Sábado, 16 de Fevereiro De 2013

QUADRAS PENDENTES





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QUADRAS
PENDENTES
**
água ardente
luar de lua
alma nascente
figura nua
*
vento nordeste
curtidor
seco gélido agreste
verga flor
*
terra argilosa
barrenta
mulher amorosa
vida sangrenta
*
fogo fertilizante
cinza solar
amor humanizante
corrente de ar
*
poder tempo cósmico
razão que se solta
liberdade grito afónico
d'alma em revolta
*
aura d'esperança
alegremente
só risos de criança
dão semente
*
que o mar espalha
se náufraga
o humanismo encalha
na deriva sôfrega
*
tempestade ciclónica
amarra partida
vacuidade histórica
sem volta nem ida
*
arde sobre o medo
vulcanizado
não há mais segredo
de fogo cruzado
*
sopra brisa amena
doce e fresca
aviva o fogo acena
à vida burlesca
*
antro dos ladrões
covil de hienas
abutres vampiros leões
vestidos de penas
*
força de mulher mãe
mátria de amor
feliz ser que se mantém
acima da dor
autor:jrg
sinto-me: enamorado
música: Jorge Palma
publicado por romanesco às 18:28
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Quinta-feira, 14 de Fevereiro De 2013

REVOLUÇÃO

foto pública tirada da net

*
REVOLUÇÃO
***
cansado de viver sem beira
ocupei um monte ermo
junto às águas dum ribeiro
já o sol varria a eira
lancei sementes sem termo
despedi-me do rendeiro
*
de barraco fiz abrigo
roubei galinhas deu pintos
dispus flores legumes
a pensar nos meus amigos
guardei brancos e tintos
para acender outros lumes
*
cuidei das árvores de fruto
aceitei cabras leitões
troquei favos por saladas
não mais vesti de luto
nem nos poemas as lesões
mancharam alvoradas
*
tão velho mas perseguido
por governo de ladrões
moído de terror indignação
rejuvenesci combalido
salvei alma perdi milhões
ganhei paz no coração
*
construi meu mundo novo
sob governo do tempo
que não m'onera d'impostos
sou eu poder eu povo
sem medo à chuva ao vento
livre de tais desgostos
*
jrg
sinto-me: à deriva
música: Os Vampiros - Zeca Afonso
publicado por romanesco às 23:47
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Terça-feira, 29 de Janeiro De 2013

EIXO MALDITO


**

EIXO MALDITO
***
quero ser
eixo do mal
em contraciclo
com o bem
em movimento
brincar
com as palavras
e rir gosar
com os tiranos
a tirania
e os incrédulos
*
quero estar
ao palato colado
sentir o bafo
das palavras malditas
eixo maligno
atiradas ao pantano
onde os bandidos
a soldo de todos os soldos
são lidos
postos a nu descartados
mas resistem
*
quero jogar
ao eixo rebaldeixo
a chiar
com o dedo apontado
à ladroagem
entre flores a roubar
impunes
às regras da sorte
que anulam
com o devido silêncio
a rondar
*
quero sonhar
com Primaveras
sorrir
da história triste
dos putos
à volta das reformas
miudezas de velhos
escabroso confisco
que envergonha
o sol espantado
de tamanha rasia
*
quero parecer
que sou o meu medo
impotente
pegado na baba
cobiçosa
dos criminosos
dum tal poder
que me matam de fome
me torturam
a alma com sede
de viver
jrg

sinto-me: revoltado
música: Os Vampiros - Zeca Afonso
publicado por romanesco às 16:55
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Segunda-feira, 14 de Janeiro De 2013

A ESTRELINHA CINTILANTE...

foto: pastelaria estúdios editora
**

A ESTRELINHA CINTILANTE …

***

Para a virgínia com amor

*

_Mãeeee…

A voz acordara, talvez, um rato que agora deambulava no forro do teto de madeira, com sede ou fome, a ver se havia algum resquício de comida no vão do esconso…ecoou no silêncio da casa térrea de um só piso com sotão…atravessou fendas na porta do quarto contiguo…comprimida na exiguidade do espaço, soou metálica…lúgubre…a aninhar-se na porosidade das paredes caiadas de fresco…

 A mãe, cansada por um dia penoso de trabalho na fábrica do peixe, dormia profundamente, mas com a insistência do chamado acordou estremunhada…

_O que foi rapariga?dorme!

_É aquela coisa…a estrela brilhante…

_Dorme!...

