Sábado, 20 de Abril De 2013

A SALVAÇÃO DUM PAÍS


***
A SALVAÇÃO DUM PAÍS
**
o meu país definha
em cada dia do tempo que passa
e ninguém parece ver
um país cercado d'erva daninha
voraz erva tão devassa
que não deixa meu país crescer
*
o meu país não acorda
do sobressalto nem do pesadelo
levado pelo vento à deriva
miga pão e bebe vinho faz açorda
abarca a mentira com desvelo
marca passo à espera da maré viva
*
o meu país está num beco
cuja saída se encontra obstruída
é uma ilha que o mar afunda
sem alma nem esperança um poço seco
à espera da ajuda desvalida
dos poderes insanos onde o ódio abunda
*
o meu país precisa
do ar purificador dum tempo de paz
perene de valores humanos
duma ideia que se torne na mente concisa
ou no coração tanto me faz
desde que livre do arbítrio dos tiranos
*
no meu país de gente boa
é preciso que a palavra esperança
reconstitua orgulho e alegria
de Caminha a Faro passando por Lisboa
encher a alma de confiança
varrendo o lixo do poder em confraria
*
no meu país há quem cante
que almas mortas ou somente moribundas
resvalam da coragem com desânimo
não ganhamos esta guerra senão avante
de peito aberto às barafundas
que ultrajam um povo nobre e magnânimo
*
no meu país há uma rota
ouço tambores que rufam rumo à vitória
assim acreditem os do povo maduro
armados do saber que é hoje a nova frota
a tirania é estúpida sem memória
cerremos fileiras em torno do pensamento puro

autor: jrg
sinto-me: inquietado
música: Os Vampiros - Zeca Afonso
publicado por romanesco às 21:03
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Quinta-feira, 28 de Fevereiro De 2013

"NANY"

 

foto Pastelaria Studios Editora

***

N A N Y

 

 

I

 

É Verão de novo, desde há dez anos que me é indiferente o tempo que faz… o sol quente a meio da manhã, espalhando raios sobre o mar manso de vento e de maresia, tostando corpos acariciando amantes. Brisa ainda fresca a tocar-me as faces. Água límpida junto à praia, vejo as conchas, a areia de cor acastanhada, húmida, até ao vinco deixado pela maré, os corpos luzidios de homens, mulheres e de crianças que se banham próximo de onde me encontro e vejo os meus pés horrendos que se movem imersos, o dedo do meio sobreposto, os joanetes de cada um dos lados de cada um dos pés, a areia macia, sussurro de vozes num alarido abafado pelos ecos do mar. As minhas pernas cortando as águas como a quilha dum barco impelido por remos.

Gosto das esplanadas junto ao mar, mirar vultos de pessoas, adivinhar as almas em volta de cada um, de como se conluiam manhosamente na alegria dos dias de descanso, ou de como se provocam, expondo-se numa aparente sensualidade descuidada. O ardil das conquistas, os beijos e os olhos que se espraiam em volta, os sorrisos encantadores e os de circunstância, sorrisos tímidos, desconfiados, ou cínicos, ordinários, de gente que se mascara para se misturar com os de pureza da alma, descontraídos. Tento descortinar uns dos outros, através dos sorrisos, dos olhos que espelham com nitidez o carácter, ou das palavras que dizem...

Gosto das transparências, em vestidos soltos ou saias, de mulheres que usam a praia não para banhos, mas como um local de lazer momentâneo, ou de encontro consigo, ou algo diferente que as faça sobressair por momentos da apatia em que mergulharam o ser, ou ainda uma procura de encontros fortuitos, uma exposição de si, do que acham belo de si, do que sentem e ambicionam ser possível surgir por um acaso, de entre tanta beleza de sol, gente e mar.

Procuro um lugar sombrio na esplanada cheia. Um casal que se levanta, mesmo a tempo, pouso o livro que ando a ler "NANY" de um autor ainda desconhecido mas promissor  que relata uma história, às vezes sórdida, outras pungente, duma relação de amor, através da net, sórdida porque esbarra em concepções de baixo nível para ter um desfecho abrupto que deixa uma das personagens em estado de choque emocional, mas pungente a raiar o sublime da narrativa, pela dor que envolve os intervenientes quando evitam falar dos sujeitos passivos que dormem tão perto, quando os coloca na posição de infidelidade que ambos recusam porque se encontram distantes...falam de amor, amam-se, mas não se tocam, não se transpiram na pele um do outro...mesmo se vão fazer amor com o parceiro de lei, induzidos pelos preliminares actos que praticaram no computador...a pensarem nas palavras do outro...como zombies de si próprios...amor! Estou absorto neste e outros pensamentos que se entrecruzam, rebeldes, com os olhares que lanço aos corpos estendidos sobre toalhas garridas, e outros que regressam do banho, gotículas de água escorregando pelos braços, os cabelos colados, os olhos, os biquínis metidos nas cavidades pudicas, demoro os olhos no volume das vulvas a adivinhar se é inchaço dos lábios externos ou um penso higiénico por motivo de arreliador período menstrual.

E de repente os nossos olhos cruzam-se e fixam-se, como se um poderoso íman os traísse, eu e ela, uma imagem muito linda, doentiamente linda na simplicidade que a envolvia, nas características do rosto oval, os lábios carnudos, levemente rosados, os olhos negros, a pele acetinada, os cabelos de um preto profundo e exaltante de sedução, os seios sobressaindo da blusa vermelha, livres, proporcionais ao corpo de estatura média, nem muito magra nem cheia, a saia curta, branca de tecido transparente, as cuecas de renda, provocantemente explicitas quando o tecido se colava ao corpo, por acção da brisa ou dos movimentos que ela fazia com o corpo e a luz do sol esbatia nela e na sua evidência feminina.

Estremeci, ela desviou os olhos por momentos e pude apreciá-la com mais ousadia, doía-me a alma, de dentro do peito, as frontes latejantes, de tanta beleza épica, como numa paisagem idílica, um pormenor em destaque porque mais belo e depois… voltou, agora de soslaio, olhar oblíquo, estranheza no rosto ou dúvida. Inquieta de mim, pensei, ou de me sentir a indecisão, a prisão da voz que queria dizer-lhe uma trivialidade, talvez. E disse-lhe, soerguendo-me da cadeira:

_Bom dia…procura uma mesa, ou espera alguém...?

_Bom dia, sim, mas isto está tudo muito cheio, eu espero, não se incomode...obrigada.

Disse as palavras sorrindo, todo o rosto iluminado dum sorriso absoluto de evidente naturalidade, a voz suave e quente, docemente quente, aveludada. Insisti ao sentir a empatia:

_Podemos partilhar a mesa onde estou, pode voltar-me as costas como se estivesse longe, não a olharei menos do que se estivesse num lugar distante, ou podemos conversar porque a sinto tão rica de conhecimentos...

O sorriso dela abriu-se numa gargalhada cristalina, os dentes perfeitos e sãos, pude sentir-lhe aromas que vinham de dentro, frutos maduros, aglutinantes.

_Está bem, aceito, até porque estou aflita para ir a um WC, penso que haverá um, por aqui...

Olhámos ambos em volta, a ver se havia_ Sim, dissémos em simultâneo, toda ela era um sorriso de simpatia envolvente, aliás, os nossos sorrisos chocavam-se produzindo um reflexo de luz... Magia ou ilusão. Deixou sobre a mesa um livro que trazia, de rosto voltado sobre o tampo e foi, fresca e sedutora no andar.

Reparei então, estupefacto, que se tratava do mesmo livro que ando a ler, "NANY" e senti um ardor estranho em todo o interior do meu corpo, um arrepio quente de ternura e repeti para mim: “esta mulher é linda demais para ser de verdade.”

Lembrei-me de Ana Maria e na doçura quase lasciva em que me envolveu a sua amizade. Ana, há quanto tempo tão longe, sem uma palavra, sem um roteiro de encontro, porquê? Terás sentido que te queria ter como fêmea luxuriante? Mas eu contei-te a minha história, sabias que amo a minha mulher acima de qualquer devaneio, sabias que me interesso por mulheres pensantes, mulheres que me permitam ir mais além no conhecimento de mim, testar-me nos vários limites a que me proponho, desde logo, o da amizade, até que ponto a amizade é um amor de grande profundidade, até que ponto me engano quando digo que não quero sexo, apenas palavras e gestos de ternura amiga, desmistificar os problemas ditos insolúveis. Conhecer o meu lado feminino, numa tentativa de absoluto do homem agora sem deus, livre mas só, entregue a si próprio, porque eu acredito em absolutos, não na sua totalidade, mas em absolutos de momentos...de factos ou em acontecimentos que se projectam no tempo...

