Terça-feira, 16 de Novembro De 2010

A EXPULSÃO DO MEDO

 

 

 

hoje entramos na casa da solidão
homens e mulheres de olhos ausentes
meninos meninas que brincam quietos
são aspectos da vida em contra-mão
existências sem alma sobreviventes
aspiram amor que os tornem despertos

mulheres vencidas pela violência
desatados os nós efémeros da relação
deambulam em círculos de indiferença
à espera sem norte duma evidência
duma magia no limite da sua razão
levamos amor esperança e luz intensa

homens soberbos tolhidos de medos
desemprego a doença sonhos desfeitos
omitem insuficiências culpam a sorte
cansados da orgia guardam segredos
longe do mundo sofrendo os efeitos
levamos amor a luz a estrela do norte

meninos meninas de olhar diferente
nascidos de amores tão mal acarinhados
já não inventam jogos senis brinquedos
por todo o mundo são o mar de gente
que alimenta hipócritas despudorados
levamos amor sorrisos espantamos medos

um instante longo milhões de amores
um alarido sem fim suave e doce aurora
cessou denso mistério toda a melancolia
homens mulheres e crianças de flores
vencido o estigma indo o medo embora
de amor vestidos por pétalas de poesia

autor: jrg
sinto-me: com força
música: Bolero de Ravel
publicado por romanesco às 01:54
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Quinta-feira, 30 de Setembro De 2010

DEMÊNCIAS...

 

foto:pnb.blogcindario.com

 

 

***

quando o homem se revê

do lado da anormalidade

sem respostas ao porquê

da normal insanidade

 

é louco passou-se maluco

tem total impunidade

sorrateiro só toma o suco

passeia-se pela cidade

 

ninguém sabe o que pensa

se na dimensão da mudança

o louco tirou avença

para ser sempre criança

 

ser na loucura mutante

todo o mal que subsiste

não é do louco aviltante

mas do normal que existe

 

o poeta quase doido e pensativo

olha com estranha doçura

o gesto o tique depressivo

da insane criatura

 

pensa nos loucos do mundo

condenados ao degredo

vivos em coma profundo

apenas porque temos medo

 

desta selecção anormal

ser louco não é certeza

é até bem natural

seja louca a natureza

 

autor:jrg

sinto-me: louco
música: U2
publicado por romanesco às 22:39
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Domingo, 06 de Setembro De 2009

L U C I A N A - TRAUMAS DA INFÂNCIA

O Jardim era imenso, sumptuosas palmeiras de grande porte rodeadas de silêncios e raiadas de sol por entre as folhagens que tornavam o ambiente exuberante.

Quando montei o consultório, tive o privilégio de escolher esta sala de onde esta paisagem infinita e de cores salteadas, harmoniosas, entrava pela janela e me adocicava a maravilhosa vista do mar que era um dos meus ícones preferidos.

O consultório era constituído por mim, a cadeira onde me sentava, a secretária, uma estante, uma mesa de sala com uma jarra de flores, a cadeira de estender o corpo onde recebia clientes , uma cadeira multifunções, articulada, que permitia que o cliente  dispusesse o corpo o mais confortável possível.

O consultório tinha ainda, do lado de fora, uma saleta ínfima, que se destinava a servir de sala eventual de espera e digo eventual, porque raramente juntava mais de uma pessoa no espaço entre consultas.

Ouço a campainha e levanto-me, mas a porta abriu-se de repente...

_Desculpe, senhor Dr., pareceu-me ouvir dizer "entre!..."

É uma mulher ainda muito jovem, 34 a 35 anos, não mais, apesar do sombreado em volta dos olhos lindos, assustados, mas lindos, talvez derivado de noites sem sono, ou padecimentos da mente fixativa. Toda ela eram tremuras de se sentir pouco à vontade, sosseguei-a.

_Não tem qualquer importância, ponha-se à vontade, quero que se sinta como se estivesse em sua casa, disponha como se não houvesse mais ninguém, e eu sou apenas um espelho, a quem pode expandir o que a atormenta, como se falasse consigo própria. Julgo que é a Luciana?

Tocámos as mãos num cumprimento que queria gerar empatia, da minha parte, a senti-la suspensa, indecisa, olhando o meu gesto para que se sentasse.

Sentou-se com as pernas unidas, a saia curta e ela a puxá-la, para que se cobrisse o mais possível das pernas sedutoras. Reparei na perfeição dos joelhos.

_E então Luciana, quer falar de si, dos sentimentos que a perturbam, podíamos começar desde a infância ou partir de agora às arrecuas, a acharmos elos de ligação entre si.

Ela olhou-me fixamente, olhos dóceis como que a procurar ajuda imediata, sossego para a alma, paz no bater acelerado do seu coração que comunicava com o cérebro, as frontes latejando, dor.

E conta, a voz adocicada, suave, terna, que se sentia perdida, o, peito dela arfando, o meu marido mostrou-se muito apaixonado no principio de casados, temos dois filhos, eu era uma jovem, talvez, exuberante e dei-me, julgava eu, toda aos prazeres dele, mas com o decorrer do tempo fui sentindo que ele apenas se servia, que me abandonava após a sua satisfação e me dirigia palavras de desdém, que eu era pouco mexida, pouco dada a fantasias e eu ia-me sentindo uma mulher inútil, aquelas palavras a martelarem-me o cérebro, insistentes " não prestas na cama", humilhava-me com palavras duras que nenhuma mulher gosta de ouvir e um dia passeou-se na rua com outra mulher, sorriso irónico, os filhos a verem a interrogarem-se quem era aquela senhora e porque o pai estava fora de casa.