Estranhamente, a visão da estrela tão pequenina, esplendorosa de tantas cores rutilantes, onde o azul-cobalto sobressaía, saltando do chão ao teto e vice-versa, ou do chão até à altura do seu nariz, deitada do lado da cama virado para a porta, fascinada pelo evento mágico desta visão, não a perturbava, antes sentia um estado de serena euforia que o adormecimento dos sentidos viria a acalmar, mas queria que a mãe a visse, lha explicasse ou projectasse na sua imaginação…que estabelecesse um fio de ligação à realidade…

Diziam as velhas que a menina tinha dons de vidência e que seria conveniente levá-la a alguém que entendesse desses mistérios, mas a mãe recusava, temerosa, de levantar ventos, raios e coriscos na sua vida já de si tão desgraçada. Só lhe faltava ter uma vidente em casa!…

Cristina foi crescendo nestes segredos, porque havia mais…, vozes que a chamavam pelo nome, laços desfeitos da bata escolar, sem ninguém por perto… aparições de pessoas já mortas que mal conhecera e a intuição de fazer o que não queria, sempre do mesmo jeito, brincando com a má catadura dos outros.

*

Casou, teve filhos e não mais viu a estrelinha cintilante, nem vozes que a chamavam de longe, mas sentia intuições que se manifestavam ora negativa ora positivamente. Aconteceu, por altura da sua segunda gravidez, sentir a evidência que estava grávida, quando o parecer dos médicos era no sentido contrário…que a haver estaria fora do lugar…os testes davam negativos…

Foi na discussão da dúvida sobre essa novidade que chegaram à conclusão que padecia duma peritonite aguda e tinha de ser operada de urgência…no hospital pensava que ia morrer…pressentia que ia morrer, e nada a angustiava mais, nem a dor aguda quase insuportável, do que pensar no filho ainda pequeno…mas submeteu-se à operação de urgência, por esse filho que já tinha e pelo outro que sabia estar a evoluir dentro do seu ventre.

A sala de operações, despida de ornamentações inúteis, na sua alvura arrepiante, tinha um ambiente de risco que os médicos procuravam disfarçar, ora brincando com ela e os seus temores, ora desvalorizando a importância da intervenção que iam fazer. Cristina, deitada na cama sob um lampião redondo, enorme, cuja luz feria o olhar fugaz que lhe dirigia, refugiava-se na sombra dos recantos… ia dizendo que não queria morrer, pelos filhos, sobretudo pelos filhos e que tivessem cuidado com este que ela sabia em gestação…depois nada…um vácuo imenso…nada…

*

Por um momento, Cristina, achou que estava morta…encolhida a um canto do teto, como se fora a sua alma, do lado de fora do corpo, olhando-se, estendida na cama de ferro branca, os braços atados e as pernas…assistira à extracção da tripa infectada…agora estava ali, expectante na transparência do seu estado…perto do seu corpo, um homem sentado, vestido de verde, olhava o sítio onde ela estava, também ele, franzindo a testa com ar preocupado ou de impaciência… Cristina fixou-se no seu corpo…nas pálpebras cerradas, no tom amarelado da pele e sentiu uma angústia substantiva ao lembrar-se do filho, algures no útero…teria morrido? Ele? Eu? Os dois?

_ Espera, mas aquele corpo sou eu…quem sou aqui de onde me vejo? Ah, lá está a estrelinha saltitando…há anos que a não via…divide-me…no explendor da sua luz que me fere o olhar…e pensa-me, de tal modo que me aflige uma enorme vontade de voltar…sim quero voltar para o meu filho…zás…a estrelinha desapareceu…mas voltou logo de seguida para junto do corpo…saltitando sempre…cintilando…emitindo aquele som suave e harmonioso…como se fora de longe…de muito longe…depois desapareceu como viera.

Abriu os olhos, agitou o corpo, estremeceu, como se uma força exterior nela irrompesse desabridamente…olhou a figura da pessoa sentada, agora um pouco mais distante que suspirou de alívio ao vê-la despertar…já dera por ela antes…quando suspensa do teto se admirava de si mesma…

_Estava a ver que não jantava! A Cristina demorou a acordar…

_Onde estou? O que faço aqui atada de pés e mãos? Que aconteceu? O meu filho?

As palavras saiam-lhe num turbilhão, dentro do mesmo fôlego, criando uma atmosfera de ansiedade, confusa nos pensamentos de antes e agora…teria morrido mesmo, ainda que por momentos? Porque se refugiara a sua alma num canto do teto? Porque voltara a estrelinha saltitante? Estava viva ou morta? Quem era aquele homem que a esperava?

