"NANY"

 

foto Pastelaria Studios Editora

***

N A N Y

 

 

I

 

É Verão de novo, desde há dez anos que me é indiferente o tempo que faz… o sol quente a meio da manhã, espalhando raios sobre o mar manso de vento e de maresia, tostando corpos acariciando amantes. Brisa ainda fresca a tocar-me as faces. Água límpida junto à praia, vejo as conchas, a areia de cor acastanhada, húmida, até ao vinco deixado pela maré, os corpos luzidios de homens, mulheres e de crianças que se banham próximo de onde me encontro e vejo os meus pés horrendos que se movem imersos, o dedo do meio sobreposto, os joanetes de cada um dos lados de cada um dos pés, a areia macia, sussurro de vozes num alarido abafado pelos ecos do mar. As minhas pernas cortando as águas como a quilha dum barco impelido por remos.

Gosto das esplanadas junto ao mar, mirar vultos de pessoas, adivinhar as almas em volta de cada um, de como se conluiam manhosamente na alegria dos dias de descanso, ou de como se provocam, expondo-se numa aparente sensualidade descuidada. O ardil das conquistas, os beijos e os olhos que se espraiam em volta, os sorrisos encantadores e os de circunstância, sorrisos tímidos, desconfiados, ou cínicos, ordinários, de gente que se mascara para se misturar com os de pureza da alma, descontraídos. Tento descortinar uns dos outros, através dos sorrisos, dos olhos que espelham com nitidez o carácter, ou das palavras que dizem...

Gosto das transparências, em vestidos soltos ou saias, de mulheres que usam a praia não para banhos, mas como um local de lazer momentâneo, ou de encontro consigo, ou algo diferente que as faça sobressair por momentos da apatia em que mergulharam o ser, ou ainda uma procura de encontros fortuitos, uma exposição de si, do que acham belo de si, do que sentem e ambicionam ser possível surgir por um acaso, de entre tanta beleza de sol, gente e mar.

Procuro um lugar sombrio na esplanada cheia. Um casal que se levanta, mesmo a tempo, pouso o livro que ando a ler "NANY" de um autor ainda desconhecido mas promissor  que relata uma história, às vezes sórdida, outras pungente, duma relação de amor, através da net, sórdida porque esbarra em concepções de baixo nível para ter um desfecho abrupto que deixa uma das personagens em estado de choque emocional, mas pungente a raiar o sublime da narrativa, pela dor que envolve os intervenientes quando evitam falar dos sujeitos passivos que dormem tão perto, quando os coloca na posição de infidelidade que ambos recusam porque se encontram distantes...falam de amor, amam-se, mas não se tocam, não se transpiram na pele um do outro...mesmo se vão fazer amor com o parceiro de lei, induzidos pelos preliminares actos que praticaram no computador...a pensarem nas palavras do outro...como zombies de si próprios...amor! Estou absorto neste e outros pensamentos que se entrecruzam, rebeldes, com os olhares que lanço aos corpos estendidos sobre toalhas garridas, e outros que regressam do banho, gotículas de água escorregando pelos braços, os cabelos colados, os olhos, os biquínis metidos nas cavidades pudicas, demoro os olhos no volume das vulvas a adivinhar se é inchaço dos lábios externos ou um penso higiénico por motivo de arreliador período menstrual.

E de repente os nossos olhos cruzam-se e fixam-se, como se um poderoso íman os traísse, eu e ela, uma imagem muito linda, doentiamente linda na simplicidade que a envolvia, nas características do rosto oval, os lábios carnudos, levemente rosados, os olhos negros, a pele acetinada, os cabelos de um preto profundo e exaltante de sedução, os seios sobressaindo da blusa vermelha, livres, proporcionais ao corpo de estatura média, nem muito magra nem cheia, a saia curta, branca de tecido transparente, as cuecas de renda, provocantemente explicitas quando o tecido se colava ao corpo, por acção da brisa ou dos movimentos que ela fazia com o corpo e a luz do sol esbatia nela e na sua evidência feminina.

Estremeci, ela desviou os olhos por momentos e pude apreciá-la com mais ousadia, doía-me a alma, de dentro do peito, as frontes latejantes, de tanta beleza épica, como numa paisagem idílica, um pormenor em destaque porque mais belo e depois… voltou, agora de soslaio, olhar oblíquo, estranheza no rosto ou dúvida. Inquieta de mim, pensei, ou de me sentir a indecisão, a prisão da voz que queria dizer-lhe uma trivialidade, talvez. E disse-lhe, soerguendo-me da cadeira:

_Bom dia…procura uma mesa, ou espera alguém...?

