Domingo, 26 de Outubro De 2008

LEILA - VIDÊNCIAS DA ALMA

A vida sempre lhe sorrira fértil em sonhos que se iam transformando em realidades que sugeriam novos sonhos, numa sucessão infinita de probabilidades pensadas nos sonhos  e que partiam de si alegremente à conquista da luz e da alma que as solidificasse em realidade.

Vivia numa cidade pequena dos estado de Minas, mulata, de corpo altivo e olhos luminosos de uma vivacidade que a tornavam temida, porque as suas palavras eram cortantes, não ofendiam, mas cortavam dos sonhos alheios, a magia .

Casou e projectou viver em harmonia uma vida plena de momentos doces de felicidade. Sabia que dois destinos, duas almas, duas vontades, era algo de diferente, não era pai, não era mãe, era ela e um outro ser, um homem que lhe parecia uma alma capaz de complementar as insuficiências que via inscritas nos seu sonhos.

Tiveram três filhos, na ânsia de se multiplicarem, de se expandirem em amor. Três filhos lindos que eram o seu orgulho de ser mãe.

O marido de Leila, seu Raimundo, que sempre mostrara uma total afeição pela esposa, sofria de um mal psíquico que não estava totalmente descoberto, nem de si, nem em si e se mantinha num secretismo absoluto, no mais profundo leito da sua alma.

Um dia em que Leila saiu para umas compras de Sábado de manhã, ela que era uma mãe muito possessiva, terna,  previdente, quando estava nas compras sentiu uma sensação estranha vinda de dentro a tomar-lhe o pensamento todo, a apertar-lhe o peito, a descompassar-lhe as batidas do coração. E deu como que um grito: Não!...e saiu disparada,deixando as compras no carrinho do super mercado.

Correu esbaforida para sua casa que era térrea e tinha um quintal grande onde plantava flores e alguns legumes para suprir necessidades básicas e que tinha um poço de grande profundidade, fundo escuro, fundo mágico onde o seu rosto por vezes ondulava quando atirava pequenas pedras para lá e as águas se agitavam em círculos luminosos que lhe transmitiam sinais.

E eram esses círculos ou sinais que a alertavam agora, para algo de terrível que estaria para acontecer.

O quadro que se lhe deparou era Dantesco: seu Raimundo amarrara os três filhos e os colocara num carrinho de mão de transportar terra e com um deles, que se debatia e gritava, em seus braços,  preparava-se para os atirar para o fundo do poço.

Leila, manteve o sangue frio e pegando num ferro que estava por ali abandonado, ou que alguém , ou Deus, colocara ali, correu na direcção de seu Raimundo e zás, derrubou-o com uma única pancada.

Desamarrou os filhotes, chamou o socorro para o marido inerte e partiu para casa de um irmão, Flávio, que a acolheu e queria partir para acabar com seu Raimundo. Leila não o permitiu. Agora havia que partir para outra situação. Não podia continuar naquele lugar e não confiar mais em deixar seus filhos sós.

Entregou-se ao sonho dia e noite. Raimundo escapara ao golpe e estava no hospital se recuperando. Leila contactou seus irmãos que estavam em Portugal que, alertando-a para as dificuldades da integração a entusiasmaram a partir em vez de viver enclausurada no seu imenso Brasil tendo um marido fixado na morte de seus próprios filhos.

Congeminou o sonho, espartilhou-o, reuniu pedaços que colou, projectou sua nova vida num país estranho, mas onde a língua e a cultura se assemelhavam. Haveria de encontrar gente de bem. Consolidou o sonho como uma predição e era já a realidade que a transportava no enorme avião em que se estreava como viajante dos ares, tão próxima de onde lhe vinham os sonhos.

Aceitou a indicação de um irmão para que ficasse numa cidade pequena, junto ao mar, de onde sempre podia imaginar o seu Brasil ao fundo, quando se desce, seguindo a inclinação do por do sol.

Viveu dias de grande dificuldade, de não ter o que comer, mas as crianças era o que mais a incomodava, Ter comer para as crianças. Leila sempre acreditava que havia de criar seus filhos e só depois morrer. Projectou ajudas e encontrou almas que se dispuseram a dar-lhe ferramentas de defesa e de construção dos seus alicerces para sobreviver à enxurrada.