Eu olhava-a com um ar distraído, vi bem os olhos húmidos da comoção, do esforço que fazia para arrancar de dentro de si o que ela sentia poder ser uma insuficiência que lhe ia destruindo a vida.

_E porque pensa que é uma mulher tensa, sem o correspondente vigor que o seu marido esperava de si? foi violada, alguma vez?

Senti que toda ela estremeceu à palavra violação e fiquei na expectativa, atento aos lábios por onde ela passava a língua, humedecendo-os, mordendo-os.

_Na verdade senhor Dr.., tive um episódio na minha vida que me acompanha como um estigma, que me arrepela quando o meu marido me toca no ânus, me tenta penetrar quase irracionalmente ante a minha recusa, me bate, me expulsa do lugar do leito onde me disponho a aceitá-lo.

_E então, quer falar sobre isso? A Luciana tem uma crise de confiança, e de auto-estima que temos de trabalhar aprofundando a sua disponibilidade para se aceitar como pessoa capaz, influente de si e para si.

Esboçou um sorriso tímido e vi quanto é bela, quanto fluía dela a consciência de estar ali a extrair-se do mais profundo da sua alma.

_Quando nos separamos eu quis testar as minhas qualidades de mulher, fêmea, a minha sexualidade, liberta de tabus, com alguém que me respeitasse, me sentisse e se sentisse dentro de mim, mas não  com um qualquer e tive um amigo que preenchia a minha ideia de amante, um amigo que eu amava, ou pensava que sim, no desespero de me saber, de experimentar tudo de novo mas de uma forma diferente, vadia, sem as regras dúbias que o casamento exige de uma mulher, a posse, ser dele, do meu marido.

_E então?...

Olhou a paisagem fora das vidraças da janela grande sobre o mar e o jardim , ausente, a rememorar-se?...as mãos movimentando-se em círculos abstractos, mas que para ela tinham um sentido estético.

_Este amigo só admitia um relacionamento sério, casar e então sim, um relacionamento sexual efectivo e natural, dentro de todo o respeito pelo ser que eu sou. E eu apenas queria mudar, saber se havia limites intransponíveis.  Lembro-me que na escola, quando adolescente e na minha juventude fui assediada pelos rapazes para ter relações sexuais.

Ela fez esta mudança brusca sem se aperceber, como se estivesse a seguir um fio condutor que  a mim me escapava.

_Interessante, e teve relações nesse período? De uma forma natural, sem sobressaltos, sem pressões?

_ Não, eu tinha na ideia apenas iniciar a minha sexualidade com um marido convencional. E eles diziam que podíamos fazer sexo anal, era inofensivo e retirávamos prazer da união dos corpos, das carícias em outros pontos de excitação, de experimentação. Ai eu gritava que não e fugia ante a estupefacção dele e o desdém que lia no seu olhar quando me virava a ver se me seguia, apavorada.

O corpo dela crescia, quase se levantava da cadeira, os olhos exorbitados, os lábios contraindo-se, as mãos agitadas, todo o corpo, como se estivesse possessa, lágrimas convulsivas, a voz embargada, mas a soltar-se. Senti que crescia a empatia nas nossas palavras, que se abraçava à ideia de mim seu salvador, libertador  da bola de fogo que lhe queimava o peito.

_Luciana, insisto, você foi violada, quer falar sobre isso, com a distância que o acontecimento por certo tem, esmiúce os contornos, procure transmitir o que lhe doeu, o que lhe dói desse momento e a sua disponibilidade para ultrapassar a dor, repescar-se libertando-se, imagine, ser livre, ser plena, sorrir, vá lá... sorria um pouco.

E ela sorriu, primeiro timidamente, depois abrindo os lábios, iluminando-se de um fogo novo que eclodia de dentro dela, da su alma dorida.

_Eu tinha três anos e era uma menina muito linda, um corpinho airoso, atrevida, ousada e muito extrovertida, recordo aquele dia ainda com o pavor de então, eram três rapazes de 13 ou 14 anos, não sei bem e riam-se em volta de mim, a saia curta a ver-se as cuecas, as minhas pernas de menina, é certo, mas a despertar.lhe apetites que eu desconhecia, agarraram em mim e levaram-me para um sitio ermo entre arbustos. Diziam que não queriam fazer-me mal, apenas ensaiar coisas de pessoas crescidas, aliciaram-me com guloseimas, com a ilusão de eu ser uma menina crescida e discutiam entre si como fazer.

Tiraram-me as cuecas e meteram-me o sexo no rabo, mas a seco, causando-me dores insuportáveis, tapando-me a boca para que não gritasse, rasgando-me violentamente, à vez, um   a um, dolorosamente, Sr.. Dr... e ameaçaram-me no fim que se dissesse a alguém me matavam e ninguém iria acreditar, rasgaram-me toda, para toda a vida.

Percebi que a minha boca estava completamente aberta, abismado e ouvia-a soluçar, o nariz aquoso que ela procurava assoar, enxugando as lágrimas. Era uma imagem muito bela, as lágrimas brilhavam nos olhos com cintilações de arco íris, ou seria dos meus?

Levantei-me e afaguei-lhe os cabelos, as mãos dela sobre as minhas mãos.

_E agora, Luciana, sente-se melhor?

_Sim

Disse-lhe para se acalmar, que era uma mulher de grande coragem a um passo de alcançar a plenitude, que nos veríamos de novo na próxima semana, que acreditasse que tinha dado um grande passo, que sorrisse

 

 

sinto-me: amigante
música: Bolero de Ravel
publicado por romanesco às 00:31
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