ESCRITOS À MARGEM DA GUERRA,,,M É D O R !!!

 

foto tirada da net

 

 

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era amarelo como a terra
só osso sobre o pelo escorrido
e olhos que espelhavam doce tristeza
o rabo entre pernas medo à guerra
a colar-se todo a mim enternecido
à espera dum gesto meu por subtileza

o rancho tinha gordura bastante
nem eu nem outros o tragavam
Médor mal o cheirou comeu gulosamente
elogo a pele se distendeu num só instante
o rabo ganhou forças aos micróbios que o matavam
e até latiu saltou e me lambeu contente

se o prendesse ficava o dia inteiro
latindo uivando à espera que eu chegasse
seria abatido por alguém mais insolente
assim ia comigo nas patrulhas caminheiro
no rasto dos meus pés minha catarse
sem perturbar da guerra o silêncio envolvente

ficámos íntimos nesta aventura de sobreviver
ele engordando me devolvia com ternura
a responsabilidade em que nele me ensaiava
mas à noite gania sem pudor doce gemer
talvez pulga ou carraça sorvendo na nervura
ou um germe de doença que o tomava

no silêncio a ganideira era um tormento
impedia o medo de descansar dentro da coragem
e logo se levantavam vozes contra o canídeo
ou contra mim por ousar ter um amigo tão portento
que ampliava para além da estulta imagem
dum deus de lata benzido por um desígnio

dei-lhe banho catei os parasitas e já no fim
untei-o com um produto insecticida
o Médor a tremer de estranho frio
logo se rebolou no pó e no capim
comeu dormiu tarde e pela noite tão aquecida
de tal sorte que a latir de novo não resistiu

estranhei que pela manhã ele não viesse
estava fraco vomitara até entranhas
o olhar que me deitou era já de despedidas
no regresso do patrulhamento temi que o perdesse
estava deitado inerte sobre formigas moscas e aranhas
a terra onde o deixei virou lama das lágrimas em mim vertidas


jrg

sinto-me: enternecido
música: Papuça - Zeca Afonso
publicado por romanesco às 15:12
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