Gente certa no lugar certo e que tinha da ideia de proporcionar ensinamentos para pescar, uma outra realidade e que era a de que, até se aprender, era preciso ter de comer e onde ficar.

E foi assim que de sonho positivo em sonho positivo, extrapolando do sonho a sua realidade a que era e a que queria, que alugou casa, obteve ajuda oficial, sobrealogou a um amigo de infância caído do céu, um quarto vazio, e foi montando um salão de cabeleireiro para cujo sucesso muito contribuiu a sua arte, o seu optimismo e a partilha de tudo o que sentia de positivo com aquelas almas que a ajudavam.

Os filhos cresciam, saudáveis e felizes. Persistiam dificuldades, mas menores, um pouco mais de tempo, sem pressas, e conseguiria . Foi então que lhe sobreveio um diagnóstico médico que a deixou abalada. Seu rim estava desfeito, sem cura, era preciso encontrar um dador compatível urgentemente e a inscreveram desde logo em lista de espera para transplante e que procurasse junto da família, alguém que se dispusesse e fosse compatível.

Escreveu para Minas, a seu irmão Flávio, que era de todos o que sentia mais no interior de si própria e ele a ela, como se fossem ou tivessem sido projectados para gémeos.

Ele respondeu de imediato, que marcasse a consulta para os testes que ele vinha logo. E veio. Era uma tarde quente daquele Verão Estiado, o sol no pino do dia a transmitir força à sua alma sonhadora que acreditava com um sorriso num desfecho positivo que a libertaria do sufoco de se saber condenada a não cuidar mais de seus filhos.

Feitos os testes, o irmão era compatível e estava disposto a doar-lhe um rim para que ela sobrevivesse. Se tudo corresse bem, ambos festejariam o mistério da continuidade de suas almas sobre a vastidão do Planeta.

Leila lembrou-se de dar uma festa enquanto aguardava o dia ,já marcado, para a operação de transplante. Todos os dias eram uma festa do seu espírito positivo, mas esta seria uma festa em que reuniria amigos e amigas que sentia tão  próximos de si que eram como se a sua alma poisasse em cada um deles sempre que queria descansar. Além de que a preocupava, não por si, mas pelo irmão. A operação podia correr mal e morriam os dois, mas podia morrer só um deles. Se fosse ela, já estava destinada, mas o irmão que estava são, seria uma dor que a acompanharia toda a vida se sobrevivesse. Mas queria acreditar no sucesso total.

A festa ia animada, noite dentro, Leila, seu irmão Flávio e os amigos, musica Brasileira, samba e canções de sucesso no Brasil e em todo o mundo. O telemóvel toca insistentemente, mas o ruído da música abafava, as vozes em uníssono que se reuniam na orgia das almas. Os copos de mão em mão, mais cerveja, caipirinhas, e é quando algo a aproxima do local de onde pode ouvir o toque nítido, agora evidente, do celular, que a chama.

Atende e ouve, do outro lado, como se de si,ou de um além estranho, a voz afável e quente que lhe diz:

_Leila!...

_Sim, sou eu!...

_Leila, ainda bem que está em casa. Temos um rim disponível, uma pessoa que acabou de morrer, tem de estar pela manhã cedo no hospital,seis horas. Pode?...Quer?:::

_Sim, lá estarei, vou já se quer!...

Respondeu tudo automático, como se fosse uma outra pessoa, uma outra de si, ainda longe da realidade da festa quando se virou e gritou num tom de alegria imensa.

_Gente!...Parou a música!...

Todos se calaram, os olhos apreensivos de entre a névoa do álcool, de entre o eco das cantigas da Pátria longínqua, atentos ás palavras.

_Gente, eu sabia, eu sentia que Deus não queria submeter o meu Flávio a esta prova de amor. Tenho um dador e vai ser já daqui a pouco que vou ser operada.

Um grito de alegria, mais cerveja, mais música e Leila e Flávio abraçados , chorando como uma só alma na orgia da festa.

A operação correu bem e Leila regressou a casa, casa vazia de seus amores, os filhos ficaram com um irmão dela até que tudo em si voltasse à normalidade. Vivia só, Leila, com seus sonhos, havia de ter uma casa dela, um marido que a respeitasse e que com ela quisesse romper as brumas que se envolviam no sonho. Ser feliz, criar os seus filhos.

