ESCRITOS À MARGEM DA GUERRA!...III - A AVIONETA!!!...

 

foto tirada da net

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que fogo arrepiante de apenas sol é este
tórrido a veia latejando incandescente
na fronte onde renasce a dor
que me atrofia os neurónios tão agreste
sob o suor da testa saliente
a ouvir-me num zumbido de motor

acelera arrítmico o coração
atropela de  ansiedade o pensamento
os olhos fixos no horizonte
num ponto que cresce com  a  emoção
à vista do seu próprio crescimento
não há quem na parada não aponte

é a avioneta do correio vem de Bissau
a Dornier cabriolando mágica
como o zumbir dum voo atarantado de besouro
que nos me inunda (talvez traga a encomenda do cacau)
da alegria tantas vezes trágica
e nos acende a esperança do tesouro

lá vem cumprindo o ritual
que faço eu aqui absolutamente pasmado
dói-me o cérebro de onde me vejo
de tão longe que me apalpo a ver se sou real
tinha tomado um banho grado
na fonte das mocinhas em cortejo

todas as semanas como quem morre
na dor absurda de viver
chegam noticias do outro lado do mundo
passaram ao crivo da censura nobre
algumas perdem-se... que fazer
as que chegam tantas vezes já a nau foi ao fundo

ah se eu tivesse acreditado
sete anos entre Abril sessenta e sete
e Abril de setenta e quatro
que um homem nasce para ser reeditado
não conta a aventura em que se mete
ou se andou fugido de antro em antro

talvez tivesse desertado
pensei até na gruta fantástica da falésia
levar-me-ias um pouco de comer
faríamos amor escondidos no reverso do prazo dilatado
não fosse a cobardia ante a controvérsia
de tão imenso amor nos enlouquecer...

chamaram por mim...há quanto tempo
o sorriso malandro do escriba
um confortável maço de folhas por vários envelopes
e em cada um o teu cheiro portento
como quando brincávamos subindo a arriba
e eu atrás de ti no cio com que me cobres

levo as cartas e desando quero recato
como um cão agarrado com ternura ao osso
leio e releio com fervorosa ansiedade
cada palavra é um sussurro um fio de voz cordato
por onde fugir não posso
nem a coberto do vento que corre em liberdade

ah se eu quando anoitecer ousasse
montar esse vento que me toca e chama
quando todos os outros embrulhados no sono dormissem
e num tempo breve sobre o teu corpo acordasse
ouvir o teu riso ver o teu olhar que me reclama
para que a tua e minha alma se unissem

autor: jrg

sinto-me: memória
música: batuque Africano
publicado por romanesco às 01:21
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