_Bom dia, sim, mas isto está tudo muito cheio, eu espero, não se incomode...obrigada.

Disse as palavras sorrindo, todo o rosto iluminado dum sorriso absoluto de evidente naturalidade, a voz suave e quente, docemente quente, aveludada. Insisti ao sentir a empatia:

_Podemos partilhar a mesa onde estou, pode voltar-me as costas como se estivesse longe, não a olharei menos do que se estivesse num lugar distante, ou podemos conversar porque a sinto tão rica de conhecimentos...

O sorriso dela abriu-se numa gargalhada cristalina, os dentes perfeitos e sãos, pude sentir-lhe aromas que vinham de dentro, frutos maduros, aglutinantes.

_Está bem, aceito, até porque estou aflita para ir a um WC, penso que haverá um, por aqui...

Olhámos ambos em volta, a ver se havia_ Sim, dissémos em simultâneo, toda ela era um sorriso de simpatia envolvente, aliás, os nossos sorrisos chocavam-se produzindo um reflexo de luz... Magia ou ilusão. Deixou sobre a mesa um livro que trazia, de rosto voltado sobre o tampo e foi, fresca e sedutora no andar.

Reparei então, estupefacto, que se tratava do mesmo livro que ando a ler, "NANY" e senti um ardor estranho em todo o interior do meu corpo, um arrepio quente de ternura e repeti para mim: “esta mulher é linda demais para ser de verdade.”

Lembrei-me de Ana Maria e na doçura quase lasciva em que me envolveu a sua amizade. Ana, há quanto tempo tão longe, sem uma palavra, sem um roteiro de encontro, porquê? Terás sentido que te queria ter como fêmea luxuriante? Mas eu contei-te a minha história, sabias que amo a minha mulher acima de qualquer devaneio, sabias que me interesso por mulheres pensantes, mulheres que me permitam ir mais além no conhecimento de mim, testar-me nos vários limites a que me proponho, desde logo, o da amizade, até que ponto a amizade é um amor de grande profundidade, até que ponto me engano quando digo que não quero sexo, apenas palavras e gestos de ternura amiga, desmistificar os problemas ditos insolúveis. Conhecer o meu lado feminino, numa tentativa de absoluto do homem agora sem deus, livre mas só, entregue a si próprio, porque eu acredito em absolutos, não na sua totalidade, mas em absolutos de momentos...de factos ou em acontecimentos que se projectam no tempo...

Ela voltou, graciosa e simples na sua beleza exuberante, a cortar-me os pensamentos, a insinuar-se-me na ausência em que me encontrava...

_Anamar...

Estendeu-me a mão, os olhos, que eram verdes, um verde-escuro e não pretos como me pareceram, a luz de dentro do rosto e em volta, descendo suave pelas faces coradas, que beleza de nome, pensei e devo ter tido uma expressão significativa que a fez adejar sobre o meu silêncio.

_Não acredita? Eu gosto do meu nome.

_É um nome fora do vulgar, belo, como tudo o que me acontece ver de em si, perdoe, mas é meu hábito expressar tudo o que sinto quando me parece que é reciproco, eu sou João Maria.

A mão dela permaneceu na minha enquanto os nossos olhos se investigavam...fechei os meus por um momento...a mão dela na minha...num feiche de carícias por mim fantasiadas...electrizantes partículas de energia percorriam o meu corpo...energia dela a misturar-se onde a minha parecia recuperar duma inércia prolongada...

_Andamos a ler o mesmo livro!

_ E que lhe parece, indaguei.

Queria ouvi-la falar, ocupar-me o silêncio que eu era na minha solitária vivência sem contexto social…exercitar a minha consciência, acomodada à inércia de pensar além do tempo físico…

_É uma história possível, absurda pela anormalidade, mas possível e está muito bem escrita e sentida, as cenas de sexo virtual são um clímax na leitura, sinto que as viveram de facto emotivamente, como se estivessem na realidade colados os corpos e se olhassem de dentro de si...fez uma pausa, a medir, talvez, o efeito das palavras, ou o que queria dizer e se amontoava à porta de saída do pensamento...digo-lhe que o que me fascina é a interiorização das personagens, como figuras reais, que assumem as mutações próprias, que as antecipam, como quando ele responde às afirmações de amor eterno dela, dizendo que “o tempo é a única peça do jogo que condiciona a intemporalidade das palavras, das intenções e que o desfecho será cruel para com ele, por ser a parte mais tendencialmente absurda do romance.”