Ela voltou, graciosa e simples na sua beleza exuberante, a cortar-me os pensamentos, a insinuar-se-me na ausência em que me encontrava...

_Anamar...

Estendeu-me a mão, os olhos, que eram verdes, um verde-escuro e não pretos como me pareceram, a luz de dentro do rosto e em volta, descendo suave pelas faces coradas, que beleza de nome, pensei e devo ter tido uma expressão significativa que a fez adejar sobre o meu silêncio.

_Não acredita? Eu gosto do meu nome.

_É um nome fora do vulgar, belo, como tudo o que me acontece ver de em si, perdoe, mas é meu hábito expressar tudo o que sinto quando me parece que é reciproco, eu sou João Maria.

A mão dela permaneceu na minha enquanto os nossos olhos se investigavam...fechei os meus por um momento...a mão dela na minha...num feiche de carícias por mim fantasiadas...electrizantes partículas de energia percorriam o meu corpo...energia dela a misturar-se onde a minha parecia recuperar duma inércia prolongada...

_Andamos a ler o mesmo livro!

_ E que lhe parece, indaguei.

Queria ouvi-la falar, ocupar-me o silêncio que eu era na minha solitária vivência sem contexto social…exercitar a minha consciência, acomodada à inércia de pensar além do tempo físico…

_É uma história possível, absurda pela anormalidade, mas possível e está muito bem escrita e sentida, as cenas de sexo virtual são um clímax na leitura, sinto que as viveram de facto emotivamente, como se estivessem na realidade colados os corpos e se olhassem de dentro de si...fez uma pausa, a medir, talvez, o efeito das palavras, ou o que queria dizer e se amontoava à porta de saída do pensamento...digo-lhe que o que me fascina é a interiorização das personagens, como figuras reais, que assumem as mutações próprias, que as antecipam, como quando ele responde às afirmações de amor eterno dela, dizendo que “o tempo é a única peça do jogo que condiciona a intemporalidade das palavras, das intenções e que o desfecho será cruel para com ele, por ser a parte mais tendencialmente absurda do romance.”

_Porquê? Por ser muito mais velho? Ou por adivinhar as frustrações dela e o não querer assumir que o namoro em que navegavam era contra os preconceitos que os prendiam?

Anamar sorriu, lindo tudo nela. Folheava o livro aleatóriamente como se procurasse uma cena, ou um pretexto que a ligasse à história e ligou-se...perante o meu encolher de ombros, um tique de iniciação que me dava confiança, prosseguiu…

_Eu tive um casamento falhado, onde tudo era maravilha e etereamente vivido até ao momento em que senti que era mentira, que já nada tinha o fogo sequer da esperança tardia. É como se um élan que nos prende à pessoa, a algo da pessoa, se evaporasse e tudo o que ela diga, ou aparente, nos soa a falso. Hoje penso que a amizade é a base onde se consubstancia o amor...é talvez o único sentimento que nos permite amar com maior alcance...

Há qualquer coisa nesta mulher que me desassossega...os lábios tremeram quando disse amor e entrou-me na alma...senti ela lá onde me escondo, a desvendar-me...

_ É um dos aspectos que me fascina, _digo..., o olhar ausente sobre o mar, nos corpos que se movem na areia fina da praia, _pensar que as pessoas acreditam na imutabilidade duma relação, como se tivessem sido feitos um para o outro, a cara-metade, a alma gémea e não houvesse o tempo, o envelhecimento e a morte de células e o renascimento ou proliferação de outras, ou a mutação de genes, ou uma alteração substancial da energia cósmica que, acredito, nos influencia a vida.

Há um casal em frente que se beija, depois abraçam-se, ainda novos, e reparo nos olhos dele sobre a minha companheira fortuita, olhos malandros, cobiçosos, a medi-la, a tentá-la no sorriso enquanto a namorada lhe morde a nuca...olhará ela para alguém? _penso

_ O João Maria é de que signo .

_ Sou de Capricórnio, porque pergunta? Estuda ou é formada em Astrologia?

_Não, sou apenas curiosa e não desdenho nada do que pode ser útil na definição do meu carácter, da minha ancestralidade posso tratar-te por tu? Eu sou de Escorpião e gosto de pessoas francas que não estejam sempre a olhar-me com um segundo sentido.

Consigo senti-la...Anamar…crescer dentro de mim, como se fora algo de tão só meu, a evoluir, a esquecer-me do tempo que se refazia e me refazia...a afectar-me no pressuposto de que não amaria mais ninguém, do mesmo modo, na mesma intensidade...e ela ali estava a mexer comigo de dentro para fora...de onde eu não podia fugir...

_Sim, claro, sinto que estamos integrados numa perspectiva semelhante do pensamento. Eu creio que existe uma influência cósmica que facilita ou incita à união de um homem e uma mulher, que os determina e que isso nem sempre é tido em conta. É mais fácil, aparentemente mudar de parceiro, infinitamente mudar, numa busca desesperada de encontrar o fio condutor. Ao invés, eu penso que devemos ater-nos ao tempo, e ao nosso conhecimento, aceitar as mudanças, discutir sem pressas que a mudança ocorra na pessoa, mas há algo que não depende só de nós, por isso devemos estar atentos em volta, numa constante descoberta e compreensão do que muda.

Anamar não pára de me fitar enquanto fala…ambos sentimos que as palavras são um pretexto óbvio à comunicação visual que se manifesta intensa e sem floreados de língua, como se temessemos que o silêncio nos arrastaria depressa demais para um destino de falsa partida

_Ao ouvir-te, João Maria, penso que te identificas bastante com o autor do livro, há nele um diálogo constante, do lado de fora das personagens, sobre a procura de uma justificação para o seu envolvimento amoroso, se o que fazem é considerado uma traição aos seus companheiros ou se, pelo contrário, são apenas um conjunto de palavras que constroem um facto e que podem, por ventura, redimensionar as relações em rotura.

Os lábios dela movem-se pausadamente, sem deixar de me mirar...o livro estava a unir-nos, sem que encarnássemos as personagens, discutiamos as ideias, o pensamento narrativo do autor que nos colocava questões pertinentes numa relação...mergulhados na estética da forma esquecíamos a realidade dos olhares que já tinham uma imagem da nossa profundidade…

_Mas não sou o autor, podes acreditar, discordo, por exemplo, quando a personagem quer fazer-nos acreditar que aceitou o desafio de amante, apenas com o intuito de viver um romance, como uma personagem autêntica, porque o que eu sinto é que ele se envolveu todo, perdeu a noção da racionalidade, talvez devido à própria promiscuidade do computador e o desfecho só podia ser aquele, a loucura. E tu, queres falar da tua relação, de como tudo aconteceu? o que correu mal...

De repente, ao olhá-la nos olhos, sinto que estou confortável na sua companhia, que me apetece prolongá-la sem tempo limite, preso nos seus lábios que são o sorriso, nos seus olhos rutilantes que são a sua alma, nos gestos que traduzem encanto e sobe-me o perfume dela, um perfume que me absorve e não eu a ele, ou não já só pelas narinas, mas por todos os poros do meu corpo.

_Talvez amanhã, ou outro dia, hoje ainda tenho os meus pais, vou almoçar com eles, vens amanhã?

_Venho, podíamos vir mais cedo...almoçar por aí...que dizes?

_Veremos a nossa disposição amanhã, o tempo que faz... se nos condiciona...

Despedimo-nos com um beijo nas faces, senti o ardor da pele dela na minha pele e o sorriso provocador...ou sedutor? Ao citar o tempo como condicionante do que fazer amanhã. Fico a vê-la, no corpo ágil, o encanto dos pés...leves...leves e a dar-me conta que uma parte da alma dela ficou...que lonjura amanhã!

 

 

 

II

 

A minha alma passeou a sua inquietude nos sonhos da noite mal dormida, o corpo dorido, ante o alvor que corria célere e se mostrava  na sua evidência de luz a meus olhos povoados de imagens sombrias, a aclarearem-se de mim...o sol despontava sobre a falésia.

É um encontro de estranhos, de mim em mim, o eu central surpreso de me ver cativo duma mulher. Há quanto tempo o meu coração, a mente, o corpo estável, habituado a amar a única mulher que me amou sentidamente. Era assim, mesmo após a morte, sentia-me desligado de um qualquer enlace que se sobrepusesse ao único e grande amor de toda uma vida.

A imagem de Anamar impunha-se-me insistente, toda ela luz, sabores, cheiros, toda ela uma melodia única nos sons da voz, candidamente doce, melosa, a imiscuir-se nos poros da pele, no apelar a um entendimento subtil.

