ÍDOLOS AMORDAÇADOS

A praia, na descida da maré, deixava um imenso espaço de areia rija que proporcionava um belíssimo campo de futebol ou  para outras práticas desportivas. Escolhiam as equipas por entre os que se juntavam, ansiosos de serem escolhido pelo líder, não tanto pela habilidade, mas pelo compromisso de ser família, ou amigo, ou interessado de ou em algo que interessava no momento e que ditava a escolha da equipa que defrontaria a outra de um bairro diferente e escolhida nos mesmo moldes e compadrios.

Mariano tinha habilidade, gostava do jogo, de fintar o adversário, correr para a baliza e fazer golo. Os festejos, a cara de raiva dos outro, tudo o alegrava e havia ainda as raparigas, que em volta do recinto demarcado com os pés, riscos imperfeitos e que junto ao mar, o vai e vem da maré ia desfazendo a tempos. Raparigas que apoiavam uma e outra equipa, consoante fosse a dos seus ídolos ou namorados, ou amigos.

Nascido de uma família humilde, Mariano tinha  a paixão do futebol, o sonho de igualar os vultos em destaque no momento, ser ainda maior,  ser cobiçado por um clube da cidade, ganhar muito dinheiro e poder ajudar a família. Poder comprar de tudo o que gostava, mas sobretudo, ser aplaudido por milhares de pessoas que gritariam o seu nome nos estádios.

Tinha uma namorada, a Nanny, cujo nome advinha de os pais terem estado emigrados em Inglaterra, novos ricos que se opunham ao namoro, por serem muito jovens diziam, mas ele sabia, ou sentia que era por serem pobres, abaixo do limite de ser aceitável ter sonhos possíveis, com uma menina bonita a quem não faltava nada em bens materiais.

Alfredo era olheiro ao serviço de vários clubes e dizia-se que tinha faro para descobrir pequenos prodígios na arte de mexer na bola. Os seus olhos de falcão em constantes movimentos, acompanhando o desenlace das jogadas de ataque, atento aos defesas, aos guarda redes, aos avançados e sobretudo os pontas de lança.

Já tinha notado a arte de Mariano, as potencialidades que, desenvolvidas num grande clube, fariam despontar toda a classe do jovem Mariano e lhe poderiam render largo milhares.de transferência em transferência.

Falou com o pai, ofereceu-lhe dinheiro e conseguiu que ele assinasse um contrato para tratar da vida futebolística do filho, incluindo os eventuais futuros direitos de imagem.

Mariano tinha terminado o 9º ano e ainda ia fazer 15 anos, mas tinha intenção de continuar a estudar. Ser jogador e estudar. Recebeu a noticia do contrato com o Alfredo, o pai entusiasmado, a mãe falava pelos cotovelos, ria-se, os olhos brilhantes. Nunca a vira tão contente, e era apenas um contrato, uma promessa, sequer havia um clube.

Sim, mas o Alfredo agora iria mexer-se. Depressa arranjaria algum interessado em o experimentar e contratar.

Alfredo mexeu-se mesmo. Tinha gravado os jogos de praia em que Mariano exibia as suas qualidades. Apresentou-os aos dois maiores clubes da cidade e obteve a garantia de um deles que queria ver o rapaz a jogar, rápido, antes que fosse a leilão e encarecesse a contratação.

A noticia foi recebida em casa de Mariano com grande alegria e muita excitação. Faziam-se planos para o imediato. Uma casa nova e confortável. Um carro que substituísse o velho Renault, roupas novas, ouro, viagens a acompanhar o filho em todos os jogos fora...

Nanny, a namorada, cautelosa, temendo o êxito rápido, as fãs, o delírio da juventude de Mariano, foi-lhe dizendo que não abandonasse a escola, que ela gostava dele e que tinha o sonho de ser sua mulher, de terem filhos, construírem uma família.

Durante três anos a equipa ganhou os torneios todos em que participou. O treinador gostava dele e colocava-o sempre a jogar. A equipa foi formada para fazer o jogo, as tácticas do jogo, de acordo com o perfil de Mariano e ele foi nesses três anos o melhor marcador de sempre na categoria em que jogava.

Mariano acabou o 12º ano já com alguma dificuldade, dada a natureza esforçada dos treinos, as chamadas à selecção. Mas Nanny, sempre na primeira linha do encorajamento a que não desistisse. Amavam-se e ele fazia tudo o que ela lhe dizia.

O treinador principal, dos seniores decidiu-se a chamá-lo à equipa principal. Foi chamado a negociar um novo contracto, onde era já ele o responsável por si próprio. Sabia do seu valor, ainda que o que contasse era o colectivo, o entrosamento com os outros. Em nenhuma actividade se é o único factor de desenvolvimento, mesmo em nós, no turbilhão de bactérias, moléculas, células que se digladiam por nos controlar cada segmento de nós e que nos proporcionam o bem estar do êxito ou o mal estar do insucesso.

A entrada na equipa principal não foi brilhante para Mariano. Os lugares ali são disputados com uma violência psicológica a que ele não estava habituado. A exposição mediática aumentou e a critica mordaz, nem sempre consequente, ao sabor da disposição dos críticos e dos seus interesses e dos lobbies que os criam.

Foi um ano de altos e baixos, Nanny estava no último ano do curso de medicina e continuava

empenhada em que ele continuasse a sua carreira Universitária. O que se mostrava impraticável, com a rigidez disciplinar dos treinos e preceitos que envolvem os jogadores de alta competição.

Alfredo, o olheiro empresário, movia-se nos bastidores, em tentativas de fazer render o objecto que podia a todo o momento e em vista das dificuldades  que via crescendo, desvalorizar-se no mercado..

Mariano, desconfortável no seio da equipa, rodeado de inveja e ante a recusa tácita dos companheiros, em o envolverem no entrosamento do conjunto da equipa, aceitou transferir-se para um clube estrangeiro.

Surgiram contratos publicitários que lhe trouxeram mais valias financeiras e imediatismo, o que atraía jovens bonitas, apenas bonitas à procura da emancipação e estatuto de vida fácil.

Nanny cansou-se. Médica estagiária, abraçou a carreira com o entusiasmo humanitário que

desde sempre cultivara no seu espírito.

Mariano tornou-se um ídolo em Espanha e conheceu a  fama. Deixou-se envolver docilmente nos enredos da idolatria efémera. Era um jovem bonito e rico. E fazia a fortuna de vários dos detentores de facto da sua imagem. Ele era apenas o objecto. Foi o que descobriu quando uma lesão prolongada o afastou dos relvados por um largo período de tempo...

              -------------------------------------------------------------------------------------------------- 

É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.

Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.

Aguardo a vossa proposta. É uma oferta bonita de Natal ou Aniversário.

 

J.R.G.

 

 

sinto-me:
música: A Barca da Fantasia. Teresa Salgueiro
publicado por romanesco às 09:55
link do post | comentar | favorito