_Porquê? Por ser muito mais velho? Ou por adivinhar as frustrações dela e o não querer assumir que o namoro em que navegavam era contra os preconceitos que os prendiam?

Anamar sorriu, lindo tudo nela. Folheava o livro aleatóriamente como se procurasse uma cena, ou um pretexto que a ligasse à história e ligou-se...perante o meu encolher de ombros, um tique de iniciação que me dava confiança, prosseguiu…

_Eu tive um casamento falhado, onde tudo era maravilha e etereamente vivido até ao momento em que senti que era mentira, que já nada tinha o fogo sequer da esperança tardia. É como se um élan que nos prende à pessoa, a algo da pessoa, se evaporasse e tudo o que ela diga, ou aparente, nos soa a falso. Hoje penso que a amizade é a base onde se consubstancia o amor...é talvez o único sentimento que nos permite amar com maior alcance...

Há qualquer coisa nesta mulher que me desassossega...os lábios tremeram quando disse amor e entrou-me na alma...senti ela lá onde me escondo, a desvendar-me...

_ É um dos aspectos que me fascina, _digo..., o olhar ausente sobre o mar, nos corpos que se movem na areia fina da praia, _pensar que as pessoas acreditam na imutabilidade duma relação, como se tivessem sido feitos um para o outro, a cara-metade, a alma gémea e não houvesse o tempo, o envelhecimento e a morte de células e o renascimento ou proliferação de outras, ou a mutação de genes, ou uma alteração substancial da energia cósmica que, acredito, nos influencia a vida.

Há um casal em frente que se beija, depois abraçam-se, ainda novos, e reparo nos olhos dele sobre a minha companheira fortuita, olhos malandros, cobiçosos, a medi-la, a tentá-la no sorriso enquanto a namorada lhe morde a nuca...olhará ela para alguém? _penso

_ O João Maria é de que signo .

_ Sou de Capricórnio, porque pergunta? Estuda ou é formada em Astrologia?

_Não, sou apenas curiosa e não desdenho nada do que pode ser útil na definição do meu carácter, da minha ancestralidade posso tratar-te por tu? Eu sou de Escorpião e gosto de pessoas francas que não estejam sempre a olhar-me com um segundo sentido.

Consigo senti-la...Anamar…crescer dentro de mim, como se fora algo de tão só meu, a evoluir, a esquecer-me do tempo que se refazia e me refazia...a afectar-me no pressuposto de que não amaria mais ninguém, do mesmo modo, na mesma intensidade...e ela ali estava a mexer comigo de dentro para fora...de onde eu não podia fugir...

_Sim, claro, sinto que estamos integrados numa perspectiva semelhante do pensamento. Eu creio que existe uma influência cósmica que facilita ou incita à união de um homem e uma mulher, que os determina e que isso nem sempre é tido em conta. É mais fácil, aparentemente mudar de parceiro, infinitamente mudar, numa busca desesperada de encontrar o fio condutor. Ao invés, eu penso que devemos ater-nos ao tempo, e ao nosso conhecimento, aceitar as mudanças, discutir sem pressas que a mudança ocorra na pessoa, mas há algo que não depende só de nós, por isso devemos estar atentos em volta, numa constante descoberta e compreensão do que muda.

Anamar não pára de me fitar enquanto fala…ambos sentimos que as palavras são um pretexto óbvio à comunicação visual que se manifesta intensa e sem floreados de língua, como se temessemos que o silêncio nos arrastaria depressa demais para um destino de falsa partida

_Ao ouvir-te, João Maria, penso que te identificas bastante com o autor do livro, há nele um diálogo constante, do lado de fora das personagens, sobre a procura de uma justificação para o seu envolvimento amoroso, se o que fazem é considerado uma traição aos seus companheiros ou se, pelo contrário, são apenas um conjunto de palavras que constroem um facto e que podem, por ventura, redimensionar as relações em rotura.

Os lábios dela movem-se pausadamente, sem deixar de me mirar...o livro estava a unir-nos, sem que encarnássemos as personagens, discutiamos as ideias, o pensamento narrativo do autor que nos colocava questões pertinentes numa relação...mergulhados na estética da forma esquecíamos a realidade dos olhares que já tinham uma imagem da nossa profundidade…

_Mas não sou o autor, podes acreditar, discordo, por exemplo, quando a personagem quer fazer-nos acreditar que aceitou o desafio de amante, apenas com o intuito de viver um romance, como uma personagem autêntica, porque o que eu sinto é que ele se envolveu todo, perdeu a noção da racionalidade, talvez devido à própria promiscuidade do computador e o desfecho só podia ser aquele, a loucura. E tu, queres falar da tua relação, de como tudo aconteceu? o que correu mal...