Avisto o infinito do mar, de onde me encontro sobre a cama, a planta Tropical tombada sobrepondo-se à parte direita da janela a toda a largura do terraço, com as portas de correr ao meio. Há uma bruma à flor da água, flocos níveos como fumo de fogueira mal apagada.

O sol ainda meio por detrás da falésia, apenas o vislumbre dos seus raios  uniformes que cortam a neblina, as flores que rejubilam amanhecidas, orvalhadas dos néctares nocturnos.

Foi uma noite de inquietação da alma, sem descanso, a mente febril dilacerando-me entre a memória e a realidade a procurar impor-se como uma sustentação de evidências, a afirmação de que o ser é sendo, o que ontem era um principio inabalável, hoje aparece numa teia de contornos imprevistos, de dúvidas instaladas porque houve uma emoção nos sentidos. Amar é isto de sentir a inevitabilidade de ser na outra pessoa e de acontecer o nascimento duma outra entidade que une mas não absorve...que sendo única respeita a individualidade...mas que não a dispensa…amar é o quinto elemento da vida.

Visto o calção azul-escuro que há muito jazia na gaveta e isso é um sinal que o meu ego se prepara para cultivar a aparência, a camisa de xadrez azul claro sobre fundo branco, os chinelos de cabedal, abertos ao joanete sobressaindo dos meus pés que me parecem enormes.

A praia ainda semi deserta, esplanadas fechadas, o sol já sobre a falésia, rutilante de luz, caminho ao longo do paredão na direcção do Norte, à minha esquerda o mar de um azul fascinante, as ondas mansas, as poucas pessoas que se passeiam cortando a água com os pés, tudo igual a todos os dias, parecem-me até as mesmas pessoas, os mesmos cheiros, chapinhando-se e penso inevitavelmente nela, esbelta, os olhos doces sobre o meu corpo, o gesticular das mãos que compõem o explanar do seu ponto de vista.

À minha direita o que resta da mata de acácias, os parques de campismo, será que ela vem? Que impressão lhe terei causado? A suficiente para que se dê ao trabalho de vir de novo, na incógnita do que poderá acontecer, no aprofundar de questões da intimidade que aproximam ou afastam, que inibem ou despoletam emoções. Não quero acreditar que não venha...li nela algo que no tempo se define como a claridade cósmica...

O meu olhar fixa-se, de súbito, numa silhueta de mulher sentada sobre a pedra grande, à entrada do esporão, o vestido tipo  roupão avermelhado, os óculos escuros, os braços exímios descaídos sobre o corpo e o livro preso na axila do lado esquerdo dela. Sinto toda a harmonia do ser que ela é, ou que se me evidencia como sendo. Aproximo-me, o coração em palpitações de adolescente ante o seu primeiro namoro e penso que é assim, sempre que há uma verdade nos sentimentos, um click de sedução consentida, a voz presa na garganta ressequida.

_ Anamar!...

Ela vira-se e deixa-me abismado sobre mim, tirou os óculos e toda a luminosidade dos olhos estavam patentes, como se tivessem estado a chorar, ou uma memória, um sentir que se tivesse soltado de dentro de si e o sorriso, aberto, agradado, agradável, amoroso.

_João Maria!... Soltou com entusiasmo...

Abraçámo-nos, os seios dela de novo no meu peito, os nossos rostos encostados, tão próximos, perfumes alucinantes vindos dos lábios abertos, apelativos e eu arfante, a sentir o coração dela, a ouvir as batidas aceleradas do meu, tão próximos os lábios carnudos, flores vermelhas humedecidas e afundo-me neles, os meus lábios nos dela, dois toques, frescura e fogo de dentro e embrenho-me e ela embrenha-se, as línguas percorrem-se e ladeiam o interior da boca, as laterais, o céu-da-boca, salivas entrelaçadas de uma doçura quase extravagante, lábios com lábios, as línguas num devaneio possessivo, os nossos corpos colados, roçando-se, o meu sexo levantado, saltitante e julgo perceber o concavo desenhado do sexo dela  sob o vestido, onde o meu sexo se acoita prazenteiro, despudorado, as minhas e as mãos dela percorrendo a costas em movimentos circulares, aconchegando os corpos em suaves apertos, empurrando-os para dentro um do outro...respiração contida, arfante e contida a espaços. Loucos.

_Perdoa-me!...o teu poder foi mais forte...- titubeei, surpreendido de mim próprio...

Os olhos dela tremelicaram, ainda mal refeita, passando a língua pelos lábios, voluptuosa, trémula a voz, entre sumida e grave, quase patética se vista de um outro angulo que não eu.

_Teria de ser um perdão mútuo porque eu também não me contive, foi um impulso...e...bom...

Demos as mãos e caminhámos no sentido da esplanada. No areal os gritos agudos das crianças soltando as energias acomodadas desde a cidade. Atiram-se areia uns aos outros e chapinham na água que vem beijar-lhes os pés puros de meninos e meninas.

_Digo-te que eu própria me surpreendo. Venho de uma separação conflituosa, como te disse, um homem que se alterou a dado passo da relação, que se assumiu como se tivesse tomado posse de mim, exibia-me, como sendo a “sua” mulher, prendia-me até os pensamentos, o gosto de andar despido dentro da casa, _”sou um homem das cavernas...” dizia-me num tom poderoso que me foi cansando...ejacular-se dentro de mim e soltar-se, sem se importar com a minha própria satisfação, do meu estado...alhear-se dos meus anseios, dos meus projectos, possuir-me... _” Deixa-me possuir-te!...”_ era como ele me dizia,  ter-me para ele, dócil, submissa, apenas de sexo...mulher objecto...

Aperto-lhe a mão pequenina entre a minha, macia a pele, os dedos esguios, os seios dela batem no meu braço de vez em quando com a oscilação dos corpos no andar e digo-lhe que gostava de ser dentro dela e de a sentir ser dentro de mim, não apenas por sexo, mas por algo muito mais belo que é a alma, numa corrente contínua onde deixamos de ser eu e ela para sermos um absoluto de amor.Digo-lhe tudo isto apenas com os olhos

Anamar volta-se e beija-me de leve os lábios.

_És um amor de pessoa… muito querido.

Fico sem saber o que dizer…sou tímido e quando me vejo no centro da atenção apetece-me fugir…inventar uma desculpa, mas não fujo...acredito nela, na certeza dos beijos com que me sela…sinto-a avançar por mim descontraída, carinhosa, inteira…enlaço-a com o meu braço e beijo-lhe os cabelos…os olhos…a girarmos eu e ela num novelo vadio ao sabor do vento…a terra parada…

 

_Acabaste o livro? _ Disse-lhe, como quem acorda dum sonho…

_Acabei…é um livro intenso, de culto pela personagem da mulher, das mulheres todas embutidas na Nany da sua paixão, saída do virtual, deixando-se tomar da paixão dela, ele, um homem velho saudoso da sua juvenilidade, ou da juvenilidade da mulher que é o seu amor de sempre, surpreendido de ser o alvo, o objecto do amor confesso de uma mulher muito mais jovem, bonita, com uma vida confortável, a questionar-se do porquê e do que fazer ao senti-la frágil, ansiosa de o ter como amante.

Anamar fala efusivamente do livro, da substância do livro, percorre as personagens, a dissecá-las à luz da sua própria imagem, tentando entendê-las. Gosto dela...

_E as cenas de sexo, alta madrugada “toquei-me...estou toda molhada...”são cenas que saltam do livro e nos colocam dentro da cena, vivenciando a volúpia projectada, depois, toda a teia perversa que ela engendra para acabar a relação, a intriga em volta dele, fazendo-o acreditar que fora um devaneio da sua própria inconstância, o desprezo com que o foi destruindo até que não representasse mais um perigo para a manutenção do seu estatuto de mulher de bem.

E ele, louco, gritando na cidade, julgando que estava à beira do mar: " Nany, Nany!"

 Tomámos o café na esplanada, Anamar de costas para o mar, em frente dos meus olhos, o recorte do tom laranja avermelhado do vestido ou túnica de tecido leve sobre o azul forte do mar e digo-lhe que nos está a acontecer algo de imprevisto, que a estou a sentir como uma célula que brota de mim para fora e que se inclina para reentrar, num ir e vir diáfano que me atordoa que me faz sorrir. Sussurro-lhe ao ouvido…

_Estou como que numa euforia em que me apetece gritar, soltar gargalhadas intempestivas sem nada que as justifique, adejar sobre nós os dois, os nossos corpos revolvendo-se, como se te conhecesse há séculos, fazer loucuras, beijar-te, mostrar-te o meu corpo...festejar-te a cada momento que me olhes ou me sorrias...