No hospital disseram que se sentisse alguma perturbação fosse directo lá. Nada de outros hospitais.

Estava ela nas congeminações de tornar realidades novos sonhos, quando começou a sentir um calor imenso que a percorria e se instalava, como se um fogo de chama e labareda sem fumo, sem aviso prévio a quisesse consumir lentamente. Tentou levantar-se e caiu no chão, os pensamentos longe. Ouvia tocar o telefone, mas não via o telefone. O pensamento nos filhos, sentia que ia morrer. E não queria morrer sem ter cumprido o que achava de direito, ter os filhos criados, os filhos que salvara do poço, os filhos que não pediram para nascer, os filhos que eram toda a luz da sua alma. E o telefone que tocava e não o via, não sabia de onde esse barulho estranho que ela própria instalara. Ia morrer, Ia morrer...

Lá está, com esforço, arrastando o corpo cada vez mais pesado, o volume a aumentar, o seu corpo ainda esbelto, agora disforme,

_Leila!...Leila!...

Ouvia a voz de Ana, uma amiga de cá, do coração, da alma e a voz que não lhe saía....

_Ana, vou morrer!...

-Leila, vou já para aí, abra a porta e ponha um sapato, alguma coisa, que mantenha a porta. Vou já para ai...

Abriu a porta de baixo, colocou um sapato a impedir que a porta se fechasse e deixou-se ficar, sentia que a vida se esvaia de todo. Os filhos...

Ana chegou e depara-se com o quadro indescritível, o corpo inchado de Leila, a febre elevada e a voz dela, sussurrante.

_Ana, eu não vou morrer sem ter criado meus filhos. Me leva, Ana...

Ana chama a emergência, os bombeiros chegam rápido mas querem levar Leila cumprindo os preceitos legais, primeiro o hospital de residência. Ana discute com eles a urgência de a levar ao hospital que a operou, eram essas as indicações.

Exaltam-se, discutem e Ana toma uma resolução.

_Ajudem-me a coloca-la no meu carro eu levo-a!...

Os bombeiros Olham-na surpreendidos e executam o pedido. Ana parte a toda a velocidade.

Vai sem controlo emocional, olha o corpo de Leila que arde a seu lado, mal respira, julga que a leva morta, conduz todo o trajecto como se fosse uma outra pessoa e não ela. Vocifera contra o trânsito que lhe obstrui a passagem, buzina.

Não sabe muito bem onde fica o hospital mas guia o carro por estradas e ruas, sons e cheiros de um corpo que lhe parece já não ser. e, de repente, o nome do hospital ante os seus olhos, como se uma visão e não uma realidade, como se algo ou alguém que não ela a tivesse conduzido com a precisão infalível de um mecanismo irreal, absurdo.

Viu o corpo que a urgência levava e aguardou na sala um veredicto que se recusava a acreditar. Leila...

O médico surgiu como uma visão aos olhos de Ana.

_E então Dr.?...

_Salva por um milagre da prontidão com que a trouxe.

Leila, tudo projectado mulher, por entre as brumas do sonho

 

 

 

É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.

Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.

Aguardo a vossa proposta. É uma oferta bonita de Natal ou Aniversário.

 

J.R.G.

sinto-me: contemplativo
música: amigo...amiga (dueto de Roberto Carlos e Bethãnia
publicado por romanesco às 19:04
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Segunda-feira, 20 de Outubro De 2008

ÍDOLOS AMORDAÇADOS

A praia, na descida da maré, deixava um imenso espaço de areia rija que proporcionava um belíssimo campo de futebol ou  para outras práticas desportivas. Escolhiam as equipas por entre os que se juntavam, ansiosos de serem escolhido pelo líder, não tanto pela habilidade, mas pelo compromisso de ser família, ou amigo, ou interessado de ou em algo que interessava no momento e que ditava a escolha da equipa que defrontaria a outra de um bairro diferente e escolhida nos mesmo moldes e compadrios.

Mariano tinha habilidade, gostava do jogo, de fintar o adversário, correr para a baliza e fazer golo. Os festejos, a cara de raiva dos outro, tudo o alegrava e havia ainda as raparigas, que em volta do recinto demarcado com os pés, riscos imperfeitos e que junto ao mar, o vai e vem da maré ia desfazendo a tempos. Raparigas que apoiavam uma e outra equipa, consoante fosse a dos seus ídolos ou namorados, ou amigos.

