fantasmagóricas…ouvia estalidos, como se alguém pisasse ramos ressequidos…pios de mocho ou coruja…o bater das asas de aves em desequilíbrio…vultos confusos na humidade dos seus olhos…mosquitos…e um pesado silêncio, como se a todo o momento desabasse um cataclismo imprevisto…ou um assaltante desesperado…

Arfava do movimento dos pés e da mente…julgou ouvir vozes…o coração mantinha o batimento acelerado…os arbustos de formas bizarras, pareciam mover-se…em contra-mão…

_Que loucura…- pensava…

_ tantas vezes percorri estes matos à procura do meu filho…

Quando chegou à clareira da praia, respirou profundamente…havia uma ténue claridade provocada pelo brilho das estrelas na negritude sem nuvens…o mar de uma calmaria extasiante, quase se confundindo com o teto do mundo…não muito longe, uma luz tremelicava…pescadores, pensou…sentou-se no pico da duna mais alta, entre cardos e xorões…parecia uma deusa em meditação e foi sentindo a paz se interiorizando dentro do seu corpo…os olhos fixos no céu…leve…uma sensação anestesiante…quando de súbito, como neve caindo de mansinho, milhares de pontos luminosos, desciam do abismo celeste, parecendo vagalumes, irrompendo na atmosfera, silenciosamente…multicoloridos lixos cósmicos, ou restos de desperdícios invasivos, cometas, pedaços de estrelas, faulhas de luzes, de mistura com a sensibilidade dos seus olhos, num êxtase da alma…

O espectáculo maravilhoso absorvia todos os seus sentidos…nem dera que fora seguida…um vulto medonho de pessoa, curvado sobre o corpo enorme, observava a cena a poucos metros, entre arbustros e cardos humedecidos pelo orvalho

Ergueu-se, figura imponente no recorte sombrio, e desceu a duna, deslizando sobre a areia movediça, macia e fria…correu pelo espaço deixado livre na baixa-mar…pensando em nada…nada…nada, mas algo a fez voltar a cabeça para trás e viu que era seguida por uma figura asquerosa…via-lhe a baba na comissura dos lábios…os olhos faiscando no reflexo das estrelas…os cabelos desgrenhados…

Cristina sentiu um impulso de repulsa, não era medo, mas a tensão do desafio, de ser ou não capaz …entrou pelo mar rasteiro em direcção aonde as estrelas caíam…olhou para trás e viu que o vulto parara…gesticulava…berrava palavras nada inteligíveis…depois deixou de o ver…

O mar, embora calmo, tinha locais onde as correntes se encontravam, formando agueiros ou remoinhos na água, centrifugadores de objectos ou de pessoas que neles caíssem…sem se aperceber Cristina abeirou-se perigosamente dum agueiro, enquanto boiava…sentiu a força pressionante…atraindo-a e debateu-se, instintivamente, mas não saía de onde estava…nadava…invocando toda a força da sua alma…em volta, os pontos luminosos perdiam intensidade…por um momento pensou abandonar-se…deixar-se ir…mexia os pés,os braços, as mãos, estava quase e logo voltava a ser puxada para o abismo…nem um grito, ou muitos, silenciosos que ecoavam na paz da noite que pouco a pouco voltava à sua quietude…bebeu água e sal…os olhos a toldarem-se e pensou nos filhos…no filho que se recuperava…de súbito viu a mão estendida…tão luminosa e transparente…um chão firme que se abria à sua frente…evocou a força maior das suas profundezas, agarrou-se na emoção de ser capaz, agarrou-se a nada…o que sentia era uma impulsão de todo o ser em simultâneo… soltou-se das amarras da corrente…nadou para terra, exausta, e deitou-se na beira, onde a água a vinha beijar com ternura…esquecida de ao que viera, da figura horripilante que a perseguira…da estrelinha cintilante…de si…esteve ali deitada sem dar pelo tempo que já amanhecia…

*

Cristina não sabia se dormira ou se desmaiara, quando voltou a si já a maré enchia de novo e lhe cobria parte do corpo...sentiu um arrepio de frio…levantou a cabeça e espreitou a densa neblina que se pusera…a poucos metros, um volume escuro, inerte, que a água ia arrastando a cada enchio…levantou-se, trôpega, dorida nos tendões que a punham em movimento…abeirou-se…era o corpo duma pessoa…medonho…voltou costas e saíu dali apressadamente…

Sentou-se na base das dunas a recobrar as forças, as mãos segurando a cabeça entre os joelhos…sentiu um calor repentino e reparou que as suas roupas estavam secas…

_ Como é possível?

Na semi-escuridão, do lusco-fusco da madrugada, a estrelinha ainda cintilava…percorria em arcos a distância do mar até onde ela estava…

_Porque fizeste esta loucura? A vida, toda a vida é sendo…não adianta conhecer o devir…nada é constante…tudo é mutável…o ser é… constrói-se…sendo… interagindo com as hipóteses que se vão colocando…

Cristina sentiu aquela paz interior que a invadia de uma alegria subtil, sempre que o desânimo a assaltava…os olhos fixos na estrela cintilante que à sua frente saltitava e de onde saíam sons inteligíveis que se transformavam em palavras…tão doces…tão fáceis de entender na sua complexidade…

_Os humanos são sementes cósmicas, como todos os elementos vivos no espaço Terrestre…por uma razão de degenerescência química, desenvolveram a ideia que eram superiores a todos os outros…é falso…havia um equilíbrio que permitia a existência de tudo e do todo em conflituosa mas sã harmonia…os humanos destruiram o equilíbrio…inventaram os deuses para darem cobertura à sua ambição de domínio…o seu medo dos medos…subjugaram as mulheres que lhes deram origem…para ocultarem a sua fragilidade…destruiram a sabedoria para que melhor vingasse a sua mediocridade…cada ser humano tem um ponto lumioso como eu…uma fonte molecular de energia…poucos, como tu, tiveram a veleidade de ir até ao fim…por isso te revelo o que te revelei, mas digo-te: não procures mais…vive de acordo com a tua intuição…a cada dia te acontecendo…

*

A estrelinha, ditas estas palavras desapareceu, quase em simultâneo com o clarear do dia…Cristina deixou-se ficar um pouco mais, saboreando cada palavra…interligando os sentidos com a realidade subterrânea, de onde pouco a pouco emergia…

_Espera e a MÁTRIA…o que…quem é?

Olhou em frente, o mar agitado pela brisa do amanhecer, a neblina esfumando-se rasgada pelos raios esplendorosos do sol…o corpo mostrengo desaparecera da borda-d’água…ergueu-se de um salto…e retomou o retorno a casa…de caminho comprou pão…para que tudo parecesse igual a todos os dias…

 

Autor: joão raimundo gonçalves (jrg)

 

In "OCULTOS BURACOS" Colectânea de Pastelaria Estúdios Editora

 

 


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