Ouço a sua voz melodiosa, silenciada pelo brilho cativante dos olhos, os lábios que se mexem, se mordem a sentir sensações dela, do interior dela, as mãos num rodopio de gestos que procuram completar as palavras, as pernas que se abrem e fecham, o corpo todo em movimento, um movimento que vem de dentro e de súbito, aquele cheiro antigo, há quanto tempo? O cheiro do interior do sexo, absorvente e digo-lhe.

_Querias dizer alguma coisa? Podiamos fazer um almoço para nós em minha casa...quero saber se cosinhamos bem...

Anamar sorri, toda ela, o rosto, o corpo esbelto, um sorriso franco, abrangente, a inteirar-se do meu convite, a sentir que é o momento que secretamente ansiava, secretamente dela própria e faz uma cara preocupada, uma careta que a torna ainda mais bela...

_Sei que entendes a minha alma…Aceito, mas quero dizer-te que estou no terceiro dia da menstruação.

Dito isto levou os dedos aos lábios e encolheu-se toda na cadeira, como se desse conta que dissera um disparate, se predispusera a ter sexo comigo, se adiantara em relação ao momento.

Tentou reparar ou compor o que podia parecer uma insinuação...

_O que eu quero dizer é que não posso beber vinho...

E riu-se...como se tivesse dado conta que fora pior a emenda que o soneto...

_Se não te incomoda eu adorava ser dentro de ti, menstruada ou não, o meu sexo envolto no teu sangue que se te me purifica, o teu cheiro activo nascido do mais intimo. É isso, a menstruação  altera  o efeito sedutor de mistura com os cheiros da apetência sexual. Torna-os exaltantes a nos sublimarem num absoluto de amor.

A m o – te! Miúda linda...

Ela sorri, levanta-se, beija os meus olhos e sussurra-me

_A m o-te! És-me! De mim!

Ela sorri de novo, a alma em redor, a praia "deserta" num repente. Pego na mão que me aperta o braço e vamos...

 

 III

 

Anamar e eu próprio caminhavamos lado a lado por entre a multidão que entretanto  tinha afluído à praia, da manhã  solarenga quase nada restava...o início da tarde quebrava a frescura da brisa...o sol a pino, a queimar energias dum Estio intenso, indiferentes à chilreada das crianças, aos olhares cobiçosos que nos miravam, que a despiam voluptuosamente, tal a beleza que se elevava do seu corpo, da majestade natural do seu andar, como se saltitasse, leve, os seios dela em turrinhas provocantes no meu braço deixado propositadamente a jeito de receber o encosto, sentia os bicos dos mamilos, salientes, isolados do conjunto mamário, por vezes ela abraçava-me e eu sentia toda a totalidade. Despudoradamente deixei de me preocupar com a saliência do meu sexo sob o calção, apenas o acomodei, ao longo da barriga, para que não fosse uma evidência perturbante...lembro-me quando ia ao baile e o atava com uma guita para que, se eu dançace, ele se mantivese discretamente empertigado e de como tal atitude me valera o epiteto de capado...

 Anamar falava ainda do livro que ambos tínhamos lido e que nos impressionara pelo rigor estético da abordagem aos amores alimentados no silêncio dos corpos, as carências conjugais, as certezas mentidas a si próprios que alimentam as dúvidas. Nany é um romance de interiores.

_Explica-me isso de ser um romance de interiores, como uma arte decorativa da alma? E soltei uma gargalhada.

_Repara, tudo se desenvolve no ecrã do computador, excepto quando se encontram para o envenenar, ela e o amante autêntico, Artur, por quem ela tinha de facto uma paixão real, mandara até emissários para o testar, se ele se interessava dela, se tinha compromissos. Ele apareceu num momento fatídico de exasperação interior dela, do seu eu inconstante, a sonhar devaneios, em desvario, queria sentir a libertação de sensações que se acumularam e aquela personagem, galante, caliente, de palavras cruas e olhar penetrante na alma, encantava-a, como se fosse uma pausa de admiração até que o outro estivesse disponível, se vissem cara a cara, como aconteceu.

O livro mexera com ela, Anamar, senti toda a efervescência do corpo, o brilho dos olhos, os apertos que me dava no braço, os seios dela. Não me perguntara nada de mim...como se soubesse tudo, como se não importasse o que eu tinha sido mas o que ela sentia que eu era, o que eu lhe transmitia nas pausas das palavras...

A casa tinha uma sala ampla com vista de mar e era limpa duas vezes por semana por uma mulher que colaborava na manutenção do espaço e das roupas desde que Adélia morrera.

Adélia era a minha companheira, o grande amor da minha vida e tinham passado 10 anos desde então. Ela disse-me, no estertor da morte que eu arranjaria outra mulher, fez-me prometer-lhe que o faria e eu fiquei este tempo todo à espera de alguém, sem sexo, sem carinhos, sem calor nem frio, eu, ausente em mim, numa parte de mim à espera que a outra parte se decidisse e agora, Anamar, os pés descalços sobre os azulejos luzidios, uma alma transparente de onde eu via um mundo paradisíaco à minha espera... a encher a casa de luz, a cortar o silêncio com a volúpia das palavras breves...quem é esta mulher?

_Tenho uma paixão por lingerie... - Disse ela, naturalmente, no tom suave e quente da sua voz que me soava em melodia.

Eu estava em frente da janela grande, de costas voltadas para o mar...vislumbro as nossas almas na penumbra expectantes... e vejo-a subir subtilmente o vestido,  ou a túnica, as pernas, as coxas, a cuequinha de cor preta com desenhos rendados de flores e cupidos espetando corações.

_São Lotus...

_Hã...Os desenhos...são flores de Lótus e Eros caçando seus amores na magia dos aromas. Gostas?

Os nossos olhos não despregam, rutilantes de uma luz que nos inebriava e conduzia de gesto em gesto, as pulsações dos nossos corações, estávamos tão próximos que eu ouvia o meu e o dela, ou era apenas o dela ou só o meu, toc, toc, toc, uma vontade crescente de a abraçar, de ser em ela, de a sentir inteira e dar-me...

Junto à vulva um relevo que me prendia, o corte perfeito, adequado às suas formas.  Erótica, toda ela na sua simplicidade de mulher, os seios saindo da abertura da túnica, orgulhosamente lascivos... os dedos compridos nas mãos bem cuidadas, os lábios sequiosos, embora húmidos de se morderem. Beijei-a demoradamente, os nossos corpos enleados, a pele electrizante de encontro à minha, um ardor de fogo em toda a volta do corpo, do lado de fora, a senti-la arder, os olhos fechados por momentos, longos, e quando se abrem dizem tanto da luz que emanam, como se dissessem “apaga-me”...

Levanto-a do chão com os meus braços e deito-a no tapete grande que há na sala, com motivos de deusas adejando sobre corpos nus de mancebos pujantes de sensualidade.

Fico assim, por um momento, de joelhos a ver o seu corpo a adensar-se na caixa dos sonhos, ou das imagens que edito num recanto da mente, ela olha-me docemente, estende-me os braços e eu debruço-me sobre os seus pés que beijo com toda a ternura que sinto, perco a noção do espaço, do relevo, do tempo... ela encolhe-se com cócegas, chama-me doido, “seu doido querido” e eu sigo o caminho luxuriante de aromas, beijo as pernas, os joelhos e detenho-me ante os cupidos, os corações vermelhos no fundo preto da cueca, o cheiro que me vem de dentro dela que me inunda de prazer, de desejo, de felicidade e beijo o espaço pudico, a vulva por sobre a cueca, ela aperta-me a cabeça, agarra-se aos meus cabelos, afasta as pernas, o meu nariz rasga em movimentos dúcteis a cavidade da vulva, surgem pontinhos luminosos, gotículas de fluidos que se espraiam da vagina, ela aperta-me mais de encontro ao fogo que me exalta e solta ais sumidos, levanto a cueca, uma nesga lateral, com os dedos afasto os lábios raiados de sangue, a purificação do sangue e absorvo todo aquele odor que se apossa de mim, beijo o clítoris, Anamar puxa-me para cima, ainda me detenho no umbigo, beijo a barriga, as partes laterais do corpo e chego às maminhas, os mamilos evidenciando-se, destacando-se escuros na pele clara e já ela, louca, impaciente, mexe no meu sexo e fá-lo entrar na ânsia que a consome em fogo alucinante, beijamo-nos, as línguas num rodopio de dentro das bocas, revolvendo salivas, sabores de frutos, sinto o meu sexo dentro dela, sinto tudo dela, contracções, espasmos, fluidos que se libertam, de súbito ela atira-me ao tapete e ergue-se sobre mim, metida em mim, sem se soltar, o dorso levantado, deusa imponente, as pernas abertas sobre o meu corpo deitado, os seios balouçando enlouquecidos, os olhos revirados, as minhas mãos nas maminhas dela, os mamilos, os ais dela e os meus, a mistura de sons, de odores e de dentro uma revolução emotiva, absoluta, abrasadora...