Nascido de uma família humilde, Mariano tinha  a paixão do futebol, o sonho de igualar os vultos em destaque no momento, ser ainda maior,  ser cobiçado por um clube da cidade, ganhar muito dinheiro e poder ajudar a família. Poder comprar de tudo o que gostava, mas sobretudo, ser aplaudido por milhares de pessoas que gritariam o seu nome nos estádios.

Tinha uma namorada, a Nanny, cujo nome advinha de os pais terem estado emigrados em Inglaterra, novos ricos que se opunham ao namoro, por serem muito jovens diziam, mas ele sabia, ou sentia que era por serem pobres, abaixo do limite de ser aceitável ter sonhos possíveis, com uma menina bonita a quem não faltava nada em bens materiais.

Alfredo era olheiro ao serviço de vários clubes e dizia-se que tinha faro para descobrir pequenos prodígios na arte de mexer na bola. Os seus olhos de falcão em constantes movimentos, acompanhando o desenlace das jogadas de ataque, atento aos defesas, aos guarda redes, aos avançados e sobretudo os pontas de lança.

Já tinha notado a arte de Mariano, as potencialidades que, desenvolvidas num grande clube, fariam despontar toda a classe do jovem Mariano e lhe poderiam render largo milhares.de transferência em transferência.

Falou com o pai, ofereceu-lhe dinheiro e conseguiu que ele assinasse um contrato para tratar da vida futebolística do filho, incluindo os eventuais futuros direitos de imagem.

Mariano tinha terminado o 9º ano e ainda ia fazer 15 anos, mas tinha intenção de continuar a estudar. Ser jogador e estudar. Recebeu a noticia do contrato com o Alfredo, o pai entusiasmado, a mãe falava pelos cotovelos, ria-se, os olhos brilhantes. Nunca a vira tão contente, e era apenas um contrato, uma promessa, sequer havia um clube.

Sim, mas o Alfredo agora iria mexer-se. Depressa arranjaria algum interessado em o experimentar e contratar.

Alfredo mexeu-se mesmo. Tinha gravado os jogos de praia em que Mariano exibia as suas qualidades. Apresentou-os aos dois maiores clubes da cidade e obteve a garantia de um deles que queria ver o rapaz a jogar, rápido, antes que fosse a leilão e encarecesse a contratação.

A noticia foi recebida em casa de Mariano com grande alegria e muita excitação. Faziam-se planos para o imediato. Uma casa nova e confortável. Um carro que substituísse o velho Renault, roupas novas, ouro, viagens a acompanhar o filho em todos os jogos fora...

Nanny, a namorada, cautelosa, temendo o êxito rápido, as fãs, o delírio da juventude de Mariano, foi-lhe dizendo que não abandonasse a escola, que ela gostava dele e que tinha o sonho de ser sua mulher, de terem filhos, construírem uma família.

Durante três anos a equipa ganhou os torneios todos em que participou. O treinador gostava dele e colocava-o sempre a jogar. A equipa foi formada para fazer o jogo, as tácticas do jogo, de acordo com o perfil de Mariano e ele foi nesses três anos o melhor marcador de sempre na categoria em que jogava.

Mariano acabou o 12º ano já com alguma dificuldade, dada a natureza esforçada dos treinos, as chamadas à selecção. Mas Nanny, sempre na primeira linha do encorajamento a que não desistisse. Amavam-se e ele fazia tudo o que ela lhe dizia.

O treinador principal, dos seniores decidiu-se a chamá-lo à equipa principal. Foi chamado a negociar um novo contracto, onde era já ele o responsável por si próprio. Sabia do seu valor, ainda que o que contasse era o colectivo, o entrosamento com os outros. Em nenhuma actividade se é o único factor de desenvolvimento, mesmo em nós, no turbilhão de bactérias, moléculas, células que se digladiam por nos controlar cada segmento de nós e que nos proporcionam o bem estar do êxito ou o mal estar do insucesso.

A entrada na equipa principal não foi brilhante para Mariano. Os lugares ali são disputados com uma violência psicológica a que ele não estava habituado. A exposição mediática aumentou e a critica mordaz, nem sempre consequente, ao sabor da disposição dos críticos e dos seus interesses e dos lobbies que os criam.