O homem era o anestesista…dada a urgência da operação não fora possível a prática de alguns preceitos que ocorrem quando o procedimento é marcado com tempo…há sempre um risco de exagero na dose ministrada, ou a má recepção do organismo…o acaso…um acidente…

_Está tudo bem! – Ouviu a voz do homem dizer – tinha razão, está grávida e o seu menino, porque é um rapaz, está bem…a operação correu maravilhosamente…agora é a hora de se recompor…Espere lá…como sabe que está atada de pés e mãos? - Disse, enquanto a soltava…

_Eu vi ali de cima…vi tudo o que me fizeram, ou quase tudo, não fora a estrelinha que me distraiu…atarem-me…o corte…os vossos rostos preocupados…

Ele olhou-a abismado, sem entender…

_ É da anestesia, sabe, às vezes provoca delírios passageiros…agora já posso ir jantar…

Ficou contente por voltar a ver a estrelinha saltitante, pela segurança que lhe transmitia, por ouvir aquele zumbido ténue que ela emitia ao saltar, tão volátil que parecia embutido no ar e adormeceu…

*

Cristina era uma mãe possessiva, alegre, confiante e destemida, capaz de tudo, mesmo tudo, para salvaguardar o bem-estar dum filho…com os anos habituou-se a considerar a estrelinha cintilante, como uma manifestação protectora vinda do céu…um fenómeno do cosmos…qualquer coisa fantástica que lhe aparecia para a proteger, nem ela sabia bem de quê…uma aparição, espécie de magia, que a reconfortava e revigorava, sempre que, em adulta, o seu pensamento trilhava caminhos desconhecidos…

Terá sido assim quando “morreu”…a noite tempestuosa soltava uivos do vento que soprava de Sul…a chuva tilintava nas vidraças…chiavam os ramos das árvores e a água cantante nas caleiras do esgoto…viu-se deitada na urna, a tampa aberta, metade para cada lado, o cetim branco do leito onde o seu rosto sereno sobressaía, azulado…o vestido que idealizara e mandara guardar para a ocasião…as flores…tantas flores…

_Quando morrer, veste-me aquele vestido…- viu-se a si própria, magra, esbelta, no desenho da roupa sobre o corpo…morta!... do lado de fora, junto dos filhos e do marido, rodeando o caixão, consternados ante a evidência do seu desaparecimento físico…tocava-lhes, mas eles não a sentiam…curiosamente era a única que não chorava a sua própria morte…como se não acreditasse e aquele corpo fosse um outro espaço de si…nessa noite a estrelinha cintilante apareceu de uma forma diferente, algo estranha…saía de uma abertura subtil dos seus lábios descorados, dando-lhes cor…saltava dos lábios para o chão e voltava a entrar…parecia-lhe que só ela a via e queria tanto que eles a vissem para perceber que não era sonho, nem uma visão estereotipada de cunho divino...mas eles choravam e ela entre eles se estranhando no vai e vem da estrelinha cintilante…saltitando.

Quando acordou, teve a sensação de ter sonhado…as imagens passaram com exactidão na sua mente…apalpou as pernas, os braços, o corpo, a sentir-se viva…mordeu os lábios sem sentir a dor…apenas uma pressão nos olhos que permaneciam fechados, apesar do esforço que fazia para os abrir…quis gritar, mas não ouviu qualquer som…e era como se não respirasse…de súbito, a estrelinha cintilante, como uma criança rabina, divertida com a cena da morte projectada, atravessou-se na luz reflectida por um hiato do tempo…do azul-cobalto, no eixo central de onde saíam as pontas irizadas de mil cores, uma voz gelatinosa e doce…

_ Nasceste para sofrer, Cris, e ser feliz…só vais morrer no dia X…do mês Y….do ano Z… eles contaminaram quimicamente o teu filho…vais sofrer e desejar tantas vezes a morte…mas tal não acontecerá…ainda criarás uma menina a MÁTRIA…

Aqui o som tornou-se sussurrante, difuso, ininteligível, só perceptível a ela…que sentiu cada palavra como uma faca que a golpeasse a cada número que a pre-datava para morrer…

Despertou, agora sim, correu a casa toda a ver se era verdade…as crianças dormiam…o sol despontava sobre a falésia…olhou os campos floridos e os pássaros em alegre corropio…namoradeiros…geara de noite e uma camada fina de orvalho reluzia nas ervas rasteiras à luz matinal do sol …

_ E esta agora?! Como vou eu viver com esta informação? Acredito e procuro esquecer o que ouvi? Ou pura e simplesmente esqueço que vivi este pesadelo? Mas a data ali estava na memória viva…como um ferrete…a ser verdade faltavam uns anos largos… como se pode ser feliz sofrendo? O que estaria para acontecer ao meu filho? O que é a MÁTRIA?…Que menina?