De repente, ao olhá-la nos olhos, sinto que estou confortável na sua companhia, que me apetece prolongá-la sem tempo limite, preso nos seus lábios que são o sorriso, nos seus olhos rutilantes que são a sua alma, nos gestos que traduzem encanto e sobe-me o perfume dela, um perfume que me absorve e não eu a ele, ou não já só pelas narinas, mas por todos os poros do meu corpo.

_Talvez amanhã, ou outro dia, hoje ainda tenho os meus pais, vou almoçar com eles, vens amanhã?

_Venho, podíamos vir mais cedo...almoçar por aí...que dizes?

_Veremos a nossa disposição amanhã, o tempo que faz... se nos condiciona...

Despedimo-nos com um beijo nas faces, senti o ardor da pele dela na minha pele e o sorriso provocador...ou sedutor? Ao citar o tempo como condicionante do que fazer amanhã. Fico a vê-la, no corpo ágil, o encanto dos pés...leves...leves e a dar-me conta que uma parte da alma dela ficou...que lonjura amanhã!

 

 

 

II

 

A minha alma passeou a sua inquietude nos sonhos da noite mal dormida, o corpo dorido, ante o alvor que corria célere e se mostrava  na sua evidência de luz a meus olhos povoados de imagens sombrias, a aclarearem-se de mim...o sol despontava sobre a falésia.

É um encontro de estranhos, de mim em mim, o eu central surpreso de me ver cativo duma mulher. Há quanto tempo o meu coração, a mente, o corpo estável, habituado a amar a única mulher que me amou sentidamente. Era assim, mesmo após a morte, sentia-me desligado de um qualquer enlace que se sobrepusesse ao único e grande amor de toda uma vida.

A imagem de Anamar impunha-se-me insistente, toda ela luz, sabores, cheiros, toda ela uma melodia única nos sons da voz, candidamente doce, melosa, a imiscuir-se nos poros da pele, no apelar a um entendimento subtil.

Avisto o infinito do mar, de onde me encontro sobre a cama, a planta Tropical tombada sobrepondo-se à parte direita da janela a toda a largura do terraço, com as portas de correr ao meio. Há uma bruma à flor da água, flocos níveos como fumo de fogueira mal apagada.

O sol ainda meio por detrás da falésia, apenas o vislumbre dos seus raios  uniformes que cortam a neblina, as flores que rejubilam amanhecidas, orvalhadas dos néctares nocturnos.

Foi uma noite de inquietação da alma, sem descanso, a mente febril dilacerando-me entre a memória e a realidade a procurar impor-se como uma sustentação de evidências, a afirmação de que o ser é sendo, o que ontem era um principio inabalável, hoje aparece numa teia de contornos imprevistos, de dúvidas instaladas porque houve uma emoção nos sentidos. Amar é isto de sentir a inevitabilidade de ser na outra pessoa e de acontecer o nascimento duma outra entidade que une mas não absorve...que sendo única respeita a individualidade...mas que não a dispensa…amar é o quinto elemento da vida.

Visto o calção azul-escuro que há muito jazia na gaveta e isso é um sinal que o meu ego se prepara para cultivar a aparência, a camisa de xadrez azul claro sobre fundo branco, os chinelos de cabedal, abertos ao joanete sobressaindo dos meus pés que me parecem enormes.

A praia ainda semi deserta, esplanadas fechadas, o sol já sobre a falésia, rutilante de luz, caminho ao longo do paredão na direcção do Norte, à minha esquerda o mar de um azul fascinante, as ondas mansas, as poucas pessoas que se passeiam cortando a água com os pés, tudo igual a todos os dias, parecem-me até as mesmas pessoas, os mesmos cheiros, chapinhando-se e penso inevitavelmente nela, esbelta, os olhos doces sobre o meu corpo, o gesticular das mãos que compõem o explanar do seu ponto de vista.

À minha direita o que resta da mata de acácias, os parques de campismo, será que ela vem? Que impressão lhe terei causado? A suficiente para que se dê ao trabalho de vir de novo, na incógnita do que poderá acontecer, no aprofundar de questões da intimidade que aproximam ou afastam, que inibem ou despoletam emoções. Não quero acreditar que não venha...li nela algo que no tempo se define como a claridade cósmica...