Foi um ano de altos e baixos, Nanny estava no último ano do curso de medicina e continuava

empenhada em que ele continuasse a sua carreira Universitária. O que se mostrava impraticável, com a rigidez disciplinar dos treinos e preceitos que envolvem os jogadores de alta competição.

Alfredo, o olheiro empresário, movia-se nos bastidores, em tentativas de fazer render o objecto que podia a todo o momento e em vista das dificuldades  que via crescendo, desvalorizar-se no mercado..

Mariano, desconfortável no seio da equipa, rodeado de inveja e ante a recusa tácita dos companheiros, em o envolverem no entrosamento do conjunto da equipa, aceitou transferir-se para um clube estrangeiro.

Surgiram contratos publicitários que lhe trouxeram mais valias financeiras e imediatismo, o que atraía jovens bonitas, apenas bonitas à procura da emancipação e estatuto de vida fácil.

Nanny cansou-se. Médica estagiária, abraçou a carreira com o entusiasmo humanitário que

desde sempre cultivara no seu espírito.

Mariano tornou-se um ídolo em Espanha e conheceu a  fama. Deixou-se envolver docilmente nos enredos da idolatria efémera. Era um jovem bonito e rico. E fazia a fortuna de vários dos detentores de facto da sua imagem. Ele era apenas o objecto. Foi o que descobriu quando uma lesão prolongada o afastou dos relvados por um largo período de tempo...

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É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.

Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.

Aguardo a vossa proposta. É uma oferta bonita de Natal ou Aniversário.

 

J.R.G.

 

 

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música: A Barca da Fantasia. Teresa Salgueiro
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Terça-feira, 07 de Outubro De 2008

DILEMAS DA ALMA-A MULHER E O CANCRO DA MAMA!...

Acreditara na profundidade do que sentia dele, nas palavras e em todo o sentido do seu olhar lânguido onde lia ternura, amor, entrega. Um absoluto de certezas que o saber a induzia mais que o sentir. A razão, o ser. E ela entregara-se vencida, talvez porque queria ter a sua própria vida, afrontar alguém que a prendia ou que ela sentia que a prendia, lhe sonegava a liberdade de viver-se a si própria, errar, vencer, por si ,em si.

_Sra enfermeira...menina...

Olhou a mulher, ainda jovem, 40, 45, não mais, o olhar triste, parecendo vazio, longe do lugar, da sala iluminada pela claridade do dia que rompia da longa noite. Estabelecera com ela uma relação de empatia crescente, extra profissional, fora do que aprendera  no curso de enfermeira. Não permitir a intrusão do drama, Não sentir a realidade para que não lhe faltasse a racionalidade das prioridades. Faltava uma hora para sair e embrenhar-se definitivamente em si, ainda que de quando em quando os espectros do hospital se intrometessem como a lembrá-la que era um ser útil. Que fazia falta.

_Estou aqui, diga...

Os olhos nos olhos, uns e outros a aconchegarem-se no alvor de uma nova vida, a interrogarem-se de porquê elas, a cada uma a sua inquietação, o seu percurso.

_A menina tem uns  seios tão bonitos. Deixe-me vê-los.

Fez um esforço para conter as lágrimas. Porra, era gente! Escolhera a profissão por se sentir suficientemente forte, ou por desafio a si própria, à sua capacidade, ou limite de ser uma fortaleza do ser que se sentia imerso em submissão.Libertar-se pela dor ou com a dor dos outros onde a sua se diluísse.

Aquela mulher era como um desafio a tudo o que queria da vida. Senti-la plena, no seu próprio interior, na sua alma, era como reduzir a nada o abandono a que se sentira votada por aquele traste que lhe prometera o mundo, o amor eterno, a felicidade a cada instante de ser mulher. O que falhara, se se dera toda? Teria dado demais? Teria ocupado o espaço total do outro que era ele? Mas não é isso amor? Dar-se. O ter e o ser.

Ouvira o cirurgião dizer  que iam tentar salvar um dos seios e depois, a cara dele sob a máscara, os olhos inquietos. Lembra-se que ele a olhara por segundos, como a desculpar-se ou a pedir ajuda, o leve encolher de ombros, ainda um compasso de espera e zás, o outro estava contaminado, as raízes do bicho agarradas até onde?...Ficou plana, os olhos fechados, o corpo inerte onde tudo funcionava ainda, como se nada tivesse acontecido ao seu corpo de mulher ainda jovem.