*

A estrelinha cintilante tornou-se um mistério, quase uma obsessão, que ela agora queria desvendar…leu livros sobre fenómenos paranormais…sobre parapsicologia espiritismo…visitou bruxas, bruxos, mediuns e videntes, consultou astrólogos…padres…físicos e alquimistas…mas nada do que lhe disseram acalmou o seu interesse de saber e como não queria colocar a questão no âmbito de um qualquer mistério divinico, simplesmente sem explicação…partia do nada…se a sua natureza era humana, já lhe bastavam os complexos enredos de que se compunha a existência, decidiu por isso seguir a sua intuição…deixar passar o tempo até que uma luz se libertasse de dentro da sua alma…

Mas o tempo não lhe dava descanso…o filho mais novo foi arrastado pelas máfias da droga…foram dias e noites de angústia galopante…desceu aos abismos do não ser…

_Tão lindo, o meu filho…não mo hão-de levar…

A fome, o desespero, a carência dum abrigo…as caminhadas aos antros da desgraça, para o trazer de rastos…aguentar firme…solitária no deserto das leis insensiveis…mãe corajem…absoluta…perante os cobradores de dívidas, sem escrúpulos…perante a morosidade dos serviços hipócritas de apoio…perante a incompreensão de familiares e amigos…fez dívidas…vendeu tudo…trafulhou…mentiu…enganou…e na fronteira da indignidade, porque não há perda maior para uma mãe que um filho, acreditou que ambos venceriam…alimentou-o com amor, sempre que lúcido ele voltava…arranjou-o…cantou-lhe as virtudes da vida simples…desmistificou-lhe o medo de enfrentar a complexidade de viver…deu-se toda como exemplo de vencer…foram anos de não ser…mais de vinte,tentou a morte, mas não teve coragem…havia de ser capaz…e foi!

*

A Noite Outonal, aquecida por estranha estiagem, secava-lhe os lábios, apesar do seu constante irrigamento labial, a aragem e a ansiedade…noite escura de breu, com a Lua na sua fase de nova…todo o dia ouvira falar dum fenómeno recorrente que aconteceria hoje mesmo, pela madrugada dentro…uma chuva de estrelas cadentes…ou lá o que era, fenómeno de rara beleza nem sempre possível de observar… o seu sexto sentido impelia a sua vontade…estava alegre…uma atmosfera limpida e leve envolvia-a duma mágica quietude…ao cair da noite pôs-se ao caminho, decidida à derradeira tentativa para encontrar uma resposta…sim, seria a última vez que procurava desvendar o mistério da estrelinha saltitante…

O carreiro de terra batida que levava à praia era ladeado de árvores de pequeno e de grande porte, eucaliptos, pinheiros e acácias que exalavam aromas entrelaçados…os ramos, sobressaindo da densidade nocturna, pareciam figuras fantasmagóricas…ouvia estalidos, como se alguém pisasse ramos ressequidos…pios de mocho ou coruja…o bater das asas de aves em desequilíbrio…vultos confusos na humidade dos seus olhos…mosquitos…e um pesado silêncio, como se a todo o momento desabasse um cataclismo imprevisto…ou um assaltante desesperado…

Arfava do movimento dos pés e da mente…julgou ouvir vozes…o coração mantinha o batimento acelerado…os arbustos de formas bizarras, pareciam mover-se…em contra-mão…

_Que loucura…- pensava…

_ tantas vezes percorri estes matos à procura do meu filho…

Quando chegou à clareira da praia, respirou profundamente…havia uma ténue claridade provocada pelo brilho das estrelas na negritude sem nuvens…o mar de uma calmaria extasiante, quase se confundindo com o teto do mundo…não muito longe, uma luz tremelicava…pescadores, pensou…sentou-se no pico da duna mais alta, entre cardos e xorões…parecia uma deusa em meditação e foi sentindo a paz se interiorizando dentro do seu corpo…os olhos fixos no céu…leve…uma sensação anestesiante…quando de súbito, como neve caindo de mansinho, milhares de pontos luminosos, desciam do abismo celeste, parecendo vagalumes, irrompendo na atmosfera, silenciosamente…multicoloridos lixos cósmicos, ou restos de desperdícios invasivos, cometas, pedaços de estrelas, faulhas de luzes, de mistura com a sensibilidade dos seus olhos, num êxtase da alma…