O meu olhar fixa-se, de súbito, numa silhueta de mulher sentada sobre a pedra grande, à entrada do esporão, o vestido tipo  roupão avermelhado, os óculos escuros, os braços exímios descaídos sobre o corpo e o livro preso na axila do lado esquerdo dela. Sinto toda a harmonia do ser que ela é, ou que se me evidencia como sendo. Aproximo-me, o coração em palpitações de adolescente ante o seu primeiro namoro e penso que é assim, sempre que há uma verdade nos sentimentos, um click de sedução consentida, a voz presa na garganta ressequida.

_ Anamar!...

Ela vira-se e deixa-me abismado sobre mim, tirou os óculos e toda a luminosidade dos olhos estavam patentes, como se tivessem estado a chorar, ou uma memória, um sentir que se tivesse soltado de dentro de si e o sorriso, aberto, agradado, agradável, amoroso.

_João Maria!... Soltou com entusiasmo...

Abraçámo-nos, os seios dela de novo no meu peito, os nossos rostos encostados, tão próximos, perfumes alucinantes vindos dos lábios abertos, apelativos e eu arfante, a sentir o coração dela, a ouvir as batidas aceleradas do meu, tão próximos os lábios carnudos, flores vermelhas humedecidas e afundo-me neles, os meus lábios nos dela, dois toques, frescura e fogo de dentro e embrenho-me e ela embrenha-se, as línguas percorrem-se e ladeiam o interior da boca, as laterais, o céu-da-boca, salivas entrelaçadas de uma doçura quase extravagante, lábios com lábios, as línguas num devaneio possessivo, os nossos corpos colados, roçando-se, o meu sexo levantado, saltitante e julgo perceber o concavo desenhado do sexo dela  sob o vestido, onde o meu sexo se acoita prazenteiro, despudorado, as minhas e as mãos dela percorrendo a costas em movimentos circulares, aconchegando os corpos em suaves apertos, empurrando-os para dentro um do outro...respiração contida, arfante e contida a espaços. Loucos.

_Perdoa-me!...o teu poder foi mais forte...- titubeei, surpreendido de mim próprio...

Os olhos dela tremelicaram, ainda mal refeita, passando a língua pelos lábios, voluptuosa, trémula a voz, entre sumida e grave, quase patética se vista de um outro angulo que não eu.

_Teria de ser um perdão mútuo porque eu também não me contive, foi um impulso...e...bom...

Demos as mãos e caminhámos no sentido da esplanada. No areal os gritos agudos das crianças soltando as energias acomodadas desde a cidade. Atiram-se areia uns aos outros e chapinham na água que vem beijar-lhes os pés puros de meninos e meninas.

_Digo-te que eu própria me surpreendo. Venho de uma separação conflituosa, como te disse, um homem que se alterou a dado passo da relação, que se assumiu como se tivesse tomado posse de mim, exibia-me, como sendo a “sua” mulher, prendia-me até os pensamentos, o gosto de andar despido dentro da casa, _”sou um homem das cavernas...” dizia-me num tom poderoso que me foi cansando...ejacular-se dentro de mim e soltar-se, sem se importar com a minha própria satisfação, do meu estado...alhear-se dos meus anseios, dos meus projectos, possuir-me... _” Deixa-me possuir-te!...”_ era como ele me dizia,  ter-me para ele, dócil, submissa, apenas de sexo...mulher objecto...

Aperto-lhe a mão pequenina entre a minha, macia a pele, os dedos esguios, os seios dela batem no meu braço de vez em quando com a oscilação dos corpos no andar e digo-lhe que gostava de ser dentro dela e de a sentir ser dentro de mim, não apenas por sexo, mas por algo muito mais belo que é a alma, numa corrente contínua onde deixamos de ser eu e ela para sermos um absoluto de amor.Digo-lhe tudo isto apenas com os olhos

Anamar volta-se e beija-me de leve os lábios.

_És um amor de pessoa… muito querido.

Fico sem saber o que dizer…sou tímido e quando me vejo no centro da atenção apetece-me fugir…inventar uma desculpa, mas não fujo...acredito nela, na certeza dos beijos com que me sela…sinto-a avançar por mim descontraída, carinhosa, inteira…enlaço-a com o meu braço e beijo-lhe os cabelos…os olhos…a girarmos eu e ela num novelo vadio ao sabor do vento…a terra parada…

 

_Acabaste o livro? _ Disse-lhe, como quem acorda dum sonho…

_Acabei…é um livro intenso, de culto pela personagem da mulher, das mulheres todas embutidas na Nany da sua paixão, saída do virtual, deixando-se tomar da paixão dela, ele, um homem velho saudoso da sua juvenilidade, ou da juvenilidade da mulher que é o seu amor de sempre, surpreendido de ser o alvo, o objecto do amor confesso de uma mulher muito mais jovem, bonita, com uma vida confortável, a questionar-se do porquê e do que fazer ao senti-la frágil, ansiosa de o ter como amante.