Anamar caiu sobre mim, exausta, beijámo-nos e ficamos deitados sem dar conta do tempo, inseridos um no outro.

Ao lado, caído no chão, o livro do nosso desassossego, NANY.

 

Autor: joão raimundo gonçalves (jrg)

 

 

 

 ***

 

O autor:
- (jrg) joão raimundo gonçalves- nasceu no lugar da Costa de Caparica – Trafaria, em 1945.
_Andarilho, foi pescador e outras artes e ofícios...promotor de livros...foi à guerra de África.
-Autodidata de formação...Humanista amante da natureza e de todos os animais que ela acolhe.
-a sua maior riqueza é o amor que recebe e partilha.
-A minha Pátria ou MÁTRIA é a alma humana!
-Aprendiz de viver- escreve versos e textos do interior da alma…do que aprendeu e viveu…do que sonhou e sonha!
-Como pensador acredita na ideia de MÁTRIA, como um sistema de organização humana mais justo e equilibrado, ou o Devir que recupera as origens do homem!
-e-mail: jraimundo.gonalves4@gmail.com
Tem publicado em diversos blogs: 
http://neoabjeccionismo.blogs.sapo.pt 
http://romanesco.blogs.sapo.pt 
http://samueldabo.blogs.sapo.pt 
http://direito-de-resposta.blogspot.com
http://maresiaspoetasportugueses.ning.com/?xgi=33hhlK5pz8oaNf
Publicações em livro: 
-Fragrâncias de Luz…poema com o mesmo título, à laia de prefácio-Fevereiro 2012
-Participação na Colectânea “Poetar Contemporâneo”vol II – edições vieira da silva-Maio 2012
-Participação na colectânea “Corda Bamba” – edição Pastelaria Estudios Editora-Junho 2012
-Participação na colectânea “Ocultos Buracos” – edição Pastelaria Estudios Editora-Outubro 2012
-Participação na colectânea "Beijos de Bicos"...Histórias de Amor - edição Pastelaria Estudios Editora-2013
-Participação na Antologia Voar na Poesia-edição Voar na Poesia-Março 2013
-Poemas de Amor e Guerra em coautoria com a poetisa Zélia Chamusca, no livro A Mensagem-Podemos Mudar o Mundo-edição de Chiado Editora-Maio 2013
Publicações Áudio:
-Participação no programa Dizer Poesia-RDP Internacional-por Isabel Branco 
.......
sinto-me: bem
música: Jorge Palma
publicado por romanesco às 11:40
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Sábado, 16 de Fevereiro De 2013

QUADRAS PENDENTES





**
QUADRAS
PENDENTES
**
água ardente
luar de lua
alma nascente
figura nua
*
vento nordeste
curtidor
seco gélido agreste
verga flor
*
terra argilosa
barrenta
mulher amorosa
vida sangrenta
*
fogo fertilizante
cinza solar
amor humanizante
corrente de ar
*
poder tempo cósmico
razão que se solta
liberdade grito afónico
d'alma em revolta
*
aura d'esperança
alegremente
só risos de criança
dão semente
*
que o mar espalha
se náufraga
o humanismo encalha
na deriva sôfrega
*
tempestade ciclónica
amarra partida
vacuidade histórica
sem volta nem ida
*
arde sobre o medo
vulcanizado
não há mais segredo
de fogo cruzado
*
sopra brisa amena
doce e fresca
aviva o fogo acena
à vida burlesca
*
antro dos ladrões
covil de hienas
abutres vampiros leões
vestidos de penas
*
força de mulher mãe
mátria de amor
feliz ser que se mantém
acima da dor
autor:jrg
sinto-me: enamorado
música: Jorge Palma
publicado por romanesco às 18:28
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Quinta-feira, 14 de Fevereiro De 2013

REVOLUÇÃO

foto pública tirada da net

*
REVOLUÇÃO
***
cansado de viver sem beira
ocupei um monte ermo
junto às águas dum ribeiro
já o sol varria a eira
lancei sementes sem termo
despedi-me do rendeiro
*
de barraco fiz abrigo
roubei galinhas deu pintos
dispus flores legumes
a pensar nos meus amigos
guardei brancos e tintos
para acender outros lumes
*
cuidei das árvores de fruto
aceitei cabras leitões
troquei favos por saladas
não mais vesti de luto
nem nos poemas as lesões
mancharam alvoradas
*
tão velho mas perseguido
por governo de ladrões
moído de terror indignação
rejuvenesci combalido
salvei alma perdi milhões
ganhei paz no coração
*
construi meu mundo novo
sob governo do tempo
que não m'onera d'impostos
sou eu poder eu povo
sem medo à chuva ao vento
livre de tais desgostos
*
jrg
sinto-me: à deriva
música: Os Vampiros - Zeca Afonso
publicado por romanesco às 23:47
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Terça-feira, 29 de Janeiro De 2013

EIXO MALDITO


**

EIXO MALDITO
***
quero ser
eixo do mal
em contraciclo
com o bem
em movimento
brincar
com as palavras
e rir gosar
com os tiranos
a tirania
e os incrédulos
*
quero estar
ao palato colado
sentir o bafo
das palavras malditas
eixo maligno
atiradas ao pantano
onde os bandidos
a soldo de todos os soldos
são lidos
postos a nu descartados
mas resistem
*
quero jogar
ao eixo rebaldeixo
a chiar
com o dedo apontado
à ladroagem
entre flores a roubar
impunes
às regras da sorte
que anulam
com o devido silêncio
a rondar
*
quero sonhar
com Primaveras
sorrir
da história triste
dos putos
à volta das reformas
miudezas de velhos
escabroso confisco
que envergonha
o sol espantado
de tamanha rasia
*
quero parecer
que sou o meu medo
impotente
pegado na baba
cobiçosa
dos criminosos
dum tal poder
que me matam de fome
me torturam
a alma com sede
de viver
jrg

sinto-me: revoltado
música: Os Vampiros - Zeca Afonso
publicado por romanesco às 16:55
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Segunda-feira, 14 de Janeiro De 2013

A ESTRELINHA CINTILANTE...

foto: pastelaria estúdios editora
**

A ESTRELINHA CINTILANTE …

***

Para a virgínia com amor

*

_Mãeeee…

A voz acordara, talvez, um rato que agora deambulava no forro do teto de madeira, com sede ou fome, a ver se havia algum resquício de comida no vão do esconso…ecoou no silêncio da casa térrea de um só piso com sotão…atravessou fendas na porta do quarto contiguo…comprimida na exiguidade do espaço, soou metálica…lúgubre…a aninhar-se na porosidade das paredes caiadas de fresco…

 A mãe, cansada por um dia penoso de trabalho na fábrica do peixe, dormia profundamente, mas com a insistência do chamado acordou estremunhada…

_O que foi rapariga?dorme!

_É aquela coisa…a estrela brilhante…

_Dorme!...

Estranhamente, a visão da estrela tão pequenina, esplendorosa de tantas cores rutilantes, onde o azul-cobalto sobressaía, saltando do chão ao teto e vice-versa, ou do chão até à altura do seu nariz, deitada do lado da cama virado para a porta, fascinada pelo evento mágico desta visão, não a perturbava, antes sentia um estado de serena euforia que o adormecimento dos sentidos viria a acalmar, mas queria que a mãe a visse, lha explicasse ou projectasse na sua imaginação…que estabelecesse um fio de ligação à realidade…

Diziam as velhas que a menina tinha dons de vidência e que seria conveniente levá-la a alguém que entendesse desses mistérios, mas a mãe recusava, temerosa, de levantar ventos, raios e coriscos na sua vida já de si tão desgraçada. Só lhe faltava ter uma vidente em casa!…

Cristina foi crescendo nestes segredos, porque havia mais…, vozes que a chamavam pelo nome, laços desfeitos da bata escolar, sem ninguém por perto… aparições de pessoas já mortas que mal conhecera e a intuição de fazer o que não queria, sempre do mesmo jeito, brincando com a má catadura dos outros.

*

Casou, teve filhos e não mais viu a estrelinha cintilante, nem vozes que a chamavam de longe, mas sentia intuições que se manifestavam ora negativa ora positivamente. Aconteceu, por altura da sua segunda gravidez, sentir a evidência que estava grávida, quando o parecer dos médicos era no sentido contrário…que a haver estaria fora do lugar…os testes davam negativos…

Foi na discussão da dúvida sobre essa novidade que chegaram à conclusão que padecia duma peritonite aguda e tinha de ser operada de urgência…no hospital pensava que ia morrer…pressentia que ia morrer, e nada a angustiava mais, nem a dor aguda quase insuportável, do que pensar no filho ainda pequeno…mas submeteu-se à operação de urgência, por esse filho que já tinha e pelo outro que sabia estar a evoluir dentro do seu ventre.