O espectáculo maravilhoso absorvia todos os seus sentidos…nem dera que fora seguida…um vulto medonho de pessoa, curvado sobre o corpo enorme, observava a cena a poucos metros, entre arbustros e cardos humedecidos pelo orvalho

Ergueu-se, figura imponente no recorte sombrio, e desceu a duna, deslizando sobre a areia movediça, macia e fria…correu pelo espaço deixado livre na baixa-mar…pensando em nada…nada…nada, mas algo a fez voltar a cabeça para trás e viu que era seguida por uma figura asquerosa…via-lhe a baba na comissura dos lábios…os olhos faiscando no reflexo das estrelas…os cabelos desgrenhados…

Cristina sentiu um impulso de repulsa, não era medo, mas a tensão do desafio, de ser ou não capaz …entrou pelo mar rasteiro em direcção aonde as estrelas caíam…olhou para trás e viu que o vulto parara…gesticulava…berrava palavras nada inteligíveis…depois deixou de o ver…

O mar, embora calmo, tinha locais onde as correntes se encontravam, formando agueiros ou remoinhos na água, centrifugadores de objectos ou de pessoas que neles caíssem…sem se aperceber Cristina abeirou-se perigosamente dum agueiro, enquanto boiava…sentiu a força pressionante…atraindo-a e debateu-se, instintivamente, mas não saía de onde estava…nadava…invocando toda a força da sua alma…em volta, os pontos luminosos perdiam intensidade…por um momento pensou abandonar-se…deixar-se ir…mexia os pés,os braços, as mãos, estava quase e logo voltava a ser puxada para o abismo…nem um grito, ou muitos, silenciosos que ecoavam na paz da noite que pouco a pouco voltava à sua quietude…bebeu água e sal…os olhos a toldarem-se e pensou nos filhos…no filho que se recuperava…de súbito viu a mão estendida…tão luminosa e transparente…um chão firme que se abria à sua frente…evocou a força maior das suas profundezas, agarrou-se na emoção de ser capaz, agarrou-se a nada…o que sentia era uma impulsão de todo o ser em simultâneo… soltou-se das amarras da corrente…nadou para terra, exausta, e deitou-se na beira, onde a água a vinha beijar com ternura…esquecida de ao que viera, da figura horripilante que a perseguira…da estrelinha cintilante…de si…esteve ali deitada sem dar pelo tempo que já amanhecia…

*

Cristina não sabia se dormira ou se desmaiara, quando voltou a si já a maré enchia de novo e lhe cobria parte do corpo...sentiu um arrepio de frio…levantou a cabeça e espreitou a densa neblina que se pusera…a poucos metros, um volume escuro, inerte, que a água ia arrastando a cada enchio…levantou-se, trôpega, dorida nos tendões que a punham em movimento…abeirou-se…era o corpo duma pessoa…medonho…voltou costas e saíu dali apressadamente…

Sentou-se na base das dunas a recobrar as forças, as mãos segurando a cabeça entre os joelhos…sentiu um calor repentino e reparou que as suas roupas estavam secas…

_ Como é possível?

Na semi-escuridão, do lusco-fusco da madrugada, a estrelinha ainda cintilava…percorria em arcos a distância do mar até onde ela estava…

_Porque fizeste esta loucura? A vida, toda a vida é sendo…não adianta conhecer o devir…nada é constante…tudo é mutável…o ser é… constrói-se…sendo… interagindo com as hipóteses que se vão colocando…

Cristina sentiu aquela paz interior que a invadia de uma alegria subtil, sempre que o desânimo a assaltava…os olhos fixos na estrela cintilante que à sua frente saltitava e de onde saíam sons inteligíveis que se transformavam em palavras…tão doces…tão fáceis de entender na sua complexidade…