Anamar fala efusivamente do livro, da substância do livro, percorre as personagens, a dissecá-las à luz da sua própria imagem, tentando entendê-las. Gosto dela...

_E as cenas de sexo, alta madrugada “toquei-me...estou toda molhada...”são cenas que saltam do livro e nos colocam dentro da cena, vivenciando a volúpia projectada, depois, toda a teia perversa que ela engendra para acabar a relação, a intriga em volta dele, fazendo-o acreditar que fora um devaneio da sua própria inconstância, o desprezo com que o foi destruindo até que não representasse mais um perigo para a manutenção do seu estatuto de mulher de bem.

E ele, louco, gritando na cidade, julgando que estava à beira do mar: " Nany, Nany!"

 Tomámos o café na esplanada, Anamar de costas para o mar, em frente dos meus olhos, o recorte do tom laranja avermelhado do vestido ou túnica de tecido leve sobre o azul forte do mar e digo-lhe que nos está a acontecer algo de imprevisto, que a estou a sentir como uma célula que brota de mim para fora e que se inclina para reentrar, num ir e vir diáfano que me atordoa que me faz sorrir. Sussurro-lhe ao ouvido…

_Estou como que numa euforia em que me apetece gritar, soltar gargalhadas intempestivas sem nada que as justifique, adejar sobre nós os dois, os nossos corpos revolvendo-se, como se te conhecesse há séculos, fazer loucuras, beijar-te, mostrar-te o meu corpo...festejar-te a cada momento que me olhes ou me sorrias...

Ouço a sua voz melodiosa, silenciada pelo brilho cativante dos olhos, os lábios que se mexem, se mordem a sentir sensações dela, do interior dela, as mãos num rodopio de gestos que procuram completar as palavras, as pernas que se abrem e fecham, o corpo todo em movimento, um movimento que vem de dentro e de súbito, aquele cheiro antigo, há quanto tempo? O cheiro do interior do sexo, absorvente e digo-lhe.

_Querias dizer alguma coisa? Podiamos fazer um almoço para nós em minha casa...quero saber se cosinhamos bem...

Anamar sorri, toda ela, o rosto, o corpo esbelto, um sorriso franco, abrangente, a inteirar-se do meu convite, a sentir que é o momento que secretamente ansiava, secretamente dela própria e faz uma cara preocupada, uma careta que a torna ainda mais bela...

_Sei que entendes a minha alma…Aceito, mas quero dizer-te que estou no terceiro dia da menstruação.

Dito isto levou os dedos aos lábios e encolheu-se toda na cadeira, como se desse conta que dissera um disparate, se predispusera a ter sexo comigo, se adiantara em relação ao momento.

Tentou reparar ou compor o que podia parecer uma insinuação...

_O que eu quero dizer é que não posso beber vinho...

E riu-se...como se tivesse dado conta que fora pior a emenda que o soneto...

_Se não te incomoda eu adorava ser dentro de ti, menstruada ou não, o meu sexo envolto no teu sangue que se te me purifica, o teu cheiro activo nascido do mais intimo. É isso, a menstruação  altera  o efeito sedutor de mistura com os cheiros da apetência sexual. Torna-os exaltantes a nos sublimarem num absoluto de amor.

A m o – te! Miúda linda...

Ela sorri, levanta-se, beija os meus olhos e sussurra-me

_A m o-te! És-me! De mim!

Ela sorri de novo, a alma em redor, a praia "deserta" num repente. Pego na mão que me aperta o braço e vamos...

 

 III

 

Anamar e eu próprio caminhavamos lado a lado por entre a multidão que entretanto  tinha afluído à praia, da manhã  solarenga quase nada restava...o início da tarde quebrava a frescura da brisa...o sol a pino, a queimar energias dum Estio intenso, indiferentes à chilreada das crianças, aos olhares cobiçosos que nos miravam, que a despiam voluptuosamente, tal a beleza que se elevava do seu corpo, da majestade natural do seu andar, como se saltitasse, leve, os seios dela em turrinhas provocantes no meu braço deixado propositadamente a jeito de receber o encosto, sentia os bicos dos mamilos, salientes, isolados do conjunto mamário, por vezes ela abraçava-me e eu sentia toda a totalidade. Despudoradamente deixei de me preocupar com a saliência do meu sexo sob o calção, apenas o acomodei, ao longo da barriga, para que não fosse uma evidência perturbante...lembro-me quando ia ao baile e o atava com uma guita para que, se eu dançace, ele se mantivese discretamente empertigado e de como tal atitude me valera o epiteto de capado...