Soltou os seios, pequenos, firmes, de menina já mulher e ficou em frente dela, olhando os olhos dela que a fixavam, passando a língua pelos lábios, as mãos que lhe tocavam, frias, trémulas e as lágrimas de ambas. Deu-lhe um beijo sobre a testa.

_Não estou livre de me acontecer o mesmo. Está viva. Tem de encontrar a tal força dentro de si, de dentro de si e vai ter muita gente a segurar-lhe a mão, vai fazer uma vida normal, como um coxo, um cego, lembre-se, está viva!...

Sentia que eram apenas palavras de alento. A operação tinha sido há seis dias e ainda ninguém viera vê-la. Adoptara-a, a ela, como a única possivel no universo dos que a viveram, dos que abusaram do seu corpo, a usaram como simbolo ou fetiche de todo um mundo de momentos de fantasia.

_A menina sabe bem que o que me espera é a mais sombria solidão. Que ainda não sei como vou sobreviver a ela ou se me deixo ir, lentamente, voluptuosamente embrenhada nesse sentimento lúgubre de não ser, de não querer ser.

_ E o seu marido?

_É como vê. Depositou-me e foi-se. Não sei se o volto a ver. Já lhe sentia a incerteza nos olhos ausentes quando lhe mostrei os exames fatídicos. Não houve muitas mais palavras desde então...

Os olhos dela baixaram ao nível da barreira que sentia erguer-se entre a vida física e a alma.

Um vácuo imenso e sem forças para o percorrer. Um vácuo em túnel de paredes escuras e frias. Vultos brancos, estéreis de matéria, voláteis, em movimentos lentos, em torno da cama, no tecto, em volta do corpo que recusava mover, olhar, sentir...

A enfermeira muito jovem, a paciente ainda jovem, as palavras que se esgotavam, porque não há palavras suficientes. A ânsia de inventar novas palavras. O corpo dela muito jovem, exuberantemente belo, harmonioso, sensual. O corpo da paciente, ainda jovem, mutilado, mas belo, sedutora a alma que sobressaía dos olhos nublados de lágrimas. Os vincos na testa de pele macia, corada de tons amarelados.

_ Talvez eu possa ir morar consigo. Partilhamos experiências. Sou livre de compromissos...por um tempo...não para sempre, claro...

A paciente estremeceu. Ouvira bem? Seriam apenas palavras de ânimo que podiam ou não cumprir-se?

-Bem, a casa era dos meus pais. Morreram ambos com intervalo de poucos meses. O meu marido... vivíamos em comunhão há seis anos. Vínculos precários.  A menina seria capaz?

Era um passo gigantesco. Sair de novo de casa dos pais ,mas desta vez sem um projecto normal de ajuntamento de casal, de viver a vida própria. Construir o edifício clássico da família. Ser família.  Mas dissera as palavras e acreditava que os impulsos ditados do interior de si, da alma que sentia pujante de verdade, a única verdade, eram afirmações da essência ,do seu ser cósmico. Se não, para que servia ser?

_Sim, sou capaz. Amanhã o doutor dá-lhe a alta e vamos construir algo de novo. As duas...Nada está perdido em si. É preciso reestabelecer a confiança em absoluto do seu poder sobre o corpo.

-_Menina!...minha amiga.

Ficaram abraçadas as duas por largos minutos, misturando lágrimas e afectos vindos do interior em catadupas de suspiros e afagos de ternura.

Era o dia de folga e ela, como qualquer outro utente, esperava no átrio aconchegado de gente  que borbulhava de conversas, de atritos com os serviços, com as famílias, a chegada da amiga.

Um raio de sol entrava pela porta vidrada e espalhava sombras pelo espaço em volta. Estava calma, serena a alma e feliz. Quando sorriu ao vê-la, caminhando lentamente, muito direita, como se carregasse algo muito frágil que queria evitar a todo o custo que se partisse.

Abraçaram-se. Sorriram-se de novo e seguiram normalmente o novo rumo.

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É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.

Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.

Aguardo a vossa proposta. É uma oferta bonita e original de Natal ou Aniversário.

 

J.R.G.

sinto-me: esperançado
música: Dó, ré, mi...de Música no Coração(filme)
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