_Os humanos são sementes cósmicas, como todos os elementos vivos no espaço Terrestre…por uma razão de degenerescência química, desenvolveram a ideia que eram superiores a todos os outros…é falso…havia um equilíbrio que permitia a existência de tudo e do todo em conflituosa mas sã harmonia…os humanos destruiram o equilíbrio…inventaram os deuses para darem cobertura à sua ambição de domínio…o seu medo dos medos…subjugaram as mulheres que lhes deram origem…para ocultarem a sua fragilidade…destruiram a sabedoria para que melhor vingasse a sua mediocridade…cada ser humano tem um ponto lumioso como eu…uma fonte molecular de energia…poucos, como tu, tiveram a veleidade de ir até ao fim…por isso te revelo o que te revelei, mas digo-te: não procures mais…vive de acordo com a tua intuição…a cada dia te acontecendo…

*

A estrelinha, ditas estas palavras desapareceu, quase em simultâneo com o clarear do dia…Cristina deixou-se ficar um pouco mais, saboreando cada palavra…interligando os sentidos com a realidade subterrânea, de onde pouco a pouco emergia…

_Espera e a MÁTRIA…o que…quem é?

Olhou em frente, o mar agitado pela brisa do amanhecer, a neblina esfumando-se rasgada pelos raios esplendorosos do sol…o corpo mostrengo desaparecera da borda-d’água…ergueu-se de um salto…e retomou o retorno a casa…de caminho comprou pão…para que tudo parecesse igual a todos os dias…

 

Autor: joão raimundo gonçalves (jrg)

 

In "OCULTOS BURACOS" Colectânea de Pastelaria Estúdios Editora

 

 


sinto-me:
música: encosta-te a mim - Jorge Palma
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Domingo, 30 de Dezembro De 2012

SOU REFORMADO RICO GANHEI DEMAIS !!!


foto pública tirada da net
***
SOU REFORMADO RICO
GANHEI DEMAIS !!!
***
quando eu nasci de mim
os deuses olharam-me de soslaio
mediram o tempo na ampulheta
e decidiram por unânime frenesim
que não me tornariam lacaio
nem a ferros me prendiam à grilheta
*
segui humildemente
encosta acima como Sísifo condenado
não de lacaio mas de jumento
a carregar um fardo enxuto de semente
perdendo os créditos se cansado
se me esforçasse garantiam um aumento
*
subi por minha conta e risco
a confiar que o pacto divino era sagrado
que ao chegar ao cimo da estopada
nenhum ladrão ou deus sequer o fisco
me cortariam o casco sendo roubado
por não poder ir mais além velho e cansado
*
dei coices espinoteei
fiz queixa mas fui alvo do riso da chacota
trabalhei muito ganhei demais
o erro foi de quem me pagou fora da lei
se pobre não ganhava pr'á palhota
como fora eu capaz de ganhos tantos de tais
*
fui ver e era tão pouco 
mal chegava tiradas as taxas e penhoras
mais os aumentos abrangentes
para ser por um só mês o tipo louco
de pagar rendas a horas
e comer todos os dias refeições quentes
*
decidi não saudar o ano novo
tanto se me dá que seja bom ou seja mau
tão pior que ser um pobre rico
é a pilhagem que o poder faz ao povo
que em cada mão renasça o pau
que há-de correr sem medo o mafarrico
autor: jrg
sinto-me: reformado
música: Os Vampiros - Zeca Afonso
publicado por romanesco às 23:23
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Quarta-feira, 14 de Novembro De 2012

"ACORDAI" POVO DA LUSITÂNIA !!!

vídeo sapo

*

"ACORDAI" POVO DA LUSITÂNIA

*

ouço os apitos lancinantes

das ambulâncias

vejo as chamas de meu país a arder

enquanto as feras rapinantes

se escondem nos buracos das instâncias

de onde saem ordens para morrer

*

não adianta senhor ministro

dizer que são arrivistas

meia dúzia contra um batalhão

tão criminoso é quem condena o cristo

como o carrasco que encurta as vistas

o mais é só cavar a divisão

*

ouço as ambulâncias a apitar

a violência é do governo de ladrões

a mando da alta finança

recebem ordens para atirar a matar

sobre a revolta dos escravos das nações

não podemos permitir esta matança

*

aumentam produtos e serviços

cortam salários rasgam reformas e pensões

são assassinos marginais

arrasaram a economia mantém vícios

enchem os bolsos dos ladrões

ó povo da Lusitânia quando acordais?