 Anamar falava ainda do livro que ambos tínhamos lido e que nos impressionara pelo rigor estético da abordagem aos amores alimentados no silêncio dos corpos, as carências conjugais, as certezas mentidas a si próprios que alimentam as dúvidas. Nany é um romance de interiores.

_Explica-me isso de ser um romance de interiores, como uma arte decorativa da alma? E soltei uma gargalhada.

_Repara, tudo se desenvolve no ecrã do computador, excepto quando se encontram para o envenenar, ela e o amante autêntico, Artur, por quem ela tinha de facto uma paixão real, mandara até emissários para o testar, se ele se interessava dela, se tinha compromissos. Ele apareceu num momento fatídico de exasperação interior dela, do seu eu inconstante, a sonhar devaneios, em desvario, queria sentir a libertação de sensações que se acumularam e aquela personagem, galante, caliente, de palavras cruas e olhar penetrante na alma, encantava-a, como se fosse uma pausa de admiração até que o outro estivesse disponível, se vissem cara a cara, como aconteceu.

O livro mexera com ela, Anamar, senti toda a efervescência do corpo, o brilho dos olhos, os apertos que me dava no braço, os seios dela. Não me perguntara nada de mim...como se soubesse tudo, como se não importasse o que eu tinha sido mas o que ela sentia que eu era, o que eu lhe transmitia nas pausas das palavras...

A casa tinha uma sala ampla com vista de mar e era limpa duas vezes por semana por uma mulher que colaborava na manutenção do espaço e das roupas desde que Adélia morrera.

Adélia era a minha companheira, o grande amor da minha vida e tinham passado 10 anos desde então. Ela disse-me, no estertor da morte que eu arranjaria outra mulher, fez-me prometer-lhe que o faria e eu fiquei este tempo todo à espera de alguém, sem sexo, sem carinhos, sem calor nem frio, eu, ausente em mim, numa parte de mim à espera que a outra parte se decidisse e agora, Anamar, os pés descalços sobre os azulejos luzidios, uma alma transparente de onde eu via um mundo paradisíaco à minha espera... a encher a casa de luz, a cortar o silêncio com a volúpia das palavras breves...quem é esta mulher?

_Tenho uma paixão por lingerie... - Disse ela, naturalmente, no tom suave e quente da sua voz que me soava em melodia.

Eu estava em frente da janela grande, de costas voltadas para o mar...vislumbro as nossas almas na penumbra expectantes... e vejo-a subir subtilmente o vestido,  ou a túnica, as pernas, as coxas, a cuequinha de cor preta com desenhos rendados de flores e cupidos espetando corações.

_São Lotus...

_Hã...Os desenhos...são flores de Lótus e Eros caçando seus amores na magia dos aromas. Gostas?

Os nossos olhos não despregam, rutilantes de uma luz que nos inebriava e conduzia de gesto em gesto, as pulsações dos nossos corações, estávamos tão próximos que eu ouvia o meu e o dela, ou era apenas o dela ou só o meu, toc, toc, toc, uma vontade crescente de a abraçar, de ser em ela, de a sentir inteira e dar-me...

Junto à vulva um relevo que me prendia, o corte perfeito, adequado às suas formas.  Erótica, toda ela na sua simplicidade de mulher, os seios saindo da abertura da túnica, orgulhosamente lascivos... os dedos compridos nas mãos bem cuidadas, os lábios sequiosos, embora húmidos de se morderem. Beijei-a demoradamente, os nossos corpos enleados, a pele electrizante de encontro à minha, um ardor de fogo em toda a volta do corpo, do lado de fora, a senti-la arder, os olhos fechados por momentos, longos, e quando se abrem dizem tanto da luz que emanam, como se dissessem “apaga-me”...

Levanto-a do chão com os meus braços e deito-a no tapete grande que há na sala, com motivos de deusas adejando sobre corpos nus de mancebos pujantes de sensualidade.