A sala de operações, despida de ornamentações inúteis, na sua alvura arrepiante, tinha um ambiente de risco que os médicos procuravam disfarçar, ora brincando com ela e os seus temores, ora desvalorizando a importância da intervenção que iam fazer. Cristina, deitada na cama sob um lampião redondo, enorme, cuja luz feria o olhar fugaz que lhe dirigia, refugiava-se na sombra dos recantos… ia dizendo que não queria morrer, pelos filhos, sobretudo pelos filhos e que tivessem cuidado com este que ela sabia em gestação…depois nada…um vácuo imenso…nada…

*

Por um momento, Cristina, achou que estava morta…encolhida a um canto do teto, como se fora a sua alma, do lado de fora do corpo, olhando-se, estendida na cama de ferro branca, os braços atados e as pernas…assistira à extracção da tripa infectada…agora estava ali, expectante na transparência do seu estado…perto do seu corpo, um homem sentado, vestido de verde, olhava o sítio onde ela estava, também ele, franzindo a testa com ar preocupado ou de impaciência… Cristina fixou-se no seu corpo…nas pálpebras cerradas, no tom amarelado da pele e sentiu uma angústia substantiva ao lembrar-se do filho, algures no útero…teria morrido? Ele? Eu? Os dois?

_ Espera, mas aquele corpo sou eu…quem sou aqui de onde me vejo? Ah, lá está a estrelinha saltitando…há anos que a não via…divide-me…no explendor da sua luz que me fere o olhar…e pensa-me, de tal modo que me aflige uma enorme vontade de voltar…sim quero voltar para o meu filho…zás…a estrelinha desapareceu…mas voltou logo de seguida para junto do corpo…saltitando sempre…cintilando…emitindo aquele som suave e harmonioso…como se fora de longe…de muito longe…depois desapareceu como viera.

Abriu os olhos, agitou o corpo, estremeceu, como se uma força exterior nela irrompesse desabridamente…olhou a figura da pessoa sentada, agora um pouco mais distante que suspirou de alívio ao vê-la despertar…já dera por ela antes…quando suspensa do teto se admirava de si mesma…

_Estava a ver que não jantava! A Cristina demorou a acordar…

_Onde estou? O que faço aqui atada de pés e mãos? Que aconteceu? O meu filho?

As palavras saiam-lhe num turbilhão, dentro do mesmo fôlego, criando uma atmosfera de ansiedade, confusa nos pensamentos de antes e agora…teria morrido mesmo, ainda que por momentos? Porque se refugiara a sua alma num canto do teto? Porque voltara a estrelinha saltitante? Estava viva ou morta? Quem era aquele homem que a esperava?

O homem era o anestesista…dada a urgência da operação não fora possível a prática de alguns preceitos que ocorrem quando o procedimento é marcado com tempo…há sempre um risco de exagero na dose ministrada, ou a má recepção do organismo…o acaso…um acidente…

_Está tudo bem! – Ouviu a voz do homem dizer – tinha razão, está grávida e o seu menino, porque é um rapaz, está bem…a operação correu maravilhosamente…agora é a hora de se recompor…Espere lá…como sabe que está atada de pés e mãos? - Disse, enquanto a soltava…

_Eu vi ali de cima…vi tudo o que me fizeram, ou quase tudo, não fora a estrelinha que me distraiu…atarem-me…o corte…os vossos rostos preocupados…

Ele olhou-a abismado, sem entender…

_ É da anestesia, sabe, às vezes provoca delírios passageiros…agora já posso ir jantar…

Ficou contente por voltar a ver a estrelinha saltitante, pela segurança que lhe transmitia, por ouvir aquele zumbido ténue que ela emitia ao saltar, tão volátil que parecia embutido no ar e adormeceu…

*

Cristina era uma mãe possessiva, alegre, confiante e destemida, capaz de tudo, mesmo tudo, para salvaguardar o bem-estar dum filho…com os anos habituou-se a considerar a estrelinha cintilante, como uma manifestação protectora vinda do céu…um fenómeno do cosmos…qualquer coisa fantástica que lhe aparecia para a proteger, nem ela sabia bem de quê…uma aparição, espécie de magia, que a reconfortava e revigorava, sempre que, em adulta, o seu pensamento trilhava caminhos desconhecidos…

Terá sido assim quando “morreu”…a noite tempestuosa soltava uivos do vento que soprava de Sul…a chuva tilintava nas vidraças…chiavam os ramos das árvores e a água cantante nas caleiras do esgoto…viu-se deitada na urna, a tampa aberta, metade para cada lado, o cetim branco do leito onde o seu rosto sereno sobressaía, azulado…o vestido que idealizara e mandara guardar para a ocasião…as flores…tantas flores…

_Quando morrer, veste-me aquele vestido…- viu-se a si própria, magra, esbelta, no desenho da roupa sobre o corpo…morta!... do lado de fora, junto dos filhos e do marido, rodeando o caixão, consternados ante a evidência do seu desaparecimento físico…tocava-lhes, mas eles não a sentiam…curiosamente era a única que não chorava a sua própria morte…como se não acreditasse e aquele corpo fosse um outro espaço de si…nessa noite a estrelinha cintilante apareceu de uma forma diferente, algo estranha…saía de uma abertura subtil dos seus lábios descorados, dando-lhes cor…saltava dos lábios para o chão e voltava a entrar…parecia-lhe que só ela a via e queria tanto que eles a vissem para perceber que não era sonho, nem uma visão estereotipada de cunho divino...mas eles choravam e ela entre eles se estranhando no vai e vem da estrelinha cintilante…saltitando.

Quando acordou, teve a sensação de ter sonhado…as imagens passaram com exactidão na sua mente…apalpou as pernas, os braços, o corpo, a sentir-se viva…mordeu os lábios sem sentir a dor…apenas uma pressão nos olhos que permaneciam fechados, apesar do esforço que fazia para os abrir…quis gritar, mas não ouviu qualquer som…e era como se não respirasse…de súbito, a estrelinha cintilante, como uma criança rabina, divertida com a cena da morte projectada, atravessou-se na luz reflectida por um hiato do tempo…do azul-cobalto, no eixo central de onde saíam as pontas irizadas de mil cores, uma voz gelatinosa e doce…

_ Nasceste para sofrer, Cris, e ser feliz…só vais morrer no dia X…do mês Y….do ano Z… eles contaminaram quimicamente o teu filho…vais sofrer e desejar tantas vezes a morte…mas tal não acontecerá…ainda criarás uma menina a MÁTRIA…

Aqui o som tornou-se sussurrante, difuso, ininteligível, só perceptível a ela…que sentiu cada palavra como uma faca que a golpeasse a cada número que a pre-datava para morrer…

Despertou, agora sim, correu a casa toda a ver se era verdade…as crianças dormiam…o sol despontava sobre a falésia…olhou os campos floridos e os pássaros em alegre corropio…namoradeiros…geara de noite e uma camada fina de orvalho reluzia nas ervas rasteiras à luz matinal do sol …

_ E esta agora?! Como vou eu viver com esta informação? Acredito e procuro esquecer o que ouvi? Ou pura e simplesmente esqueço que vivi este pesadelo? Mas a data ali estava na memória viva…como um ferrete…a ser verdade faltavam uns anos largos… como se pode ser feliz sofrendo? O que estaria para acontecer ao meu filho? O que é a MÁTRIA?…Que menina?

*

A estrelinha cintilante tornou-se um mistério, quase uma obsessão, que ela agora queria desvendar…leu livros sobre fenómenos paranormais…sobre parapsicologia espiritismo…visitou bruxas, bruxos, mediuns e videntes, consultou astrólogos…padres…físicos e alquimistas…mas nada do que lhe disseram acalmou o seu interesse de saber e como não queria colocar a questão no âmbito de um qualquer mistério divinico, simplesmente sem explicação…partia do nada…se a sua natureza era humana, já lhe bastavam os complexos enredos de que se compunha a existência, decidiu por isso seguir a sua intuição…deixar passar o tempo até que uma luz se libertasse de dentro da sua alma…

Mas o tempo não lhe dava descanso…o filho mais novo foi arrastado pelas máfias da droga…foram dias e noites de angústia galopante…desceu aos abismos do não ser…

_Tão lindo, o meu filho…não mo hão-de levar…

A fome, o desespero, a carência dum abrigo…as caminhadas aos antros da desgraça, para o trazer de rastos…aguentar firme…solitária no deserto das leis insensiveis…mãe corajem…absoluta…perante os cobradores de dívidas, sem escrúpulos…perante a morosidade dos serviços hipócritas de apoio…perante a incompreensão de familiares e amigos…fez dívidas…vendeu tudo…trafulhou…mentiu…enganou…e na fronteira da indignidade, porque não há perda maior para uma mãe que um filho, acreditou que ambos venceriam…alimentou-o com amor, sempre que lúcido ele voltava…arranjou-o…cantou-lhe as virtudes da vida simples…desmistificou-lhe o medo de enfrentar a complexidade de viver…deu-se toda como exemplo de vencer…foram anos de não ser…mais de vinte,tentou a morte, mas não teve coragem…havia de ser capaz…e foi!