*

ouço as ambulâncias na agonia

velhos crianças enfermos

mulheres libertas das milenares grilhetas

não sou poeta mas convoco a poesia

a haver paz tem que ser com os nossos termos

o tempo escoa nas ampulhetas

*

já não saem à rua senão bem guardados

são a maior vergonha dum povo

impostores infames borrados de medo

atiçam as feras seus paus mandados

querem ganhar custe o que custar o viciado jogo

mas o tempo mudou já não é segredo

*

ouço ambulâncias trinonis pungentes

levam o desespero da nação

os povos têm o direito à resistência

nesta chacina somos inocentes

unidos contra corruptos somos a revolução

que começa na nossa consciência...

autor: jrg

sinto-me: revoltado
música: Os Vampiros - Zeca Afonso
publicado por romanesco às 22:44
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Quarta-feira, 17 de Outubro De 2012

MATRIZ !


Natália Correia por Bual
*
MATRIZ
*
mulher 
de pés descalços
tão menina
pegadas do amanhecer
desfazendo laços
que espreitam em cada esquina
do meu viver
*
MÁTRIA
mãe de toda a criatura
saindo da bruma
onde a história se fez PÁTRIA
renasce pura
e no olhar duma criança apruma
a nova era PÁRIA
*
fêmea sedutora
atractiva dos prazeres sensuais
deixando marcas de cio
na paisagem tão enganadora
onde vingam os chacais
afasta os abutres que bebem do teu rio
sê pura e ganhadora
*
jrg
sinto-me: Matriarcal
música: Teresa Salgueiro
publicado por romanesco às 19:16
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Quinta-feira, 11 de Outubro De 2012

GALERIA DE MULHERES COM POEMAS DENTRO ! * Isabel Branco *



isabel branco

***

GALERIA DE MULHERES

COM POEMAS DENTRO !

*


* Isabel Branco *


*

as palavras rasgam na saudade

o dom de dizer a poesia

saem ladinas correndo de dentro dela

dão forma ao poema claridade

transcendem o mito o mistério a fantasia

cintilam d'Àfrica como uma estrela

que iluminasse todas as almas da cidade

*

"nasci na terra ao longe de Lobito

de uma família inteira

e por lá fiquei eterna adolescente

é esse o tempo que sou em cada dito

nasci mulher poema tecedeira

das emoções que me vestem docemente

quando no silêncio sou um grito"

*

afina os tons da voz  e diz

da alma do poeta cada verso

como quem afaga a pele curtida do tambor

estremece pausa flor de lis 

alonga a vista sobre o desejo imerso

mãe das palavras com amor

que acorrem aos ouvidos do país

*

"Sou o sol que me arde nos cabelos...

o grito da fera ferida na anhara angolana...

o mar que se espraia e por mim chama...

a flaminga restinga...e seus apelos...

Ah! Sou aquela...que chora, ri e também ama..."

IB

*

os seus olhos espelham tanta pureza

que no seu sorriso nos quer dizer

catar por onde houver a alma profunda

de quem escreve e sente a natureza

ei-la de antes quebrar que deixar torcer

adejando sobre a ideia que a inunda

feita da alegria extasiante que lhe dá beleza

*

"sou aquela que diz o seu sentir

que se realiza na aventura da descoberta

onde houver um poeta ou poetisa

ou um poema sem nome para existir

quero dizê-lo com a alma aberta

mostrar ao mundo esta gente que em verso avisa

só o amor trará a paz para sorrir"

*

olho na mulher o poema dentro

que irradia a beleza dos mistérios africanos

sentada diz poesia que a sua alma sente

ela que escreve poemas com amor ao centro

que partilha seus valores humanos

ela que nos pede em troca e tão somente

que usemos a poesia como um ceptro

*

"porque sou a que diz a poesia

de todo o que para mim sinto como talento

não quero vivas nem honrarias

deixem-me viver plena a minha fantasia

sou mulher e se sou poema tento

cantar do Lobito o mar o porto as correrias

e de Catumbela a terra de maresia"

*

é um encanto a voz saindo do poema

com rosto iluminado de mulher

ecos da memória humana

voz que se abre livre de qualquer algema

que rasga trevas ao amanhecer

eu canto para si Isabel (de) branco sobre a savana

meu hino à liberdade como tema


autor: jrg
sinto-me:
música: Batuques Africanos
publicado por romanesco às 21:45
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DIZER POESIA - JOÃO RAIMUNDO GONÇALVES...por ISABEL BRANCO


*
E SE DE REPENTE

 

ME FECHASSE PARA BALANÇO?