Fico assim, por um momento, de joelhos a ver o seu corpo a adensar-se na caixa dos sonhos, ou das imagens que edito num recanto da mente, ela olha-me docemente, estende-me os braços e eu debruço-me sobre os seus pés que beijo com toda a ternura que sinto, perco a noção do espaço, do relevo, do tempo... ela encolhe-se com cócegas, chama-me doido, “seu doido querido” e eu sigo o caminho luxuriante de aromas, beijo as pernas, os joelhos e detenho-me ante os cupidos, os corações vermelhos no fundo preto da cueca, o cheiro que me vem de dentro dela que me inunda de prazer, de desejo, de felicidade e beijo o espaço pudico, a vulva por sobre a cueca, ela aperta-me a cabeça, agarra-se aos meus cabelos, afasta as pernas, o meu nariz rasga em movimentos dúcteis a cavidade da vulva, surgem pontinhos luminosos, gotículas de fluidos que se espraiam da vagina, ela aperta-me mais de encontro ao fogo que me exalta e solta ais sumidos, levanto a cueca, uma nesga lateral, com os dedos afasto os lábios raiados de sangue, a purificação do sangue e absorvo todo aquele odor que se apossa de mim, beijo o clítoris, Anamar puxa-me para cima, ainda me detenho no umbigo, beijo a barriga, as partes laterais do corpo e chego às maminhas, os mamilos evidenciando-se, destacando-se escuros na pele clara e já ela, louca, impaciente, mexe no meu sexo e fá-lo entrar na ânsia que a consome em fogo alucinante, beijamo-nos, as línguas num rodopio de dentro das bocas, revolvendo salivas, sabores de frutos, sinto o meu sexo dentro dela, sinto tudo dela, contracções, espasmos, fluidos que se libertam, de súbito ela atira-me ao tapete e ergue-se sobre mim, metida em mim, sem se soltar, o dorso levantado, deusa imponente, as pernas abertas sobre o meu corpo deitado, os seios balouçando enlouquecidos, os olhos revirados, as minhas mãos nas maminhas dela, os mamilos, os ais dela e os meus, a mistura de sons, de odores e de dentro uma revolução emotiva, absoluta, abrasadora...

Anamar caiu sobre mim, exausta, beijámo-nos e ficamos deitados sem dar conta do tempo, inseridos um no outro.

Ao lado, caído no chão, o livro do nosso desassossego, NANY.

 

Autor: joão raimundo gonçalves (jrg)

 

 

 

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O autor:
- (jrg) joão raimundo gonçalves- nasceu no lugar da Costa de Caparica – Trafaria, em 1945.
_Andarilho, foi pescador e outras artes e ofícios...promotor de livros...foi à guerra de África.
-Autodidata de formação...Humanista amante da natureza e de todos os animais que ela acolhe.
-a sua maior riqueza é o amor que recebe e partilha.
-A minha Pátria ou MÁTRIA é a alma humana!
-Aprendiz de viver- escreve versos e textos do interior da alma…do que aprendeu e viveu…do que sonhou e sonha!
-Como pensador acredita na ideia de MÁTRIA, como um sistema de organização humana mais justo e equilibrado, ou o Devir que recupera as origens do homem!
-e-mail: jraimundo.gonalves4@gmail.com
Tem publicado em diversos blogs: 
http://neoabjeccionismo.blogs.sapo.pt 
http://romanesco.blogs.sapo.pt 
http://samueldabo.blogs.sapo.pt 
http://direito-de-resposta.blogspot.com
http://maresiaspoetasportugueses.ning.com/?xgi=33hhlK5pz8oaNf
Publicações em livro: 
-Fragrâncias de Luz…poema com o mesmo título, à laia de prefácio-Fevereiro 2012
-Participação na Colectânea “Poetar Contemporâneo”vol II – edições vieira da silva-Maio 2012
-Participação na colectânea “Corda Bamba” – edição Pastelaria Estudios Editora-Junho 2012
-Participação na colectânea “Ocultos Buracos” – edição Pastelaria Estudios Editora-Outubro 2012
-Participação na colectânea "Beijos de Bicos"...Histórias de Amor - edição Pastelaria Estudios Editora-2013
-Participação na Antologia Voar na Poesia-edição Voar na Poesia-Março 2013
-Poemas de Amor e Guerra em coautoria com a poetisa Zélia Chamusca, no livro A Mensagem-Podemos Mudar o Mundo-edição de Chiado Editora-Maio 2013
Publicações Áudio:
-Participação no programa Dizer Poesia-RDP Internacional-por Isabel Branco 
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sinto-me: bem
música: Jorge Palma
publicado por romanesco às 11:40
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