*

A Noite Outonal, aquecida por estranha estiagem, secava-lhe os lábios, apesar do seu constante irrigamento labial, a aragem e a ansiedade…noite escura de breu, com a Lua na sua fase de nova…todo o dia ouvira falar dum fenómeno recorrente que aconteceria hoje mesmo, pela madrugada dentro…uma chuva de estrelas cadentes…ou lá o que era, fenómeno de rara beleza nem sempre possível de observar… o seu sexto sentido impelia a sua vontade…estava alegre…uma atmosfera limpida e leve envolvia-a duma mágica quietude…ao cair da noite pôs-se ao caminho, decidida à derradeira tentativa para encontrar uma resposta…sim, seria a última vez que procurava desvendar o mistério da estrelinha saltitante…

O carreiro de terra batida que levava à praia era ladeado de árvores de pequeno e de grande porte, eucaliptos, pinheiros e acácias que exalavam aromas entrelaçados…os ramos, sobressaindo da densidade nocturna, pareciam figuras fantasmagóricas…ouvia estalidos, como se alguém pisasse ramos ressequidos…pios de mocho ou coruja…o bater das asas de aves em desequilíbrio…vultos confusos na humidade dos seus olhos…mosquitos…e um pesado silêncio, como se a todo o momento desabasse um cataclismo imprevisto…ou um assaltante desesperado…

Arfava do movimento dos pés e da mente…julgou ouvir vozes…o coração mantinha o batimento acelerado…os arbustos de formas bizarras, pareciam mover-se…em contra-mão…

_Que loucura…- pensava…

_ tantas vezes percorri estes matos à procura do meu filho…

Quando chegou à clareira da praia, respirou profundamente…havia uma ténue claridade provocada pelo brilho das estrelas na negritude sem nuvens…o mar de uma calmaria extasiante, quase se confundindo com o teto do mundo…não muito longe, uma luz tremelicava…pescadores, pensou…sentou-se no pico da duna mais alta, entre cardos e xorões…parecia uma deusa em meditação e foi sentindo a paz se interiorizando dentro do seu corpo…os olhos fixos no céu…leve…uma sensação anestesiante…quando de súbito, como neve caindo de mansinho, milhares de pontos luminosos, desciam do abismo celeste, parecendo vagalumes, irrompendo na atmosfera, silenciosamente…multicoloridos lixos cósmicos, ou restos de desperdícios invasivos, cometas, pedaços de estrelas, faulhas de luzes, de mistura com a sensibilidade dos seus olhos, num êxtase da alma…

O espectáculo maravilhoso absorvia todos os seus sentidos…nem dera que fora seguida…um vulto medonho de pessoa, curvado sobre o corpo enorme, observava a cena a poucos metros, entre arbustros e cardos humedecidos pelo orvalho

Ergueu-se, figura imponente no recorte sombrio, e desceu a duna, deslizando sobre a areia movediça, macia e fria…correu pelo espaço deixado livre na baixa-mar…pensando em nada…nada…nada, mas algo a fez voltar a cabeça para trás e viu que era seguida por uma figura asquerosa…via-lhe a baba na comissura dos lábios…os olhos faiscando no reflexo das estrelas…os cabelos desgrenhados…

Cristina sentiu um impulso de repulsa, não era medo, mas a tensão do desafio, de ser ou não capaz …entrou pelo mar rasteiro em direcção aonde as estrelas caíam…olhou para trás e viu que o vulto parara…gesticulava…berrava palavras nada inteligíveis…depois deixou de o ver…

O mar, embora calmo, tinha locais onde as correntes se encontravam, formando agueiros ou remoinhos na água, centrifugadores de objectos ou de pessoas que neles caíssem…sem se aperceber Cristina abeirou-se perigosamente dum agueiro, enquanto boiava…sentiu a força pressionante…atraindo-a e debateu-se, instintivamente, mas não saía de onde estava…nadava…invocando toda a força da sua alma…em volta, os pontos luminosos perdiam intensidade…por um momento pensou abandonar-se…deixar-se ir…mexia os pés,os braços, as mãos, estava quase e logo voltava a ser puxada para o abismo…nem um grito, ou muitos, silenciosos que ecoavam na paz da noite que pouco a pouco voltava à sua quietude…bebeu água e sal…os olhos a toldarem-se e pensou nos filhos…no filho que se recuperava…de súbito viu a mão estendida…tão luminosa e transparente…um chão firme que se abria à sua frente…evocou a força maior das suas profundezas, agarrou-se na emoção de ser capaz, agarrou-se a nada…o que sentia era uma impulsão de todo o ser em simultâneo… soltou-se das amarras da corrente…nadou para terra, exausta, e deitou-se na beira, onde a água a vinha beijar com ternura…esquecida de ao que viera, da figura horripilante que a perseguira…da estrelinha cintilante…de si…esteve ali deitada sem dar pelo tempo que já amanhecia…

*

Cristina não sabia se dormira ou se desmaiara, quando voltou a si já a maré enchia de novo e lhe cobria parte do corpo...sentiu um arrepio de frio…levantou a cabeça e espreitou a densa neblina que se pusera…a poucos metros, um volume escuro, inerte, que a água ia arrastando a cada enchio…levantou-se, trôpega, dorida nos tendões que a punham em movimento…abeirou-se…era o corpo duma pessoa…medonho…voltou costas e saíu dali apressadamente…

Sentou-se na base das dunas a recobrar as forças, as mãos segurando a cabeça entre os joelhos…sentiu um calor repentino e reparou que as suas roupas estavam secas…

_ Como é possível?

Na semi-escuridão, do lusco-fusco da madrugada, a estrelinha ainda cintilava…percorria em arcos a distância do mar até onde ela estava…

_Porque fizeste esta loucura? A vida, toda a vida é sendo…não adianta conhecer o devir…nada é constante…tudo é mutável…o ser é… constrói-se…sendo… interagindo com as hipóteses que se vão colocando…

Cristina sentiu aquela paz interior que a invadia de uma alegria subtil, sempre que o desânimo a assaltava…os olhos fixos na estrela cintilante que à sua frente saltitava e de onde saíam sons inteligíveis que se transformavam em palavras…tão doces…tão fáceis de entender na sua complexidade…

_Os humanos são sementes cósmicas, como todos os elementos vivos no espaço Terrestre…por uma razão de degenerescência química, desenvolveram a ideia que eram superiores a todos os outros…é falso…havia um equilíbrio que permitia a existência de tudo e do todo em conflituosa mas sã harmonia…os humanos destruiram o equilíbrio…inventaram os deuses para darem cobertura à sua ambição de domínio…o seu medo dos medos…subjugaram as mulheres que lhes deram origem…para ocultarem a sua fragilidade…destruiram a sabedoria para que melhor vingasse a sua mediocridade…cada ser humano tem um ponto lumioso como eu…uma fonte molecular de energia…poucos, como tu, tiveram a veleidade de ir até ao fim…por isso te revelo o que te revelei, mas digo-te: não procures mais…vive de acordo com a tua intuição…a cada dia te acontecendo…

*

A estrelinha, ditas estas palavras desapareceu, quase em simultâneo com o clarear do dia…Cristina deixou-se ficar um pouco mais, saboreando cada palavra…interligando os sentidos com a realidade subterrânea, de onde pouco a pouco emergia…

_Espera e a MÁTRIA…o que…quem é?