 ***


de repente

 

enquanto à volta os meus passos
movimentam
tudo o que em mim é movimento
acho-me a pensar
que não tenho mais nada a dizer
depois do que disse
de tanto dito que li em meu redor
já só me falta não ser
na imensidão do mar eu abismo
sem sol nem luar
*
de repente
um desejo impetuoso de parar
ficar quieto
como uma maioria absoluta
a definhar
olhando sem ver o louco a louca
vicejando ao alvorecer
em cada esquina da vida a decantar
aforismos poemas
e causas tremendas horríveis
a doer-me de amar
*
de repente
tudo o que disse me soa a nada
vácuo vão inútil
de tanto pensar ensandeci de amor
pedra pesada
que não chega ao cimo da montanha
a meio descamba
e arrasta o que me resta de ter sido
coragem esperança
com a memória ainda em sangue
tão desventrada
*
de repente
não tenho deus nem pátria
nem família ou amigos
pés ou mãos que me aconcheguem
todos me calam
na profundidade de absurdos segredos
e se escudam
na promiscuidade da minha evidência
árida estéril imbecil
a propagar que já não tenho medos
para onde fugir
*
de repente
se um doce veneno uma picada indolor
um terramoto uma avalanche
de ideias consecutivas me acudissem
sem ter que perder
nem explicar-me a decisão de sair
de não mais dizer
que abomino o clamor deste silêncio
de onde teimo gritar
aos meus próprios passos que me sitiam
a alma surpreendida
*
de repente
uma vontade indomável de apagar
o que me identifica
lunático a acreditar na falsa esperança
que amar é dor que amor alcança
e a não querer ver a materialização fatal
que me e nos condena
à servil condição de sonhadores
de criar sonhos especular
sabendo de antemão que não vale mais a pena
viver nesta agonia a adiar
*
de repente
desligo o botão que me liga à máquina
e permito que o meu silêncio
seja também ele um grito fantástico
a ecoar nas almas em espertina
ninguém dará por nada tão de súbito
como a luz que se apaga
fica ainda a claridade do apagão a confundir-nos
sinto a leveza da queda
neste abismo que é o não ser em absoluto
depois volto à normalidade de viver
**
como se nada tivesse acontecido!!!

 


 

autor: jrg

***


REGURGITAR AMOR...


**
Imagino a gruta
para onde te levo
sob a falésia os arbustos
o aroma das urzes
onde te rimo com mar
e o mar de tanto amar
tão teu e meu a dor
*
lembro o sonho
de amantes sem segredos
enrolados nos corpos
possessos de beijos
para diversão das almas
que sabiam
da efemeridade dos medos
*
evoco da memória
que havia escondido no sonho
um pesadelo activado
porque amavas demais
um outro que em mim achavas
tão parecido ou crente a jeito
no sonho feito segredo
*
recordo o meu o teu
desinquietado desassossego
por onde desvairados
nos amamos sem pudor os corpos
por entre manchas de ternura
lágrimas compulsivas
de sal e mel te escorriam
*
regurgito onde te memorizo
o grito o gesto subil o cheiro
as palavras que disseste
de amor sentido meu degredo
e da vontade que é partir
ao teu e meu encontro
dizer-te que não tenhas medo
*
autor: JRG

sinto-me:
música: batuques de África
publicado por romanesco às 17:33
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Domingo, 07 de Outubro De 2012

PORQUE CHORAS MEU AMOR ?




imagem pública tirada da net

*

PORQUE CHORAS MEU AMOR ?

*

diz-me porque tanto chora a tua alma 

porque gritas no silêncio a tua dor

que fome o teu espírito não acalma

que angústia não te basta o meu amor

*

Porque procuras no silêncio a resposta

porque te recusas ouvir minha voz

que sou o escravo da tua vida exposta

que sou a outra parte de ti em nós

*

Porque choras na tua alma meu amor

se o mar e o céu te e nos amparam

é tempo de soltares os nós das amarras

É tempo de te abrires bela rara flor

orgulhosa dos seres que em ti amaram

tão formiga no canto das cigarras

*

diz-me porque lágrimas tão amargas

me tornam impotente por afasia

mordes os lábios soluças e me afagas

com suspiros e cheiros a maresia

*

porque choram teus olhos madrugada

doces meigos febris de que agonia

teu coração te faz sentir mais culpada

porque choras meu amor de poesia

*

porque choram os teus olhos meu amor

quanta emoção e quantas mágoas

se por amor plantei para ti este jardim

onde criei teu reino te fiz bela flor

regada a carinho ternura e puras águas

para te sentir e me sentires a mim



autor:jrg
sinto-me: amor
música: página em branco - Jorge Palma
publicado por romanesco às 01:59
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