Olhou em frente, o mar agitado pela brisa do amanhecer, a neblina esfumando-se rasgada pelos raios esplendorosos do sol…o corpo mostrengo desaparecera da borda-d’água…ergueu-se de um salto…e retomou o retorno a casa…de caminho comprou pão…para que tudo parecesse igual a todos os dias…

 

Autor: joão raimundo gonçalves (jrg)

 

In "OCULTOS BURACOS" Colectânea de Pastelaria Estúdios Editora

 

 


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Domingo, 30 de Dezembro De 2012

SOU REFORMADO RICO GANHEI DEMAIS !!!


foto pública tirada da net
***
SOU REFORMADO RICO
GANHEI DEMAIS !!!
***
quando eu nasci de mim
os deuses olharam-me de soslaio
mediram o tempo na ampulheta
e decidiram por unânime frenesim
que não me tornariam lacaio
nem a ferros me prendiam à grilheta
*
segui humildemente
encosta acima como Sísifo condenado
não de lacaio mas de jumento
a carregar um fardo enxuto de semente
perdendo os créditos se cansado
se me esforçasse garantiam um aumento
*
subi por minha conta e risco
a confiar que o pacto divino era sagrado
que ao chegar ao cimo da estopada
nenhum ladrão ou deus sequer o fisco
me cortariam o casco sendo roubado
por não poder ir mais além velho e cansado
*
dei coices espinoteei
fiz queixa mas fui alvo do riso da chacota
trabalhei muito ganhei demais
o erro foi de quem me pagou fora da lei
se pobre não ganhava pr'á palhota
como fora eu capaz de ganhos tantos de tais
*
fui ver e era tão pouco 
mal chegava tiradas as taxas e penhoras
mais os aumentos abrangentes
para ser por um só mês o tipo louco
de pagar rendas a horas
e comer todos os dias refeições quentes
*
decidi não saudar o ano novo
tanto se me dá que seja bom ou seja mau
tão pior que ser um pobre rico
é a pilhagem que o poder faz ao povo
que em cada mão renasça o pau
que há-de correr sem medo o mafarrico
autor: jrg
sinto-me: reformado
música: Os Vampiros - Zeca Afonso
publicado por romanesco às 23:23
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Quarta-feira, 17 de Outubro De 2012

MATRIZ !


Natália Correia por Bual
*
MATRIZ
*
mulher 
de pés descalços
tão menina
pegadas do amanhecer
desfazendo laços
que espreitam em cada esquina
do meu viver
*
MÁTRIA
mãe de toda a criatura
saindo da bruma
onde a história se fez PÁTRIA
renasce pura
e no olhar duma criança apruma
a nova era PÁRIA
*
fêmea sedutora
atractiva dos prazeres sensuais
deixando marcas de cio
na paisagem tão enganadora
onde vingam os chacais
afasta os abutres que bebem do teu rio
sê pura e ganhadora
*
jrg
sinto-me: Matriarcal
música: Teresa Salgueiro
publicado por romanesco às 19:16
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Quinta-feira, 11 de Outubro De 2012

GALERIA DE MULHERES COM POEMAS DENTRO ! * Isabel Branco *



isabel branco

***

GALERIA DE MULHERES

COM POEMAS DENTRO !

*


* Isabel Branco *


*

as palavras rasgam na saudade

o dom de dizer a poesia

saem ladinas correndo de dentro dela

dão forma ao poema claridade

transcendem o mito o mistério a fantasia

cintilam d'Àfrica como uma estrela

que iluminasse todas as almas da cidade

*

"nasci na terra ao longe de Lobito

de uma família inteira

e por lá fiquei eterna adolescente

é esse o tempo que sou em cada dito

nasci mulher poema tecedeira

das emoções que me vestem docemente

quando no silêncio sou um grito"

*

afina os tons da voz  e diz

da alma do poeta cada verso

como quem afaga a pele curtida do tambor

estremece pausa flor de lis 

alonga a vista sobre o desejo imerso

mãe das palavras com amor

que acorrem aos ouvidos do país

*

"Sou o sol que me arde nos cabelos...

o grito da fera ferida na anhara angolana...

o mar que se espraia e por mim chama...

a flaminga restinga...e seus apelos...

Ah! Sou aquela...que chora, ri e também ama..."

IB

*

os seus olhos espelham tanta pureza

que no seu sorriso nos quer dizer

catar por onde houver a alma profunda

de quem escreve e sente a natureza

ei-la de antes quebrar que deixar torcer

adejando sobre a ideia que a inunda

feita da alegria extasiante que lhe dá beleza

*

"sou aquela que diz o seu sentir

que se realiza na aventura da descoberta

onde houver um poeta ou poetisa

ou um poema sem nome para existir

quero dizê-lo com a alma aberta

mostrar ao mundo esta gente que em verso avisa

só o amor trará a paz para sorrir"

*

olho na mulher o poema dentro

que irradia a beleza dos mistérios africanos

sentada diz poesia que a sua alma sente

ela que escreve poemas com amor ao centro

que partilha seus valores humanos

ela que nos pede em troca e tão somente

que usemos a poesia como um ceptro

*

"porque sou a que diz a poesia

de todo o que para mim sinto como talento

não quero vivas nem honrarias

deixem-me viver plena a minha fantasia

sou mulher e se sou poema tento

cantar do Lobito o mar o porto as correrias

e de Catumbela a terra de maresia"

*

é um encanto a voz saindo do poema

com rosto iluminado de mulher

ecos da memória humana

voz que se abre livre de qualquer algema

que rasga trevas ao amanhecer

eu canto para si Isabel (de) branco sobre a savana

meu hino à liberdade como tema


autor: jrg
sinto-me:
música: Batuques Africanos
publicado por romanesco às 21:45
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DIZER POESIA - JOÃO RAIMUNDO GONÇALVES...por ISABEL BRANCO


*
E SE DE REPENTE

 

ME FECHASSE PARA BALANÇO?

 ***


de repente

 

enquanto à volta os meus passos
movimentam
tudo o que em mim é movimento
acho-me a pensar
que não tenho mais nada a dizer
depois do que disse
de tanto dito que li em meu redor
já só me falta não ser
na imensidão do mar eu abismo
sem sol nem luar
*
de repente
um desejo impetuoso de parar
ficar quieto
como uma maioria absoluta
a definhar
olhando sem ver o louco a louca
vicejando ao alvorecer
em cada esquina da vida a decantar
aforismos poemas
e causas tremendas horríveis
a doer-me de amar
*
de repente
tudo o que disse me soa a nada
vácuo vão inútil
de tanto pensar ensandeci de amor
pedra pesada
que não chega ao cimo da montanha
a meio descamba
e arrasta o que me resta de ter sido
coragem esperança
com a memória ainda em sangue
tão desventrada
*
de repente
não tenho deus nem pátria
nem família ou amigos
pés ou mãos que me aconcheguem
todos me calam
na profundidade de absurdos segredos
e se escudam
na promiscuidade da minha evidência
árida estéril imbecil
a propagar que já não tenho medos
para onde fugir
*
de repente
se um doce veneno uma picada indolor
um terramoto uma avalanche
de ideias consecutivas me acudissem
sem ter que perder
nem explicar-me a decisão de sair
de não mais dizer
que abomino o clamor deste silêncio
de onde teimo gritar
aos meus próprios passos que me sitiam
a alma surpreendida
*
de repente
uma vontade indomável de apagar
o que me identifica
lunático a acreditar na falsa esperança
que amar é dor que amor alcança
e a não querer ver a materialização fatal
que me e nos condena
à servil condição de sonhadores
de criar sonhos especular
sabendo de antemão que não vale mais a pena
viver nesta agonia a adiar
*
de repente
desligo o botão que me liga à máquina
e permito que o meu silêncio
seja também ele um grito fantástico
a ecoar nas almas em espertina
ninguém dará por nada tão de súbito
como a luz que se apaga
fica ainda a claridade do apagão a confundir-nos
sinto a leveza da queda
neste abismo que é o não ser em absoluto
depois volto à normalidade de viver
**
como se nada tivesse acontecido!!!

 


 

autor: jrg

***


REGURGITAR AMOR...


**
Imagino a gruta
para onde te levo
sob a falésia os arbustos
o aroma das urzes
onde te rimo com mar
e o mar de tanto amar
tão teu e meu a dor
*
lembro o sonho
de amantes sem segredos
enrolados nos corpos
possessos de beijos
para diversão das almas
que sabiam
da efemeridade dos medos
*
evoco da memória
que havia escondido no sonho
um pesadelo activado
porque amavas demais
um outro que em mim achavas
tão parecido ou crente a jeito
no sonho feito segredo
*
recordo o meu o teu
desinquietado desassossego
por onde desvairados
nos amamos sem pudor os corpos
por entre manchas de ternura
lágrimas compulsivas
de sal e mel te escorriam
*
regurgito onde te memorizo
o grito o gesto subil o cheiro
as palavras que disseste
de amor sentido meu degredo
e da vontade que é partir
ao teu e meu encontro
dizer-te que não tenhas medo
*
autor: JRG

sinto-me:
música: batuques de África
publicado por romanesco às 17:33
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